Dois cavalos e uma revolução

Por Marcelo Coelho
FOLHA DE SÃO PAULO

Clássico de Heinrich von Kleist (1777-1811) joga com as ambiguidades da vingança e da justiça

Quem aprecia o tema da vingança não há de ficar à míngua nestes dias. Além de “Relatos Selvagens”, filme argentino que comentei na semana passada, está nas livrarias uma clássica e curta narrativa alemã, capaz de atender bem à demanda dos interessados.

Trata-se de “Michael Kohlhaas”, romance escrito em 1810 e lançado agora pela editora Civilização Brasileira. O livro está entre as obras-primas de Heinrich von Kleist (1777-1811).

Apesar de escrever em pleno período romântico, Kleist impressiona pelo que já existe de kafkiano –de aflitivo, de labiríntico, de obstaculizado– em seu universo. “Michael Kohlhaas” narra com estilo imperturbável, e não sei se humorístico, um complicadíssimo processo judicial ocorrido na Alemanha do século 16.

As autoridades de dois Estados independentes –Saxônia e Brandemburgo–, e mais tarde o próprio imperador do Sacro Império Romano-Germânico, para não falar de Martinho Lutero, vão sendo envolvidos na querela jurídica iniciada por Michael Kohlhaas, um mero vendedor de cavalos.

Kohlhaas era “um modelo de bom cidadão”, diz o autor no início da história. “O sentimento de justiça fez dele, porém, um bandoleiro e um assassino.”

Tudo começa quando ele quer atravessar, com sua tropa de cavalos, a propriedade do fidalgo Wenzel von Tronka. Sem aviso prévio, exigem-lhe pedágios, papéis, garantias.

Disposto à obediência, Kohlhaas concorda em deixar dois de seus cavalos, e um ajudante, no castelo do fidalgo, enquanto parte em busca da papelada. Quando volta, os animais e o ajudante estão quase mortos, tal o tratamento a que foram submetidos pelos sequazes de Von Tronka.

Kohlhaas quer uma reparação. A justiça tarda; o caso cai nas mãos de parentes do fidalgo; a mulher do tropeiro faz uma viagem para apelar às instâncias superiores; é tratada com brutalidade por soldados e morre em poucos dias. Não há nada a fazer.

Nada? Kohlhaas decide vingar-se. Reúne um grupo armado e parte em busca do fidalgo. O que se segue é uma verdadeira insurreição popular, com castelos incendiados, cidades destruídas e inúmeras mortes pelo caminho.

Seria tudo simples, não fosse o gosto de Kleist para explorar a ambiguidade política e moral da situação. O grande Martinho Lutero começa condenando, num escrito inflamado, a tentativa de Kohlhaas; não se pode fazer justiça com as próprias mãos. Convence-se, todavia, do contrário.

Devido a diversas rivalidades internas, ou a concepções menos classistas de justiça, surgem defensores de Kohlhaas entre a própria nobreza alemã. Ele é anistiado –ou será que não foi?

Há passagens que exigem do leitor atenção redobrada, tal o embrulho de príncipes e conselheiros de Estado tratando do assunto.

Quando a justiça é feita, nas últimas páginas do livro, o certo e o errado se compactam insoluvelmente. E a vingança?

Esta aparece num ato bizarro, que não pode ser contado aqui. Admite até uma interpretação sobrenatural, mas isso interessa menos do que o fato de envolver a profecia misteriosa de uma cigana.

Importa prever qual a duração e a descendência de um ramo da nobreza –e nesse enigma talvez esteja a chave para se entender todo o romance.

A revolta de um comerciante de cavalos do século 16 estaria servindo, para Kleist, como símbolo dos conflitos de seu próprio tempo. A memória da Revolução Francesa não podia deixar de estar presente na Alemanha de 1810. Mas, naquele território dividido em incontáveis Estados autônomos, a luta entre nobres e burgueses não se faria com a clareza sangrenta do país vizinho.

É um paradoxo. A confiança na autoridade estatal parece ser maior quanto mais esta é dividida. Se tudo se resolve pelo decreto único de um poder central, eventuais injustiças tendem a provocar uma irrupção violenta; quando são muitas as instâncias, e confuso o sistema, há mais chance de contemporização.

Se esta interpretação se sustenta, Kleist parece deixar em aberto o destino político alemão no final de seu romance. Vingança e justiça, revolta e repressão, poder popular e poder oligárquico se misturam –e triunfam– no mesmo desfecho.

A ambiguidade é bem moderna; Marcelo Backes a reproduz em sua tradução, usando tons alternados de coloquialismo e formalidade. Quanto a traduzir a realidade de Kleist para a situação brasileira de hoje, aí fica mais difícil, e não sei onde iríamos parar.

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