Dois pesos…

Por Maria Rita Kehl
ESTADÃO

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Luis Sávio Dantas 3 de outubro de 2010 17:14

    Para mim é simplesmente um simplório quem pensa que alguém pode censurar os votos dos outros, e quem é assim, politicamente só merece ser notado como sendo pouco perpiscaz. Toda mensagem política tem um destinário certo a quem ela deseja atingir, e assim, como não tenho poder de fazer todos os editoriais que eu gostaria de fazer, ensaio uma seta para quem balança, por qualquer motivo, exceto aquele a que me referi na postagem anterior, os simplórios. Política é fazer com que muitos lhe acompanhe.

  2. Marcos Cavalcanti 3 de outubro de 2010 11:33

    Para mim é simplesmente uma vergonha fazer análise dos votos das pessoas; como se o voto do analista fosse o “único correto”, o “mais eficaz”, o “mais consciente”. Quem pensa assim não é sequer digno de nota. Cada um que vá com sua consciência à urna, cada um que recorde todo o “seu histórico de voto anterior” inclusive os que declaram seu voto “nesta eleição”, como nulo. Cada um sabe sua “história eleitoral”. Há muito tempo deixei de medir “o acerto do voto” pelo nível social ou cultural das pessoas, e tomo por base a minha própria experiência como cidadão-eleitor e as decepções ou satisfações que se seguiram. O que eu queria mesmo era ver um povo que terminada a farra do voto, o depósito na urna, começasse a partir daí a sua participação política, organizando-se nos movimentos de classe, nas associações, protestando também individualmente na internet, através de um cartaz botado na frente da casa reclamando o calçamento não feito, ou de e-mails enviados a deputados sugerindo, reclamando, etc, etc, etc. Isso sim faria de nossa incipiente democarica, um sistema cada vez melhor.

  3. Luis Sávio Dantas 2 de outubro de 2010 22:11

    Deixemos que as pessoas simplórias votem em Marina por que elas não mensuram o perigo que é para o desenvolvimento do Brasil, a volta do psdb e dos famigerados demos ao governo central. E mais, não podemos nos enganar com os lobos em pele de cordeiro que dizem apoiar Marina, como se isso fosse uma coisa muita inocente, pois na verdade Marina é o portal de onde a extrema direita espreita a possibilidade de destruir tudo que foi feito pela nossa soberania. Não podemos vacilar; Votemos todos em DILMA para que ela vença no primeiro turno.

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