Dois escritores, duas obras e uma missão: a arte literária através do conto

Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que está falando a verdade pura.
Memórias da Emília de Monteiro Lobato

Desde o final dos anos 80, sobretudo a partir do inicio dos 90, houve uma verdadeira explosão de criação literária no Rio Grande do Norte, em particular na área ficcional. Vários escritores potiguares passaram a colocar no papel, e publicar em livros, seus contos, novelas e romances. De temáticas e tendências variadas, observamos que a maior parte destes ficcionistas têm como principal foco, o urbano, o cotidiano; em alguns, as transformações sociais, e, em pequenos casos, o sertão. Outros, se utilizam de um certo simbolismo, uma metáfora, para criar o seu mundo ficcional. Alguns, de maneira artística, buscam no passado o assunto para as suas obras, trabalhando as memórias em suas narrativas, demonstrando  preocupação com o registro de fatos pretéritos, misturados  à ficção.

Suscitamos o assunto após ler o novo livro do jornalista e escritor Osair Vasconcelos, “As Pequenas Histórias” (Z Editora, 2015), que traz nos seus contos evidentes marcas da arte de recordar, sobretudo recordar o seu chão de origem, a cidade de Macaíba.  O título da obra nos remete ao livro de José Saramago, “As Pequenas Memórias”.

Uma das maneiras de o escritor mostrar esse interesse pelo tema parece ser justamente o uso de narrativas, as quais se constituem como um mecanismo frequentemente utilizado para mostrar o quão tênues são os limites entre a ficção e a realidade; as lembranças, recordações, rememorações, misturando-se, enlaçando-se com a narrativa ficcional. Ora, veja bem, caro leitor, enquanto o historiador pretende escrever sobre a história que outros viveram, o narrador fala de uma história vivida por ele ou incorporada de tal forma à sua vida como se ele mesmo a tivesse vivido. Nos contos de Osair Vasconcelos essa é uma das principais características. Contos como “Zé Jipe vê a cidade de cima”, “Aquela Viagem” são narrativas que, evidentemente, misturam fatos verdadeiros com ficção. Outro bom momento é quando ele homenageia, de forma muito singela, uma das nossas maiores poetas, Auta de Souza, filha de Macaíba, no conto “Maria Encontra a Poeta”. Mas, no meu entender, onde Osair demonstra mais habilidade na arte de contar história é no conto “Ele e Ela”, conto muito bem elaborado, com toques refinados de humor, de ironia e tragédia, (o narrador merece um bom estudo analítico). Nesse conto especificamente o leitor vai ficar em duvida: onde entram a realidade, nesse caso a memória, e a ficção? Com grande poder de síntese, Osair constrói uma narrativa digna de constar em qualquer antologia de nível nacional.

É verdade que a memória sempre motivou discussões ao longo da história, nas mais diversas artes, e com a literatura não poderia ser diferente. E como funciona o processo da rememoração? Como tantos indivíduos, sobretudo os artistas da palavra, a trabalham?  “As Pequenas Histórias”, nos dão uma pista; há uma série de fatores de ordem sociopolítica e cultural que influenciam esse processo. Nos contos referidos são evidentes essas marcas.

Ao que nos parece há uma necessidade universal, inclusive literária, de “memorizar”, guardar as lembranças de forma artística, e todos nós representamos os nossos papéis neste processo. O escritor, à medida que passa para o papel uma dada categoria de memória, quer dizer, suas memórias pessoais, ou aquelas que se relacionam ao gênero, etc., mesmo que sejam ficcionalizadas, tenta combater esse medo do esquecimento, fantasma que parece rondar o ser humano desde sempre.

