Do outro lado do convês

Por Ruy Castro
FSP

RIO DE JANEIRO – Foi na temporada dos saveiros -1979, 1980, 1981-, em que, todo fim de ano, um grupo de cariocas se encontrava em Angra e, de lá, tomava um barco para passar juntos o Réveillon no mar.

No dia seguinte, o primeiro do ano, eram um prazer as horas a bordo, com o sol, a vela arriada e o barco devagar, quase parando. Mas, embora a prosa na expedição estivesse a cargo de Lygia e Fernando, Guguta e Darwin, Elba e João Luiz, Vilma e Ziraldo, Elice e Sérgio, Paulinha e Jaques, Ana e Callado e outros, a canseira e o marasmo podiam chegar e se impor.

Cada qual, então, se virava para cochilar ou ler. Certa vez, aboletei-me num canto com um livro, “Jeeves and the Feudal Spirit”, em que, na Londres de 1910, o mordomo Jeeves livra seu patrão, o estroina Bertie Wooster, de mais uma trapalhada, num dos 20 romances e livros de contos que P. G. Wodehouse (1881-1975) dedicou à dupla.

Apesar de hipnotizado por P. G., percebi que, do outro lado do convés, o escritor Antonio Callado me observava. Por acaso, Callado era dos poucos ali que eu não conhecia bem. Nunca trabalhara com ele e nossa relação limitava-se a olás de passagem. Claro que, como todo mundo, eu o admirava, por sua firmeza e coragem diante da ditadura, ainda vigente.

À distância, eu sentia o olhar de Callado, severo. Aquilo me martirizou. Ali estava eu, atracado à literatura mais deliciosa e alienada do mundo -as histórias de Bertie e Jeeves-, diante de um intelectual que os militares tanto temiam e perseguiam. Puxa, o que ele ia pensar de mim? Por que eu não trouxe livros de um autor mais sério para o navio?

Por fim, Callado não se conteve. Vi quando se aproximou. Preparei-me. Mas não esperava pela pergunta: “Ruy, quando terminar, você me empresta esse livro? É o único Jeeves que me falta ler!”.

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