Dona de mim, e senhora do meu eu

Por Bethânia Lima Silva

Feminista, feminina, fêmea, mulher…consigo ser todas, posso deslizar nessas fantasias e não me preocupar. Que importa? A quem interessa? A mim, só a mim…sou decisiva, voraz…dona de mim, senhora do meu eu.

Tenho voz, pulso, mãos e idéias…posso gritar, consigo gemer, sei bater e acariciar, e ainda ouso dissimular.

Ocupo espaços, vou além do meu “cantinho”, do meu lar. Aprendi a contar…61, 62, 63, 64, 65, 66, 67, 68…ah, hora de deitar. Leio os olhos, o fogo das velas, a poesia da vida e o livro dos meus desejos.

Fui aprendendo, fiquei forte. A frágil? Saiu para passear, brincar de dar e ter prazer; sem se preocupar com pai e mãe que ficam em casa e não sabem mais o que é gozar a vida. O gozo? Precisa me envolver inteira. Com força!Alcanço de várias formas!

Sei fazer a política, argumentar, resolver, participar. Por que só o homem para falar e ser ouvido? Não! Tenho boca, moral, senso e preciso me manifestar…

Princesa? Talvez. Mas, os papéis de mulher-poeta e jornalista são mais instigantes. É mais vida real e forte. Forte e diversa, igual a terra. Assumo cores e sabores; busco ser a versátil agricultora, aquela que iniciou com zelo o trabalho com a “gaya”.  Agricultora-mulher que sabe lidar com todas as hortas que aparecem na vida. Arando, semeando, aguando, colhendo e alimentando…

Cuidadosa e zelosa? Pode ser…mas, não é algo obrigatório e maternal. Esqueçam! Posso deixar o zelo por aí, e ir ao encontro do perigo e não do cuidado. Domino minhas pernas, e os meus braços, e os enlaço nas nucas e cinturas cruas que me chamam…

Precisei clamar por educação! Ser rebelde, revolta e cínica. Vencer no cansaço, com insistência e arte. Rasguei palavras, rompi membranas e gritei com as tradições. Não precisava do medo; a autonomia me guiava. Para quê isso? Para o encontro, contemplação, auge…êxtase! Sucesso com o que quiser construir e planejar para seguir vivendo.

As amarras, os nós? Foram ficando pelos caminhos…com percalços, com lama, espinhos e sangue; mas o mapa foi desvendado, ou melhor! Ainda está sendo…Todos os dias…percalços, poesias, prazeres e pessoas…vão se achando e se perdendo, chorando e gozando.

Maria, Tereza, Isabel, Ana, Sophia…cada qual com uma beleza, atitude, emoção e razão. Vendo o tempo passar e a arte indicar as transições e transformações, que ficam registradas. São sons, poesias, imagens, ações, movimentos, melodias…são olfatos, tatos, paladares, audições e visões dos nossos passados, presentes e premonições de futuro. São vidas…

Não é preciso querer nada pelo olho do outro, temos o nosso. Que seja compartilhado o abraço e afago amigo, que seja repugnado um riso safado. Que a “igualdade” sonhada seja aspirada e almejada com inteligência. Conforme chances e oportunidades, as auroras apareçam sem causar susto. Que a minha fala tenha a força da faca. Sou política, poder, poeta, professora – tenho vazão e decisão para ser mulher. Garganta, pernas, braços, ancas e lábios…por onde for…vou com nexo, lexo e reflexos. Vou por aí…com gozo!

Quero a língua e a linguagem que monta e desmonta o auge, entrego as minhas mãos para a descoberta de novos sinais e canais de liberdade e sufoco, pressão que alegra e embebeda, nada de pudor, só criação.

Conquisto o tempo, e me sinto penetrada por ele; aquele que fortalece e que ensina, que amadurece e apresenta resultados. Não dá medo, apenas satisfação. Não programa a guerra, o embate – apenas as conquistas. O tempo que é rei e assisti a tudo e a todos, vem sem precisar chamar – acaricia e acalenta a alma e a nuca…ah o sopro do tempo na nuca! Ele sorri e se esconde mais uma vez…uma hora ele volta…enquanto isso, fico no sereno e me fortaleço.

Um pedaço da natureza mulher, que parece orvalho à espera de um pouco mais de calor. Calores que enrubescem, emudecem e alegram a menina-mulher – uma fada que voa e deseduca as sentimentalóides que se escondem por aí. As bruxas? Estão ocupadas! Preparam as caldas mágicas que embriagam de prazer os aprendizes de feiticeiros. Com muita astúcia, mistério, voracidade e prazer…

Texto produzido por aluna da disciplina Literatura Portuguesa, ministrada pelo prof. de Letras da UFRN Márcio de Lima Dantas.

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