Osair Vasconcelos trata artisticamente do assunto em seu livro de estreia. Cremos que alguns narradores dos seus contos são expoentes de uma necessidade  de continuidade, da certeza de saber que o registro irá ficar. Vários personagens procuram uma história na continuidade de uma memória, sua percepção do passado se apoia na suspeita de que ele não é verdadeiramente passado, se amparando numa ideia semelhante à de Octavio Paz, segundo a qual “o que passou efetivamente passou, mas há alguma coisa que não passa, alguma coisa que passa sem passar completamente, perpétuo presente em rotação”.

Os contos de Osair possuem um caráter dinâmico, são de fácil compreensão e podem ser guardados na lembrança e recontados, como acontece com as estórias dos narradores que se louvam da transmissão oral da memória e do conhecimento.

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Outra estreia no conto, em livro, é a do jornalista e escritor Carlos de Souza, com “Urbi” (Sebo Vermelho Edições, 2015). Carlos de Souza, que há muito tempo devia à literatura potiguar um livro de contos, surge com este, justamente no ano em que se completam 27 anos de publicação do seu primeiro livro, “Crônica da Banalidade”, uma novela que, imediatamente o lançou como escritor, reconhecido dentro da nossa literatura.

Em “Urbi” o autor atinge o momento culminante em sua carreira como ficcionista.  Se, no seu romance de estreia, “Cidade dos Reis” alguns pequenos deslizes foram cometidos, no livro de contos, ele chega muito próximo da perfeição estética a que uma obra de arte literária aspira. Aqui no Rio Grande do Norte, só os mais experientes têm chegado a esse patamar.

Em alguns contos de Carlos de Souza, o narrador se preocupa em mostrar o outro lado da vida. Por vezes, como nos contos de Osair Vasconcelos, percebemos algumas marcas de memórias, de influências livrescas, de leituras. Deixando uma espécie de parábola, como por exemplo, no conto “A Cidade Escura”, para aqueles que leram a sua versão dos fatos observados pelo narrador. Isto nos remete ao ensaísta e crítico literário Walter Benjamin, que afirmou certa vez: “O conto é, ainda hoje, o primeiro conselheiro dos homens porque o foi outrora da humanidade, vive ainda secretamente na narrativa. O primeiro verdadeiro narrador é e continua a ser o do conto”.

“Urbi” contém oito contos, três deles premiados. Não bastassem esses contos premiados, apenas o conto “Eclésia” seria suficiente para o livro valer a pena. O escritor, dublê de jornalista, pegou um fato do noticiário e bolou uma história com um final moral muito significativo, onde percebemos claramente a influência do narrador na história, sobretudo com a sua ideologia e seu ponto de vista religioso. Conto fantástico, esse, vale dizer.

Em outros contos, podemos inferir que o autor acredita em fatos históricos reconstruídos por quem narra a história e que estes fatos não necessariamente correspondem à realidade.  A propósito, Walter Benjamin declara: “Narrar histórias é sempre a arte de as voltar a contar e essa arte perder-se-á se não se conservarem as histórias”.
Osair Vasconcelos e Carlos de Souza, como nos narradores dos contos descritos por Walter Benjamin, dispõem de uma autoridade que lhes dá credibilidade, mesmo quando o fato descrito não seja verídico.

É necessário reconhecer um amadurecimento na produção literária do Rio Grande do Norte. Especialmente na ficção produzida pelos mais experientes, constatamos o cuidado com as palavras, o zelo com a forma. Nada na obra dos dois contistas é colocado em vão, nada é esquematizado por acaso, e até coisas que já foram ditas em outros escritos seus, tornam-se interessantes, diferentes, prendendo a atenção do leitor.

Por fim, acreditamos que esses trabalhos têm folego para passar pelo filtro da História; têm um diálogo bastante rico com a literatura como forma de expressão e fonte de compreensão das mais diversas e profundas inquietações humanas.

Osair Vasconcelos e Carlos de Souza são escritores, que levam a literatura a sério.  “O Amor Fora de Época de Felipe Flores”, de Demétrio Vieira Diniz, ganhou concorrentes à altura, neste final de ano.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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