Do impresso ao digital

Eu conheço um pouco de jornalismo impresso, da redação à oficina. Acumulei alguma experiência. Acho que foi isso que Carlão de Sousa quis dizer. E estou aprendendo, a cada dia, um pouco mais sobre este novo mundo, o digital.

Fui um privilegiado porque vivenciei a transição da imprensa do analógico para o digital. Em meados dos anos 80, quando comecei no jornalismo, trabalhávamos em velhas máquinas datilográficas, não havia celular e a “internet” era o velho e barulhento telex.

Lembro perfeitamente da epopéia que era fazer o jornal corporativo da Federação das Indústrias, que eu editava à época. O jornal era trimestral. Eu datilografava as matérias e ia juntando na gaveta. Ao final do trimestre eu colocava num envelope aquela maçaroca de textos, mais as fotos (em papel, claro) e passava para uma diagramadora, terceirizada, que digitava todo o material e diagramava no Pagemaker, que depois eu aprendi sozinho e passei a fazer tudo. Transportava esse material como o maior medo porque eram cópias únicas e se desse algum problema teria de refazer tudo. Um processo que levava mais de uma semana para ser concluído.

Não sinto um pingo de saudade daquele tempo. Só faz idéia exata da mudança e do que ela representou para o jornalismo quem viveu na pele aquele tempo.

Adaptação sem traumas

Adaptei-me sem dificuldades ao meio digital e tornei-me um dos seus entusiastas. Por vários fatores, mais um é-me mais caro. A independência. Uma questão que me afligia quando trabalhei em redação era a falta de independência, querer escrever um artigo sobre determinado tema ou pessoa e não poder porque iria de encontro à linha política ou empresarial do jornal.

Como no RN, a maioria dos veículos de comunicação ou é dominada por políticos ou reféns de suas diretorias comerciais, resta pouco espaço para a liberdade editorial, para vôos individuais mais livres. A internet mudou isso e é um ganho profissional que poucos fazem idéia de sua importância.

Se não fosse a internet quando é que eu e outros colegas poderíamos ter seus veículos de comunicação? No caso do SP, tem o formato atual porque assim eu o idealizei, mas poderia ser um jornal, uma revista, um fanzine, uma mistura de tudo isso etc.

Claro, trouxe a minha experiência de ‘faz tudo’ dos impressos pra cá. Que tem sido de muita valia. Longe de mim cuspir no prato que comi. Mas não penso em fazer o caminho de volta. Até já tive convite, mas falta-me motivação. Sobretudo, não acredito mais em projetos de periódicos impressos, que olho hoje a partir de espelhos retrovisores.

Fakes e reais

Quando cheguei às redações levava alguma bagagem teórica aprendida na universidade acerca da profissão. Já quando desembarquei na internet tive de aprender fazendo e através das leituras sobre este novo mundo que venho fazendo de lá pra cá.

O mundo dos blogs tem peculiaridades que não podem ser entendidas por quem ainda está com a cabeça no mundo dos jornais e revistas impressos, no mundo analógico.

Num espaço de pouco mais de uma semana eu tive mais um exemplo disso. Na palestra que o neurocientista Miguel Nicolelis deu aos blogueiros sujos – denominação adorável dada pelo Serra, aliás uma das poucas coisas que ficou da campanha dele que lembro – ele falou um bom tempo sobre a questão das identidades nas redes sociais (aqui), a partir da dificuldade que encontrou para provar a uma jornalista que era ele e não um fake. Disse, basicamente, que se pode assumir qualquer identidade nas redes. “Nós vivemos num mundo em que qualquer um pode ser eu, qualquer um pode assumir qualquer personalidade”.

Eu até nem estava pensando mais na palestra de Nicolelis, para ser franco não associei uma coisa com outra, quando uma leitora do SP questionou por e-mail, educadamente, a liberação de um comentário no post “Em carta, consultora cultural denuncia assédio moral do presidente da Funcart” assinado por “anônimo”.

Eu enviei a seguinte resposta:
“Eu analiso com calma para liberar ou não, tenho bastante cuidado, inclusive já vetei dois coments que considerei agressivos. Nos blogs não tem como saber se quem assina é pseudônimo ou verdadeiro, este anônimo que enviou os coments poderia inventar um nome qualquer e eu não teria como checar se é real ou fake. Na internet, o que vale é o comentário em si e não o nome, visto que qualquer um pode se esconder sob o um nome inventado”.

Até então eu não tinha pensado na palestra de Nicolelis, foi a própria leitora quem fez o link na resposta que enviou em seguida: “Verdade. É a história narrada pelo Nicolelis.”

Mal pode vir de qualquer um

Foi aí que a ficha caiu pra mim. De maneira inconsciente, eu tinha seguido o que o neurocientista defendeu em sua explanação.

E aqui vale uma explicação. Não é que não tenhamos recursos para identificar os anônimos que escrevem no SP. Claro que é só acionar a Locaweb, empresa onde o blog é hospedado que chegamos ao IP do internauta. Mas esse é um processo que leva uns dias e se eu for parar com freqüência para checar isso não faço mais nada pelo SP.

E aqui entra a peculiaridade entre blog e impresso a que me referi mais acima. Num impresso é impensável sair uma carta ou nota assinada por “anônimo”. Nos blogs, por ser quase impossível se dizer quem é fake e quem é real, isso faz parte do jogo.

Agora mesmo, a título de comprovação, entrei nos blogs do Azenha e do Nassif, que acolhem comentadores com nomes como Zé Povinho, Monge Scéptico, Dona Lô, O Bloqueado, Cafezá, entre outros.

Óbvio que isso não significa que acolhamos comentários dos covardes e malignos, que usam o anonimato para fazer o mal. Mas também não devemos esquecer que muitas vezes os reais causam muito mais problemas do que os fakes.

Então, cada caso é um caso. TC

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