Dois pesos e duas medidas

Por Francisco Bosco
O GLOBO

Minorias são discriminadas e sofrem consequências reais por causa de preconceitos que têm em mentalidades como as dos monoteísmos uma fonte privilegiada de formação

Na semana passada foi noticiado que a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância vai investigar o vídeo “Especial de Natal”, do Porta dos Fundos, a partir de uma representação feita pelo deputado Marco Feliciano. Nela, Feliciano argumenta que o filmete possui “conteúdo altamente pejorativo […] e de forma infame atacou os dogmas cristãos e a fé de milhares de brasileiros que comungam deles, ferindo dialeticamente o direito fundamente [sic] à liberdade religiosa”. Por si só, a notícia é soporífera (embora lamentável, como sempre). Mas dias depois, sem citar diretamente esse episódio, o colunista da “Folha” Luiz Felipe Pondé publicou uma coluna levantando questões sobre as relações entre humor, preconceito e liberdades, entre outras. A discussão é oportuna.

Pondé se pergunta: “por que alguns acham politicamente incorreto fazer piadas com negros, índios, gays e nordestinos (e julgam justificados processos legais contra quem faz tal tipo de piada), mas julgam correto fazer piada com os ícones do cristianismo?” O trecho entre parênteses me parece conter um problema mais difícil, mas a pergunta é tão fácil de responder que causa espanto sua formulação por uma pessoa inteligente. Negros, índios, gays e nordestinos são minorias, identidades que sofrem preconceitos, respectivamente, de “raça”, etnia, sexualidade e região. Já os cristãos formam o maior grupo religioso do planeta, com cerca de 33% da população mundial (seguidos pelos muçulmanos, com 22%). No Brasil, segundo o censo de 2000, quase 90% da população brasileira é de cristãos.

A diferença quantitativa ainda não é, entretanto, a resposta à pergunta de Pondé, mas ajuda a chegar até ela. Minorias são discriminadas e sofrem consequências reais por causa de preconceitos que têm em mentalidades como as dos monoteísmos uma fonte privilegiada de formação. Não estou dizendo que é a única, nem que, empiricamente, todo cristão é preconceituoso (pois há outros fatores em jogo), mas sim que há uma relação estrutural, fulcral, entre a crença em um princípio positivo do mundo (Deus) e os preconceitos contra tudo o que os dogmas ligados a esse princípio condenam. Monoteísmos são mundos fechados. Mundos fechados tendem a odiar tudo aquilo que contraria seus dogmas, pois a diferença coloca em questão esse dogmas. É um problema esclarecido pela psicanálise: o centro do eu, do imaginário de um monoteísta, corre sempre risco de desabar diante da diferença. Ora, a agressividade está diretamente ligada aos abalos no imaginário (que sustenta o eu dos sujeitos).

A diferença entre fazer piada com minorias e maiorias não está portanto na diferença quantitativa entre seus grupos, mas sim no fato de que as maiorias em questão são estruturas mentais fechadas, que — apenas elas — atentam contra o pleno direito à existência das minorias (que por isso, e não pela dimensão quantitativa do grupo, são chamadas de minorias). Fazer piadas com minorias reforça o preconceito e o atentado a esses direitos. Fazer piadas com maiorias é uma tentativa de esvaziar esse preconceito, ridicularizando a mentalidade fechada que quer oprimir. Por isso os “dois pesos e duas medidas” que Pondé denuncia são, ao contrário, justos: uma vez que o mundo tem pesos e medidas diferentes, fazer justiça está em adequar-se a essas diferenças, para repará-las.

Por outro lado é um tanto oportunista o personagem criado por ele nessa coluna, o “bonzinho” que defende o direito dos muçulmanos de se ofenderem com uma piada contra o islã, mas repudia o mesmo direito dos cristãos. Aqui, já que o peso e a medida são equivalentes, o mesmo argumento vale para uns e outros: deve-se defender o humor sobre os discursos do islã e do cristianismo, uma vez que esse humor não atenta — diferentemente do que afirma Feliciano em sua representação — contra a liberdade religiosa dos cristãos e muçulmanos, atenta apenas contra o aspecto opressor que há nessas religiões.

Não acredito que “a moçadinha que quer salvar o Ártico”, “o movimento estudantil” ou “gente que vive falando mal da polícia mas treme de medo e chama a polícia logo que sente sua propriedade privada em risco” moveriam processos contra piadas que os tivessem como objeto. Discursos abertos são por definição abertos a críticas. A que respondem com contracríticas, e não com tentativas de calá-las.

Ps: De passagem, Pondé acaba tratando a polícia como se fosse Deus. Segundo a caracterização da frase acima, quem a critica não pode convocá-la. Mas, diferentemente da lógica do dogma monoteísta, criticar, na lógica do mundo moderno, não ameaça a existência de nada: ao contrário, procura assegurar o aperfeiçoamento de tudo que existe.

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