O Dom Quixote parodiado e imitado

Por João da Mata Costa

Desde a sua publicação, há quatro séculos (em 2015 comemora-se o 4º Centenário da 2ª parte do Dom Quixote), nunca faltaram imitadores do belo texto castelhano. O romance é mesmo um caleidoscópio que dá margem a muitas interpretações e leituras. O livro foi adaptado e traduzido nos mais diferentes idiomas: existe o Quixote para crianças, da família, historia de antigamente e da carochinha. Não existe um mesmo leitor para cada leitura do livro. Na sátira aos cavaleiros andantes, o autor mostrar-se-ia, antes de Flaubert, atacado pelo mal do bovarysmo. Para Erich Auerbach, ele não tinha rival na representação da realidade comum como uma festa contínua. Cervantes continua sendo até hoje o grande mágico do riso e das lágrimas e, o D. Q., não é louco nem idiota, mas alguém que joga de cavaleiro andante, e jogar é uma atividade voluntária, ao contrário da loucura e da idiotice, diz Huizinga em Homo Ludens (1944). Outro grande leitor de Cervantes é Miguel de Unamuno, um dos leitores mais referidos e comentados. O cavaleiro da triste figura de Unamuno é um homem que busca a sobrevivência, e cuja loucura é uma cruzada contra a morte. “Grandiosa era a loucura de D. Q. , e grandiosa porque grandiosa era a raiz de onde brotava o inextinguível anseio de sobreviver, fonte das mais extravagantes loucuras, e também dos mais heróicos atos”.

Entre os muitos livros inspirados no Dom Quixote está o clássico francês Tartarin de Tarascon escrito por Alphonse Daudet em 1872. O de Tarascon tem muito do Manchego. Suas façanhas e doideiras possuem as marcas do Quixote – muito embora o engenho esteja longe.

Em muitos aspectos “o de Tarascon” é um mix do Quixote e Sancho. Como o Quixote o Tartarin é um herói cuja loucura romanesca é grandiosa. Seu tipo físico é o do bom Sancho Pança; gordo, doméstico, burguês e cheio de apetites. Como caçador de bonés Tartarin era sem igual. O dos “músculos dobrados” era muito respeitado pelos de Tarascon.

O herói manchego e o seu idealismo fecundaram toda uma literatura cujo Tartarin é uma replica que eu não gostaria de dizer mal-feita posto que o D. Quixote é único: paródico e carnavalesco. E nisso se aproxima do Pontagruel de Rabelais. Tartarin não era feliz. Pesava-lhe a existência. A vida pequena na terra, sufocava-o. E nisso ele era Madame Bovary e o Quixote.

Leiamos um pouco do Tartarn de Tarascon:

“Debalde se atafulhava de leituras romanescas, procurando como o imortal D. Quixote, arrancar-se pelo vigor do seu sonho, das garras da despiedosa realidade. Sim, tudo que ele fazia para acalmar a sua sede de aventuras, não servia senão para acirrar”

E vejam o Tartarin em ação, se não é o próprio Quixote:

O pobre do homem esquecia-se de que estava em sua casa, em Tarascon, em ceroulas, com um lenço amarrado à cabeça, e punha as suas leituras em ação, e, exaltando-se com o tom da sua própria voz, clamava, brandindo um machado ou um tomahawk:

– Venham eles agora!

Eles quem?

“… eles eram tudo que ataca, tudo o que peleja, tudo o que morde, tudo o que escalpa, tudo o que urra e tudo que ruge…”

Tartarin continua lutando. E enquanto houver sonhos e ideal na vida o D, Quixote está vivo. Eterno. .
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Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 2 de fevereiro de 2015 20:10

    Verdade, Dom Quixote já foi,parodiado e imitado,mas o cavaleiro da triste figura sempre brilhou acima, de qualquer,classificação que fosse imposta a sua trajetória, pois ela é brilhante,muito longe de ser uma loucura , D. Quixote existe para nos alertar quanto e grande a busca aventura de viver. Parabéns um belo texto

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