Do mar até a palavra

Do mar até a palavra
nada que se sabe se diz que se fez
do lodo do iodo e das algas
ninguém se encoberta se encontra sob a lâmina-mar
naquilo que se ancora estaciona
se a extensão do sono atordoa
aborda o sentido e a morada
do eterno da calma do tempo
que se aguarda a senha das estrelas
(faiscantes do epiteliossol)
o assovio de prata se ouve além-mar
aquém-palavras do albergue de mortos asfaltados do Alecrim
a calma fria do vento enganonsense
o inexato ostentoso toque das sirenes nos arrecifes
o solo enganador da gaita
o poeta que vende poemas nas Porcento-Pocilgas
mercadouros mercadalhos
e um empalamento festivo dos reis magos magérrimos:
toscos acreditotários
teimavam em ensinar
se houve o assovio nada ouve
retornagem de mais nada

quem grapette repete
na era-quimera camerata
de autóctones sem as patas sem as pinças
guardavam-se em tudo em todos em locas
loucas serenas diriam os sinos
retumbam nas tumbas
da catedral velha d’ALT(r)A cidade

e na capitolina do poema romano rascunho

calígula e nero estiveram aqui

e acolá

negros se esconderam chão no barro
vermelho tinturas pastelias dos sangues crus
só os brancos em (bossa?) essa (nossa?) guerra?

…formigas sem cigarras cem formigas…

e bandeiras de América  rude time alvirrubro e verde sem campo destroços
verdes notas e o verde que te quero e as listras do pavilhão o batalhão é bem ali

…e os aviões implodiam o vetusto Ducal…

nunca me trouxeram o Lorca só a cabeça do João Batista
estava perto o sino que anunciava a Óstia da missa de Pasolini aqui é tua praia
e o neon emoldurava as caóticas igrejinhas bregosas no fim-de-ano natais arraiais
galos cantam embrutecidos comedores de mar/ca(r)marrons e land-rovers emborrachados

é terra-pirata o olho de quem é cego em terra de nei:
sugadores de catatônicos homenzinhos blasés
e os imbecis que habitam o outro lado da lua
rês peitoso púbico ergue os chifres acima das manadas!
um esfacelado tigre que se importou da África
e morreu de cascudos retrospectáteis e se esqueceu meu livro meu filme Jean-Luc Gilliard?
o homem que compra árvores compra livros?
tudo é “Made in África” “Ready-Made” e o fado?
o urinol dum Duchamp o que sequer nos socorreu
no chão dessa terra batida comprimida e que preenche cemitérios cimitarras cavam
é o osso que rói o osso o tutano que nos basta misturoso e  a canção “Love Hurts” de Nazareth
ao meio-dia e à média luz
no domingo jornal troca de nome e manchete mancheias
revigoragens bailarinas nos bares-baralhos
buenaires-natálios

e ainda falta o mar que o rio tragou
de um trago trago alvíssaras vísceras re-medos arremedos remedáglias
mas o alvissareiro é uma mentira
um caetanol caetanoso caeta(nós) bastardo
e um preboste publicitário!
publicas editas é de tais
que fujo

SUJO,

falo não!

não me é de responsabilidade
a estrutura do tempo frio
o sol lá embaixo e a lagoa sujescura da cidade-da-criança:

O RIO,

o marssalgo!

o rio e o papel do re(a)gente na orquestra fantasma
eu que não sou eu não:
fauves ou falves ou favas?

COLETANEÁVEIS!

sou não Augusto exílio
…Woodstock sem pentelhos…
novo herói despedaçado da cidade-malta

veja o início
não veja o fundo
welcome to America
welcome to the machine

lave sua cara seu poema o poeta esteve aqui
e não olhe para mim a minha meimagem queima
aqui é terra de salssol minha flor!

e eu te dei agora o meu primeiro e último poema na(f)talense.

