Do infinito besteirol dos ditados populares

Por Ivan Lessa
BBC/Estadão

“O que arde cura, o que aperta segura”, repete o Zé Povão há séculos. Todos os provérbios populares não passam da maior besteira possível.

Sejamos francos, por um instante, e deixemos a máscara da hipocrisia de lado. O povo não entende bulhufas dessas coisas que aprenderam no colo de alguma tia ou ouviram da boca de uma pessoa com mais de um sapato no pé e camisa com quase todos os botões.

Basta parar e pensar um pouco, disciplina das mais árduas para quem nasceu para acreditar em saci e mula-sem-cabeça. O Zé Povão é bom de escalar a seleção brasileira ideal e votar naqueles candidatos que fizeram uma mediazinha com eles. De resto, vou te contar.

Dissequemos o provérbio citado mais acima. Em primeiro lugar, o que arde cura. É mesmo? Feito água-viva? Pimenta nos olhos? Tãotá. O que aperta segura. Sem dúvida. Feito o guarda que tacou algemas no malfeitor atravessador de maconha e o encaminha para a viatura policial.

Ninguém me fale em iodo na ferida ou torniquete no braço atingido por bala. Nenhuma das duas coisas pegou Ibope nos meios a que convencionamos chamar de “populares”, que é para não despertar a ira dos politicamente corretos e dos poucos membros da classe de Zé Povões que conseguiram, até um certo ponto (tudo é “até um certo ponto” com os pobres de espírito; logo acrescentando que há muito pobre riquíssimo de espírito entre eles), não embarcar nessa canoa furada dos provérbios.

E olha outro lugar-comum, suplicando para virar provérbio: canoa furada. Só o perfeito imbecil, de que tanto tratou o fabuloso Nelson Rodrigues, entraria numa canoa sem antes conferir sua navegabilidade, mesmo sem fazer parte de flotilha a caminho de uma ajuda humanitária a Israel.

Outras besteiras que ouvi a vida inteira e que sempre me irritaram, pois nasci cético e desconfiado de frase feita ou remendada:

* Quem ri por último, ri melhor. (Uma inverdade das mais flagrantes. Qualquer hora é hora de se rir de nosso semelhante até cair no chão.)

* Quem tem telhado de vidro não atira pedra no vizinho. (Tolice da grossa. Basta atirar a pedra na moita e se mandar, esperando que a culpa caia em outra pessoa, como é sempre o caso.)

* Cão que ladra não morde. (Ah, é, bebé? Então vai lá e dá um pontapé no traseiro do bicho, pra você ver uma coisa.)

* Homem prevenido vale por dois. (Tolice da grossa. É mais um a ser assaltado na subida do morro. E assaltado possivelmente por esse segundo homem prevenido. Pensem bem nisso.)

* De pequenino é que se torce o pepino. (Torcer pepino é das ocupações mais inúteis de uma pessoa é capaz. Experimente, hoje mesmo, pegar um pepino pequeno e torcê-lo. Não dá, não é mesmo? Só vira uma porcaria dos diabos.)

* Não conte com o ovo dentro da galinha. (Conto, sim. Esse é que o bom, o quente, o orgânico. Omelete baveuse só com o ovo que o galináceo ainda não pôs.)

* Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. (Não se mete a colher em briga de dois marmanjos armados de navalha. Em se tratando de homem e mulher, não tem por onde: é ficar do lado dele, repetindo, “É isso mesmo, Eudócia, foste uma leviana!”.)

* Quem tudo quer, tudo perde. (Experimente dizer isso para qualquer chefe de estado ou bem-sucedido empresário. Ele vai rir às bandeiras despregadas.)

* E por falar em bandeiras despregadas… Mas não, nessa eu não me meto. Ficarei em casa com a bandeira dos Camarões desfraldada e torcendo adoidado. A Copa é nossa. Ou deles.

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. André HP 10 de junho de 2010 17:49

    Como pode ser tão ignorante e idiota e tão poucas palavras? Tá seguindo o exemplo daquele que não lia nem um ensaio sociológico que você citou no texto – Nelson Rodrigues -? Ou só problemas com o complexo de édipo? Heim? O que foi? Conta pra gente!

    Babaca.

  2. Jarbas Martins 10 de junho de 2010 8:09

    Tácito pôs as coisas em seu devido lugar, Marcos. Ivan Lessa e, por extensão, quase todo o
    Pasquim expressava um pensamento meio fascistóide.Lembro-me de textos de Jaguar e Ivan Lessa esculachando nomes como Pasollini, vomitando suas mediocridades contra emergentes nomes da nossa arte como Jards Macalé, Wally Salomão, entre outros. Nem o nosso Moacy Cirne escapou da banda ipanemesca orquestrada por Jaguar. A indignação de Nina é legítima.

  3. Marcos Silva 10 de junho de 2010 0:06

    Tácito:

    Não vi ofensa a Câmara Cascudo. Vi ofensa ao povo mesmo. Aliás, Câmara Cascudo não o ofendia, até pelo contrário.
    Talvez eu não conheça a infinita importância de Ivan Lessa na cultura planetária. Mas parece que seu ponto alto é viver em Londres. Estive brevemente em Londres, conheço gente que morou em Londres. Muita coisa parecida com a Freguesia do Ó (São Paulo, SP) com toques de Quintas (Natal, RN). Adoro esses bairros até porque seus moradores não saem ofendendo o povo por aí. Nem perdem tempo ofendendo a elite, que se encarrega da própria destruição falando e escrevendo asneiras.
    Tá na hora de alguém avisar a Ivan que a internet foi inventada. O que era ultra-privilégio de quem ia a Londres virou xepa de feira. E Paulo Francis, quem diria, já morreu faz tempo, preenchendo com sua ausência um imenso vazio.
    Agora: normal publicar, normal concordar ou discordar. Jamais pensei em impedir sua publicação. E se ele não sair aqui (onde alguns ousam não gostar), sairá alhures.

    Marcos Silva

  4. Tácito Costa 9 de junho de 2010 23:11

    É só uma crônica Marcos. Com uns tantos de preconceito e politicamente incorreto. Não vi nada ofensivo a Cascudo e sua obra e nem tão grave que impedisse sua publicação. É importante que textos como esse, que você, eu e outros temos certas restrições (outros devem ter posição diferente) sejam publicados para escrevermos o contraponto, colocando os pontos nos is.

  5. Nina Rizzi 9 de junho de 2010 22:57

    ô sujeitinho pra ser machista, anchudo e, como se não bastasse, maltratar animais e “zé povão”.

    eu a-do-ro ditos populares, no meu blogue tenho até uma coluna “ha detto un giorno tu mi capirai”…

    “zé povão”; “ficar do lado dele”; “omelete baveuse”; “dar pontapé em rabo de bicho”; “atirar a pedra na moita e se mandar”. porra… o único acerto foi falar em meter a colher na briga, no caso eu tomaria partido da companheira dele, pois pelo jeito ele até bateria nela…

  6. Marcos Silva 9 de junho de 2010 19:27

    Amigos e amigas:

    Esse texto de Ivan Lessa é reproduzido num blog editado num estado onde Cãmara Cascudo ecreveu sobre provérbios populares. Para não ficarmos no provincianismo, sugiro também a leitura de “O mundo provérbio”, de Antonio Candido, sobre a literatura italiana de Giovanni Verga, nascido na Catânia.
    Tem gente que acha que insulto é refinamento. Coitados!
    Abraços em todos e todas:

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