Do segundo dia do Flipipa, das experiências homossexuais de Paulo Coelho e outras histórias

Por Sérgio Vilar
NO DIÁRIO DO TEMPO

Volto à questão: presenciar a boyzarada esparramada no chão desenhando, pintando, lendo, ouvindo estórias, reacende uma esperança que já pensava sepultada. Muita criança brincando de tica, correndo entre livros. Tudo bem, não é leitura. Mas acredito no que o ambiente proporciona. E outra: ver uma menininha de uns 6 anos entrando na tenda lendo um jornal impresso (em tempos de Ipod, Ipad e internet), não tem preço.

E era previsto: o segundo dia do Flipipa foi mais movimentado e interessante. Achei o público menos heterogêneo. Vi muito natalense e intelectuais da província. Só a primeira palestra. sobre as cartas de Cascudo e Mário de Andrade, registrou presença acanhada, com metade das cadeiras preenchidas. Uma pena. E se reclamei do desvirtuamento das temáticas no primeiro dia, o segundo foi até rigoroso no enfoque.

Marcos Silva e Diógenes da Cunha Lima misturaram o discurso acadêmico aos causos coloquiais de Cascudo, vivido por Diógenes. Achei interessante. Sobretudo a informação de que Cascudo escrevia uma carta por dia e durante 50 anos. Ou seja: há umas 18 mil cartas cascudianas soltas pelo mundo, inclusive para Monteiro Lobato, que merecerá estudo mais aprofundado em livro a ser publicado nos próximos meses.

Davi Arrigucci Jr deu uma aula sobre Manuel Bandeira. E aí meu desejo frustrado de escutar mais sobre os caminhos e descaminhos da crítica literária no Brasil. Claro, aqui e acolá ele pegava a tangente no assunto, mas sempre em prol do foco na obra de Bandeira. Mas entrevistei Arrigucci no dia anterior – umas quatro perguntinhas, apenas – e o leitor poderá conferir esse outro enfoque nas páginas da Palumbo de dezembro.

Fernando Morais foi um show à parte, bem provocado por Cassiano. Desceu o pau na Veja, elevou Cuba às alturas; falou de Olga, Washington Olivetto, Lula, Fidel, Hugo Chaves, jornalismo literário, e ACM. Fernando Morais contou que o cacique da política baiana sempre gravava os telefonemas que dava, sem avisar ao interlocutor. Agora imagine 50 anos de bastidores do poder. E todas as fitas estão nas mãos de Fernando Morais, para futuro livro.

Mas foi Paulo Coelho a piada do dia. Fernando Morais contou que o mago se emputeceu quando leu o livro pronto, não respondeu mais e-mails, telefonemas. Pudera. Morais relatou no livro três experiências homossexuais de Paulo Coelho quando jovem. E detalhou alguma coisa na palestra, para risadas do público. Isso para enfatizar a dificuldade de biografar personagens vivos. A nenhum deles o biógrafo mostra os originais antes da publicação.

Neste terceiro dia do Flipipa, as atrações são menos pops, mas parecem interessantes. Vou colher mais um ou dois depoimentos pra Palumbo e curtir mais um pouquinho a praia, que está bem visitada. É isso. O sol está ali atrás, junto à praia e uma cerveja gelada. Soube que pode haver dificuldade em falar com a Telma Guedes, autora da novela Cordel Encantado. Precisaria pedir autorização à InterTVCAbugi. Espero que não. Conto depois.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 20 de novembro de 2011 7:26

    O comentário de Paulo César é um convite para pensarmos sobre a vasta produção de Fernando.
    Eu era professor na rede pública de São Paulo quando o livro “A ilha” foi lançado. Ainda era ditadura no Brasil. O volume desempenhava uma função interessante de falar sobre um tema quase proibido, dsicuti seu conteúdo com meus alunos de 2º grau. Relido depois, dava para perceber que ele desdemonizava Cuba mas não refletia criticamente sobre nada. É claro que a visão bushiana de “império do mal” é o que há de medíocre mas um olhar crítico sobre EEUU.Cuba e Bahia sempre se faz necessário.
    Li outros livros dele. Olga Prestes já era grande personagem antes de ser biografada por Fernando, lembro de alguns truques sentimentais na narração que considero desnecessários mas, certamente, são iscas grudentas para o leitor. Sinto falta de maior distanciamento crítico de Fernando em relação a Assis Chateaubriand, lamento que o filme baseado no livro não tenha sido finalizado.
    A questão final apontada por Paulo é preocupante. Soube que Fernando começou a escrever uma biografia de Antonio Carlos Magalhães (finalizou, lançou?) numa certa intimidade com o biografado, então vivo. É claro que biografar alguém não é ir contra a pessoa mas um certo afastamento vai bem para que o biógrafo não se transforme em porta-voz do biografado.
    Logicamente, falo como historiador e professor de História. Fernando é jornalista, deve ter outras prioridades – não necessariamente melhores nem piores que as minhas.

  2. ^C!V 20 de novembro de 2011 5:15

    About “comments”…

    Paulo César, Paulo César… Paulo César… ARRE (dissetudo)!

  3. Paulo César 19 de novembro de 2011 13:46

    O danado é que o malandro Morais vai editar as fitas( se elas de fato existirem em posse do citado escrevinhador) conforme seus múltiplos e variegados, além de contaminados interesses.

    Fernando Morais pode enganar as musas de Dácio, mas fora daqui ele é bem conhecido como o escriba de aluguel mediano que sempre foi.

  4. Marcos Silva 19 de novembro de 2011 13:12

    Caras e caros:

    Confesso meu profundo desinteresse pela sexualidade de personalidades públicas. Da maneira que costumam aparecer (fofocas), lembram a revista Caras. Mesmo que com um aspecto de Bravo, quando não de suplemento literário em inglês.
    Não assisti à fala de Fernando Morais, li as notícias (inclusive, boutades sobre gays e ex-gays). Faltou falarem sobre futuros gays – aquela bela música de Chico Buarque poderia servir de fundo musical, “Futuros amantes”. Sem esquecer que ninguém é obrigado a ser nem a não ser gay.
    Sexo é muito importante para quem está fazendo. Comentar o tesão alheio (pessoas com quem não tenho intimidade) não faz parte de minhas preocupações. Só tenho interesse por esses assuntos quando estou querendo convidar alguém para fazermos amor (há um bom tempo, tenho relação estável, não ando convidando terceiros para tanto). Deve ser por esse motivo que nunca escrevi biografias nem sou best-seller… Nada contra autores de bs. Mas nenhum escritor é condenado a escrever bs, escritor é condenado a escrever.
    É claro que defendo o direito de cada um falar sobre o que quer, comprar o que quer. Bom proveito.

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