Do luto

Por Arthur Dapieve
O GLOBO

Ainda que se leve ao pé da letra a sentença de Ezra Pound de que os poetas são as antenas da raça, ainda que se saiba do fascínio de Fernando Pessoa pelo ocultismo, parece pouco provável que um dos heterônimos deste último, Álvaro de Campos, tenha antevisto as redes sociais ao assinar o “Poema em linha reta”.

Entretanto, versos como “Nunca conheci quem tivesse levado porrada/ Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…) Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam/ Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? (…) Arre, estou farto de semideuses!/ Onde é que há gente no mundo? (…)” hoje soam como descrições acuradas do tipo de gabolice que se alastra da internet aos botecos.

Essa constatação torna ainda mais notável o que o inglês Julian Barnes, de 68 anos, faz em “Levels of life”, livro do ano passado, agora traduzido pela Rocco como “Altos voos e quedas livres”. Barnes escreve com franqueza e sem autopiedade sobre a porrada que levou em 2008: a morte de sua mulher, Pat Kavanagh, apenas 37 dias depois de lhe terem diagnosticado um tumor cerebral.

Outros já escreveram sobre o luto antes, mas Barnes escreve melhor. É um dos maiores autores ingleses vivos, junto com Ian McEwan, três anos mais novo. Aqui, ele evita inclusive o exibicionismo do próprio sofrimento, como aquelas pessoas que batem no peito proclamando “eu sofro mais do que você!”. Barnes não sofre mais, nem menos, sofre diferente, assinalando a singularidade e a incomunicabilidade última de cada luto.

Quanto à forma, “Altos voos e quedas livres” se apresenta dividido em três ensaios, que têm os títulos “O pecado da altura”, “No nível do chão” e “A perda da profundidade”. Em linhas gerais, o primeiro trata de balonismo e fotografia, pelas histórias reais do aventureiro Fred Burnaby, da atriz Sarah Bernhardt e, em especial, do fotógrafo Félix Nadar; o segundo, do caso amoroso (inventado por Barnes) entre Burnaby e Bernhardt; e o terceiro, diretamente da perda real e devastadora do autor.

Embora o livro seja curto, 128 páginas, e os ensaios venham em parágrafos breves, separados por linhas em branco, a leitura demora a subir, o que, no caso de um escritor do nível de Barnes, não pode ser atribuído ao acaso, mas à deliberação. Afinal, o tema inicial é — ou parece ser — balonismo. Balões não decolam como aviões ou são lançados como foguetes. Eles se alçam ao céu de modo mais hesitante e poético.

(Talvez haja mais lastro do que o desejável em certas opções da tradução/edição, como dar o nome de obras francesas em inglês, em vez de no original, e depois explicá-las em português. Ou manter “Simon Magus” em latim, sem vertê-lo para Simão, o Mago, personagem bíblico. Ou, ainda, abrir o livro com “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes” em vez de “juntas antes”, no mínimo mais elegante).

Seja como for, la nave va, e o leitor ganha altura bastante para chegar já inteiramente seduzido ao segundo ensaio, ou conto, o que trata da fictícia paixão assimétrica entre Fred Burnaby e Sarah Bernhardt. Não há engano possível. Embora o texto se chame “Ao nível do chão”, isso só se aplica à atriz francesa. O explorador inglês Burnaby continua voando, nas nuvens, projetando um casamento que jamais virá.

As duas graciosas primeiras partes de “Altos voos e quedas livres” preparam o terreno para o tour de force do volume, “A perda da profundidade”. Nela, Barnes fala do tombo que tomou quando perdeu a mulher que amava vigorosamente após 30 anos de casamento. Não há consolo fácil, ele descobre. Tanto manter os hábitos de casal quanto fazer coisas novas são apenas maneiras distintas de sublinhar a falta de Pat.

O sempre mencionado Nietzsche (“O que não nos mata nos torna mais fortes”) é logo descartado. “Há muitas coisas que não nos matam, mas que nos enfraquecem para sempre”, escreve Barnes. “Perguntem a qualquer um que lide com vítimas de tortura. Perguntem a quem trata de vítimas de estupro e de violência doméstica. Olhem em volta para aqueles prejudicados emocionalmente pela vida diária”.

Barnes admite que houve momentos em que pensou em se matar. Desistiu quando atinou que, se havia um lugar onde Pat permanecia viva, este lugar era a sua memória. Matar-se seria infligir uma segunda morte à mulher. Mais adiante, ele apura o raciocínio: “O fato de alguém estar morto pode significar que a pessoa não está viva, mas não significa que ela não exista.” Por isso, continua a conversar com Pat.

Pouco antes do vertiginoso desaparecimento da mulher, Barnes já havia escrito belamente sobre a morte, em “Nada a temer”. Porém, apesar de recorrer a histórias familiares, o livro de 2008 era mais reflexão do que emoção. Agora, o escritor enfrenta aquele que talvez seja o tipo mais doloroso de morte, a do outro, a de uma pessoa amada. Ninguém a traz de volta em três dias, simplesmente porque ela nunca se vai.

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