Do governo e a cultura

Passaram-se mais de uma hora de espera. Eu estava na ante-sala da Governadoria a espera de duas frases – exatamente isso – da nossa chefe do executivo Wilma de Faria. Uma opinião a respeito da famigerada e imunda Lagoa dos Potiguares, em Morro Branco. Uma reclamação da comunidade há mais de 18 anos e sem solução até hoje.

Quando cheguei às 16h em ponto, lá já estavam o artista plástico Guaraci Gabriel e o diretor Geraldo Cavalcanti. Queriam dois minutos de conversa com o chefe do Gabinete Civil do governo, Wober Júnior. Ou o tempo necessário para reiterar a promessa de duas passagens para ambos irem a Cuba e concluírem um documentário – ou docu-drama, como falaram – filmado na Ilha de Raul.

O documentário chama-se Mariposa Blanca. Pelo que me contaram ficará uma maravilha. E vejam: dois potiguares à frente de um projeto tão bacana. Uma oportunidade a mais para incentivar o cinema produzido na terrinha. Eles já têm 26 horas filmadas. Depoimentos fantásticos e raros. Bastou um simples perguntar do porquê de eles estarem ali tanto tempo esperando e o entusiasmo tomou conta para contar de seu projeto.

Lembrei do livro As Alças de Agave, do escritor François Silvestre. Nele, é contado como o atual governo – e mais ainda os anteriores – tratam a cultura: com mendicância. Poxa, uma produção original, potiguar (com co-produção cubana), com dois diretores gabaritados e entusiasmados e é preciso essa humilhação da espera, da súplica. Guaraci estava para desistir tamanha a demora e sem nenhuma satisfação dada.

Eis que, após uma hora, os repórteres são chamados para esperar em outra sala: a de Wober Júnior. Para minha surpresa, o chefe do Gabinete olhava algo sem importância em seu laptop. Pelo menos deixou transparecer já que ouvia toda a conversa dos jornalistas e seus salários ridículos e por vezes se intrometia. Enquanto isso, Guaraci e Gabriel a espera do pão, porque o circo já se sabe onde está.

PONTOS DE CULTURA
Outro assunto não poderia deixar de comentar hoje. Foi publicado hoje no Diário Oficial da União um convênio entre o Ministério da Cultura e a Fundação José Augusto para abertura de 53 novos Pontos de Cultura no Rio Grande do Norte. 23 destes Pontos serão instalados nas 22 casas de Cultura que estão em pleno funcionamento e na Casa de Cultura de Goianinha que está sendo construída. Os outros 30 Pontos serão escolhidos através de edital aberto para todo o Estado, anunciado em breve pela FJA.

É um investimento de R$ 8,3 milhões. A contrapartida da FJA é de R$ 1,8 milhões. Cada ponto de Cultura recebe anualmente R$ 60 mil para serem investidos em sua manutenção e projetos durante três anos.

Esse pode ser o único investimento de peso do Governo do Estado destinado à cultura popular até o momento. Um Ponto de Cultura é um importante apoio para que agentes culturais desenvolvam atividades em suas comunidades. Ele não tem um modelo de instalação física, programação ou atividade. É mais dinâmica, digamos assim, que as Casas de Cultura. Significa um modelo de gestão compartilhada entre o poder publico e a comunidade. E aí é onde mora o medo. Basta lembrar das Casas de Cultura: uma idéia genial de François Silvestre, mas sem o apoio das prefeituras, da comunidade e, principalmente, do Governo, nada funciona.

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