◊◊◊

Comments

There are 14 comments for this article
  1. Godot Silva 4 de Outubro de 2012 11:01

    Lívio: Para uns, existe uma diferença entre poesia e poema; para outros, não. Filio-me a estes. Contudo, é preciso dizer, por oportuno, que o poema é um objeto literário com existência material concreta, já a poesia, no meu sentir, tem um caráter imaterial e transcendental. Todos nós sabemos que poema é uma toalha de linguagem que se teria sobre a mesa do tempo, não fosse pelas vibrações dos sentimentos e a fluidez da lembrança… Seu poema tem beleza, história e arte – pássaro de vidro, a ver além da transparência –. Parabéns.

  2. Anchieta Rolim 4 de Outubro de 2012 11:04

    Bom demais Lívio, esse veio fervendo mesmo! Um dos poucos poemas longos que consigo ler sem ficar enfadado. “…mas tragam Lúcifer pra mim, em uma bandeja pra mim….” (mutantes). Parabéns meu irmão!

  3. Lívio Oliveira 4 de Outubro de 2012 12:08

    Anchieta, amigo, obrigado pela atenção de sempre.

    Godot, querido, o seu comentário já é um poema.

  4. Franceilma Barbosa 4 de Outubro de 2012 13:34

    LIndo! Lindo! Somente um grande poeta como Lívio poderia compor uma pequena epopéia lírica. Que bom termos gênios como o querido Lívio, nosso maior poeta vivo. Godot tbém é um gênio da crítica.

  5. Jarbas Martins 4 de Outubro de 2012 14:01

    Lívio Oliveira retoma uma tradição – a dicção surrealista – que surge incidentalmente na poesia potiguar de três grandes nomes, do século XX: Zila Mamede, Homero Homem e Sanderson Negreiros. Mas, afastando-se da influência dos seus prógonos, Lívio vai além, quando faz uso do poema longo, de ritmos, sintaxe e vocabulários estranhos à Modernidade. Lívio é o nosso melhor poeta em constante e surpreendente atividade, nesta segunda década do atual século.

  6. Lívio Oliveira 4 de Outubro de 2012 16:53

    Francelima Babosa, valeu, queridinha! rs.

  7. Lívio Oliveira 4 de Outubro de 2012 16:58

    Jarbas, caríssimo, desculpe por essa minha derradeira amostra de versos incidentais. Já lhe disse pessoalmente que foi você que me fez fazer as pazes com a poesia e a literatura potiguar. Um forte e grato abraço, meu amigo. A gente se fala. A gente se vê.

  8. thiago gonzaga. 4 de Outubro de 2012 18:37

    Nossa, que coisa mais bela, muito boa e inteligente a construção dessa pequena obra de arte literária.

  9. Jairo Lima 4 de Outubro de 2012 19:02

    Depois desta aula magna do maior poeta do RN espera-se o silêncio obsequioso dos desamados da musa.

  10. Jarbas Martins 4 de Outubro de 2012 19:31

    Que tal poeta, nos encontrarmos amanhã para tomarmos um cafezinho? Tenho um livro de haicais a publicar, e quero um prefácio teu. Devo a Luís Carlos Guimarães e a você o gosto e a iniciação nesta arte.

  11. Roberto Fabber 4 de Outubro de 2012 20:31

    Jarbas é nosso maior crítico, pena que não detenha obra. É uma obra encomiástica e oral, de bares e cafés. Com razão, considera todo mundo como gênio. Jarbas também é um gênio, da lâmpada!

  12. Gorete de Paula 5 de Outubro de 2012 5:29

    Temos dois mestres a seguir no Substantivo Plural: Jarbas Martins, de grande cultura, excelente professor. Jóis Alberto, nosso doutor em Ciência Socias, trata com pertinência de diversos temas.

  13. Lívio Oliveira 5 de Outubro de 2012 8:11

    Obrigado, amigos. E, de fato, este é o meu último poema na(f)talense.

  14. Jarbas Martins 5 de Outubro de 2012 10:59

    Todo elogio é suspeito, Fabber. E além disso a arte do elogio eu considero dificílima. Já disse aqui que prefiro um escracho de uma pessoa inteligente do que os elogios de certos poetas e crítitcos medíocres. Não, você não se enquadra em nenhum dos casos que cito.Ablação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP