Doença e autodestrutividade

Ilustração: quadro de Edward Munch

Por Márcio de Lima Dantas
Professor de Literatura Portuguesa da UFRN
7marciodantas7@gmail.com

Existem muitas explicações médicas ou sociológicas para o fato de atestarmos que a maioria da população despende, nos dias de hoje, uma parte do seu tempo e do seu dinheiro com problemas relacionados à saúde física ou mental. Não importa se tem mesmo alguma enfermidade, vale saber que anualmente perdem muitas horas em consultórios médicos ou laboratórios procedendo a feitura de tomografias, computadorizadas, ressonâncias magnéticas, hemogramas sofisticados, fisioterapias, requeridos a partir de queixas nos gabinetes médicos.

Que se diga a verdade: a grande maioria não tem coisa alguma, embora detenha no corpo sintomas que façam evocar uma doença ou outra. Também sei que 30% da população do Rio Grande do Norte é portadora de uma doença crônica; só que, nem inventem de esquecer, que grande parte é de origem psicossomática (asma, pressão alta, cefaléia, enxaqueca, crises de coluna, eclosão de herpes…); a medicina já diz que a manifestação do que existe em potencialidade tem muito a ver com o tipo de vida que se leva, há que se observar as relações entre temperamento e enfermidade. Segundo a Organização Mundial de Saúde, 80% das doenças humanas são de origem psicossomática.

Busco iluminar a questão sob um único prisma, mesmo sabendo que o problema detém muitos aspectos; admito que estou simplificando, embora possa dar minha contribuição a um dos elementos que integram o espírito da nossa época: a doença, os hospitais e clínicas cheias de gente, o uso generalizado de toda sorte de medicamentos, prescritos ou automedicados, eis alguns exemplos do que podemos chamar de “o engano do sintoma”, que se inscreve como espécie de assinatura do poder do qual se encontra ungido o médico que, ao cultivar um fenômeno que está mais do lado do social do que do individual, perpetua falaciosamente seu papel e dignidade de quem assegura não só o poder, mas o manuseia como signo de prestígio e, claro, retirando as benesses advindas dessa diferença para com o paciente.

Os mais vulneráveis ao embate com as forças do sofrimento sucumbem cedo, encontrando formas mais condizentes com sua espécie de personalidade: dramaticamente, por meio de doenças expressadas em carne viva do que está sentindo ou uma saída discreta pela porta dos fundos (infarto, AVC, infecções). Doença aqui é uma metáfora.

Uma parcela mínima da população detém uma sincera alegria de viver, parece que a energia vital só é suficiente para a contagem lenta do rosário de penas impostos pelos dias, seus trabalhos e pela maneira como a vida se configurou, que, via de regra, limita-se a uma repetição tediosa, desenxabida, enfadonha e sem rumo algum.

Tenho para mim que a maioria das doenças degenerativas que se instalam a cada dia mais cedo (Parkinson, Alzheimer, Esclerose múltipla, Câncer de próstata) está relacionada com componentes vinculados às pulsões de morte, de autodestruividade, com o objetivo de se autoeliminar, para não apenas evitar um permanente confronto com as forças superiores da realidade, sempre aliadas da angústia e da dor, mas também, em nível mais profundo, com o objetivo de cair fora disto aqui, abreviando toda uma sorte de pesares. Os altares de Tânatos pulsão de morte, encontram-se plenos de devotos em penitência, incensando de maneiras várias tudo o que possa veicular componentes que possam servir de desculpa para a enfermidade, o definhamento e a morte.

Ora, quando o médico atua exclusivamente sobre o engano do sintoma está apenas  sacralizando seu poder; deveria, sim, fazer com que as pessoas refletissem, buscassem formas de refazer a realidade, mudar de vida, eliminar trambolhos que só servem de estorvo; não sendo assim, acaba por legitimar a idéia de que a realidade é imodificável, nunca se altera, num fatalismo sem nenhum fundamento, deixando todos acomodados com o que se apresenta, ou seja, a doença é um fim em si mesma, destino do qual ninguém pode fugir. Em síntese, a prática de grande parte dos médicos colabora para que se mantenha em silêncio a doença como metáfora, quer dizer, algo que se apresenta no lugar de outra coisa (a coisa, aqui, é a alimentação, o tipo de vida, a maneira como se conduz os amores, as relações de amizade, o convívio com a família, com os vizinhos, com os colegas de trabalho….).

Ao que parece, não restou ao humano senão o espaço material do corpo, para que aqui aconteça o último combate das potências psíquicas, anulando o que séculos daquilo a que chamam civilização engendrasse uma coisa ou um signo. O século XX, quer de maneira séria nas Ciências Humanas, quer nas distorções embusteiras, distorcidas ou mistificações, aplainou tudo, não somente com seu formão teórico, mas também pela própria dinâmica da História que, ao que parece, acionou a velocidade dos seus motores, alterando tudo, invertendo, pervertendo, confundindo. Nunca a Ideologia foi tão eficaz nos seus processos de inversão de fazer passar o que é arbitrário por coisa da ordem do natural; como se não bastassem suas artimanhas tradicionais, vinculadas, via de regra, às classe dominantes, agora a tudo confundiu, não deixando piquetes para servir de parâmetros na tentativa de separar o joio do trigo. O que quero dizer é que a noção de eu íntegro, indivíduo, foi posta de lado, não tendo, quando desamparados, como recorrer a um espaço que se queria com contorno definido e possuidor de um enchimento que era a razão, soberana senhora que, ancha de si, a tudo classificava, arrumava, rotulava, enfim, explicava por meio dos seus encadeamentos lógicos.

No belo livro Memórias de Adriano, da francesa Marguerite Yourcenar, assim fala o imperador romano, preocupado com o corpo: “amigo mais seguro e mais conhecido do que  minha própria alma, não é senão um monstro sorrateiro que acabará por devorar seu próprio dono”. Penso que o homem tinha razão.

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