Documentários – cultura ameaçada

Por Eduardo Escorel
NA PIAUÍ

Haverá razões para festejar? Ou há sinais de uma crise prestes a eclodir?

Parecem não faltar motivos para celebrações. Nos últimos 20 anos foi criada uma cultura do documentário, com filmes, festivais e publicações especializadas, cursos e debates etc. Se é verdade que poucos títulos obtiveram maior destaque, alcançando presença significativa no mercado e amplo reconhecimento crítico, isso não invalida o que foi feito e resultou na abertura de um novo campo para a produção cinematográfica brasileira.

Há, porém, sinais inquietantes. A lista de documentários inéditos e em finalização, no portal Filme B, tem mais de 50 títulos, sendo possível estimar que o número real seja ainda maior. Essa quantidade é um indício de que está havendo superprodução, ao menos no que diz respeito à capacidade existente de difusão em salas de cinema.

No momento, há cerca de 9 documentários em exibição. Desses, o resultado comercial menos sofrível é de Quebrando o tabu que teve até agora apenas 13 mil espectadores, mesmo depois de ter tido ampla repercussão na imprensa. Na estreia, há 3 semanas, teve média de 247 espectadores por sala.

No fim de semana passado, Mamonas para sempre, bem recebido pela crítica, foi lançado em 34 salas, prenunciando expectativa de sucesso. A baixa média de 179 espectadores por cinema, no primeiro fim de semana, não permite prever que alcance o resultado esperado.

Família Braz – Dois tempos, premiado como melhor documentário brasileiro no recente festival É Tudo Verdade, só foi visto por 1284 espectadores nas duas primeiras semanas de exibição. E no fim de semana de estreia, teve frequência média de 64 espectadores por sala.

Esses dados são constrangedores, mas há casos piores. Entre os documentários em exibição, há médias de 60, 50, 30 e até 15 espectadores por cinema no primeiro fim de semana.

O único documentário a obter sucesso comercial e crítico no último ano, Uma noite em 67, estreou em agosto de 2010 em 21 salas com projeção digital, fazendo média de 534 espectadores por sala no primeiro fim de semana e chegando a pouco mais de 80 mil espectadores em 2 meses de exibição. Ainda assim, é possivel estimar que a renda de bilheteria obtida, cerca de R$ 750,000.00, deve corresponder a uma receita aproximada de apenas 25% do custo de produção e comercialização. Sem recursos incentivados, portanto, nem mesmo um documentário bem sucedido deixaria de levar o produtor à falência.

Qualquer que seja a análise que se faça desses resultados, e a conclusão a que se chegue a respeito, uma coisa é certa: deveríamos estar lidando com a crise que os dados revelam para evitar que o impasse, se ainda for possível, acabe aniquilando a cultura do cinema documentário entre nós.

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