Do contra, por convicção

Por João Marcos Coelho
No Valor, de São Paulo

Tom Jobim disse que regava com sua urina, religiosamente, um vaso de “tinhorão”. Para Sérgio Cabral, “tinhorão é apenas uma árvore herbácea da família das Aráceas”. E Ruy Castro o define como “bête noire” e “dragão da maldade” da bossa nova em seu livro “Chega de Saudade”.

Falem mal, mas falem de mim – nunca o dito popular foi tão adequado. Tom, Cabral e Castro podem partir para o desaforo pessoal ou a desqualificação do homem, mas é impossível bater de frente ou ignorar o pesquisador. Não dá para desconhecer os quase 30 livros de José Ramos Tinhorão sobre a música popular urbana, num enorme arco histórico que cobre do século XVI ao nosso século XXI. E, principalmente, o rigor com que pauta seu trabalho.

Aos 82 anos, e em mais de meio século de pesquisa primária – algo que o pessoal daqui não gosta de fazer, preferindo o “achismo” amadorista -, Tinhorão acumulou mais de 50 mil itens documentais, entre 6,5 mil discos 78 rotações gravados e lançados entre 1902 e 1964; 6 mil discos 33 rpm, os chamados long plays, gravados e lançados entre 1960 e 1990; 35 mil partituras de canções populares, além de mais de 14 mil livros e documentos raros, como fotos, jornais, cartazes, jornais, revistas, rolos de pianola e folhetos de cordel, com destaque para os 800 folhetos históricos, num arco de quase dois séculos. Até cartas de jesuítas do século XVI Tinhorão conseguiu coletar.

O tema é amplo, mas um só: a avenida principal é a música e a cultura popular urbana do Brasil, com suas inúmeras variantes. Uma ruela, por exemplo, levou-o ao namoro da música popular com a literatura (três livros formidáveis); outra travessa o fez retornar ao Portugal de seus pais; e ao caminhar numa terceira, entre tantas outras, Tinhorão esmiuça as origens da música popular a partir da Revolução Francesa.

Na terça-feira, o Centro Cultural do Instituto Moreira Salles, no Rio, entrega ao público parte desse fantástico acervo, após nove anos de catalogação e digitalização. Durante quatro dias estará exposta uma pequena amostra, em escolha pessoal do próprio Tinhorão: os primeiros jornais e folhetos de modinha publicados no Brasil, fotos raras de Pixinguinha e Noel, discos de samba anteriores ao “Pelo Telefone”, tido como marco inicial do gênero. Tinhorão será personagem central de um bate-papo sobre seu acervo e autografará três lançamentos: dois livros (“A Música Popular que Surge na Era da Revolução”, da Editora 34, e “Crítica Cheia de Graça”, do Empório do Livro) e a biografia “Tinhorão, o Legendário”, de Elizabeth Lorenzotti, editada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Até o fim do ano a íntegra do acervo será disponibilizada para consulta pública, via internet ou no próprio Instituto Moreira Salles do Rio.

Tinhorão exerceu o jornalismo com brilho entre 1953 e 1989. As datas, específicas, referem-se a sua entrada no “Diário Carioca” e a sua demissão do “Jornal do Brasil”, para o qual colaborava como crítico de música popular. Entre uma e outra, trabalhou em todas as redações possíveis, incluindo uma passagem por “Veja” e outra, muitíssimo bem-sucedida, pela revista “Nova”, ambas da Editora Abril. Além de exímio copydesk (redator que “penteava” e melhorava os textos dos repórteres), era dono de texto inteligente, cortante. Ia sempre direto ao ponto.

O santista que adotou o Rio como segunda pátria encontrou em São Paulo a cidade ideal para assumir de vez seu lado pesquisador, ou melhor, de “historiador da música popular urbana”, como gosta de se qualificar. O ano de 1979 foi o da ruptura total com a vida anterior: separou-se da mulher, para quem deixou praticamente tudo. Mudou-se para uma quitinete no centro de São Paulo, atulhada de livros, jornais e documentos – dormia num “sleeping bag”. Ficou só com o carro, que vendeu para financiar uma viagem a Portugal. Àquela altura, já tinha vários livros quase prontos, mas ninguém queria editá-los por aqui. Kafkianamente, teve vários de seus 30 livros lançados primeiro pela Caminho Editorial – dirigida por um comunista, como ele mesmo.

A força do Tinhorão historiador vem de sua busca sistemática de documentação primária para provar a tese marxista estrita de que a música popular constitui um campo privilegiado da resistência do proletariado ao sistema capitalista. Esse formão meio simplista orientou toda a sua vida profissional como crítico e historiador.

Também se localiza nessa atitude sua principal fraqueza como crítico. Seu pecado era ser previsível. Todo mundo sabia de antemão quem elogiaria ou malharia. Para ele, não havia vida inteligente acima das classes populares. A famosa batida ao violão que João Gilberto disse ter criado observando os requebros das lavadeiras de Juazeiro, na Bahia? “Cascata, conversa fiada”. Dick Farney? “Não, Farnésio Dutra”. Excelente cantor? “Sim, mas de música americana”. Tom Jobim? “Jobim começou querendo ser Villa-Lobos, depois se conformava em ser Cole Porter e acabou sendo só Antonio Carlos Jobim – ele não era um criador, era um bom músico”.

Tinhorão arrolou 16 músicas de Tom com antecedentes conhecidos – ou seja, plágio. E não estava errado. As décadas posteriores provaram que Tom Jobim não faz feio quando perfilado ao lado de Cole Porter, George Gershwin e Stephen Sondheim; e que a bossa nova tem mais a ver com o West Coast jazz do fim dos anos 1940 e com Chet Baker e Gerry Mulligan do que gosta de admitir. Nada disso parece tão negativo hoje. Mas seu jeito xenófobo de invalidar qualquer criador musical que ganhasse mais de um salário mínimo o fez colecionar inimigos a granel.

Nesse sentido, ele foi mesmo o “dragão da maldade” para a bossa nova. Em março de 1962, sua série de artigos no “Jornal do Brasil” intitulada “Lição de Samba” chegou ao capítulo bossa nova.Tinhorão botou o seguinte título: “Bossa nova nasceu como automóvel de JK: apenas montado no Brasil”. Em novembro, fez um copy maldoso no “Caderno B” do “Jornal do Brasil” a partir das informações que recebia de uma testemunha do célebre concerto da bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York.

E quatro anos depois deu uma definição do gênero que ficou famosa: “Filha de aventuras secretas de apartamento com a música norte-americana – que é, inegavelmente, sua mãe -, a bossa nova, no que se refere à paternidade, vive até hoje [1966] o mesmo drama de tantas crianças de Copacabana, o bairro onde nasceu: não sabe quem é o pai”.

Desde o início, no “Diário Carioca”, Tinhorão tinha mania por recortes de jornais. Ele mesmo conta na excelente biografia de Elizabeth Lorenzotti: “Uma vez, o Lago Burnett me trouxe uma caixa embrulhada para presente, tinha um penico com um cartão: ‘este penico era de Noel Rosa'”.

Se você quer dar boas risadas com os excessos de um crítico xenófobo, mas refinado na escrita, leia a seleção de artigos que está na biografia de Elizabeth. Agora, se quiser se embasbacar com a qualidade e o rigor da pesquisa do historiador, então se encante com “A Música Popular que Vem da Revolução”. Afinal, como talvez não suspeitasse Glauber Rocha, todo dragão da maldade embute um santo guerreiro.

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