[ESPECIAL] Memória e oralidade no romanceiro de Dona Militana – 1ª Parte

Fotografia de capa: Lenilton Lima

Militana Salustino do Nascimento (ou Maria José, como preferia ser chamada) foi descoberta pelo pesquisador e folclorista Deífilo Gurgel, quando estudava danças e folguedos tradicionais. Seu universo imaginário é feito de modinhas, xácaras, cocos, toadas de boi, romarias, desafios, cancela, parcela, moirão, aboios, jornadas de chegança e fandango, todos guardados de memória, a revelia de intempéries e interdições que se estenderam por sua vida.

Revelada ao cenário da cultura oficial, condecorada e homenageada aos quatro cantos, é aceita como excêntrica e exótica, caso singular e raro, sem compreensão do contexto de seu grupo social, no sítio Oiteiro, na comunidade de Canaã, em São Gonçalo do Amarante, onde cresceu ouvindo do pai, Atanásio Salustino do Nascimento, todo o universo de poesia oral.

Segundo depoimentos e registros em jornais e revistas, Dona Militana aprendeu e “armazenou” o universo de cantos orais com o pai, ouvindo-o cantar, ainda criança, quando trabalhava na roça. Filha mais velha de uma família tradicional, marcada por preceitos patriarcais, foi proibida de frequentar festas da região ou cantar “em público”, situação que se manteve imutável já adulta e casada.

Leia “Dona Militana, heroína de crônicas de tempos idos”, de Edilberto Cleutom

É notório que, em princípio, a vida de Dona Militana está calcada sob a condição da mulher em uma sociedade, cuja concepção, no início do século XX, não diferia da realidade colonial, com a vida feminina restrita ao governo doméstico e na assistência moral à família, sem poder de decisão familiar (papel do homem).

Essa interdição naturalmente não a impedia de “cantar” em ambiente doméstico, de modo que, embora relegados a uma memória subterrânea, seus cantares de certa forma não foram lançados ao esquecimento. Inclusive porque o próprio pai, que exercia importante papel nos folguedos locais, como brincante de fandangos e cheganças, mantinha acesa a memória dessa poesia. Assim, seria no papel de mãe e, posteriormente de avó, que Dona Militana resguardaria o direito de portadora dessa memória.

Vida doméstica, mas uma memória nômade, em constante expansão

Podemos dizer que há duas memórias paralelas, senão em situação de confronto e dualidade. A primeira representada pelo pai, como portador autorizado de um saber admitido pelo grupo social, com função social definida, responsável pela perpetuação e duração de uma memória comum; por outro lado, Dona Militana resguardaria uma memória marginalizada e relegada à vida doméstica senão a um segundo plano. Trata-se de uma memória alimentada no espaço interno e uterino, enquanto a memória do homem dominaria espaços externos de interação social. Uma portadora de um poder político, a outra, do espaço da afetividade.

Todavia, a memória paterna corresponde ainda a uma memória submissa a uma ideologia dominante, cuja função seria a de concentrar a identidade cultural da comunidade. Por sua vez, a “memória Militana”, sublocada a uma condição de inferioridade, bebe em verdade da fonte de uma memória mítica, por isso mesmo milenar, cuja característica principal é a de uma natureza nômade que se expande irregularmente, desterritorializando-se constantemente e assumindo novas formas e significados.

O único ponto em comum entre essas memórias estaria na materialidade da própria poesia oral. O gênero romance, de conceituações formais ambíguas, estaria no cerne de ambos os saberes, muito embora nem por isso deixando de ser conflituoso, pois cabia ao pai o exercício através da cantoria ritualizada nas danças e brincadeiras típicas da região, enquanto à romanceira caberia exclusivamente a materialidade da voz como meio e fim. Mesmo assim seria uma forma poética admitida pelos quadros sociais, interagindo no seio de uma memória coletiva carregada de valores simbólicos.

Oralidade é instrumento de resistência em comunidades periféricas

Grafite de Dona Militana no Insituto Juvino Barreto feito pelo artista Lucas MDS.

Importa, sob este aspecto, compreender o reconhecimento dessa forma poética que remonta ao romanceiro hispânico, cujos personagens são bravos heróis e princesas brancas, de olhos claros, no contexto da corte, muito embora associados a vaqueiros e cangaceiros e toda sorte de elementos típicos. A aceitação e a duração dessa memória em si mesma é suficientemente problemática e requer estudo comparativo aprofundado para que se extraiam reflexões esclarecedoras. Poderíamos atribuir por enquanto, mesmo que de forma hipotética, um possível desejo inconsciente a uma ascendência europeia.

Isso seria uma conclusão prematura e superficial, uma vez que sabemos que a memória é seletiva, mas nunca passiva, capaz de apropriar-se daquilo que corresponde a um interesse comum ao grupo, porém atualiza-o em conformidade com uma estrutura latente de sua identidade.

Poderíamos igualmente atribuir a isso a assimilação de estereótipos cujo conteúdo intrínseco corresponderia às representações coletivas do grupo social. Nesse caso, estaria talvez em processo a apropriação da memória do outro como forma de reação a uma dominação histórica e cultural e suas consequentes interdições, implícitas nesse processo.

Vale ressaltar que a memória se concretiza no discurso e é pela linguagem que ela estabelece as interações sociais, reveladoras das identidades coletivas. Resta-nos, portanto, a investigação da fala e da oralidade, onde possivelmente encontraremos o esteio de um profundo e complexo embate de memórias e identidades. No cerne desse embate reside especialmente a dialética entre a memória escrita e a memória oral.

É indiscutível, nesse aspecto, que o grupo social de que faz parte Dona Militana convive com uma sociedade moderna em que a escrita e os media são recursos de memória dominante. É natural que o convívio de ambas as formas de memória não seja de todo assonante, o próprio espanto provocado pelos receptores e ouvintes quanto ao vigor da memória de Dona Militana dá provas das relações conflituosas entre essas formas de memória. Walter Benjamim, em seu ensaio, “O narrador”, aponta a essa condição moderna da perda da capacidade de narrar em função da força da técnica sobre as relações sociais, fenômeno causador de uma certa atrofia da memória oral.

É sob esse ponto de vista que supomos D. Militana como um expoente de uma fase de transição de uma memória em transformação. Se de um lado, confluem em sua memória excertos de uma memória coletiva envolta em seus conflitos, de outro lado ela se põe como que a frente de um ressurgimento de uma memória anteriormente submissa às condições modernas e à supremacia da escrita.

A exemplo disso, percebe-se que, após a revelação pública de sua arte, de certa forma tem-se alimentado certa efervescência cultural outrora adormecida. Não deixa de estar implícito a esse fenômeno, a dicotomia de classes que opõe as comunidades populares às classes e à cultura dominante, residindo na oralidade o instrumento de resistência dessas comunidades.

“Eu canto desde pequena”

É necessário, portanto, aprofundarmos a compreensão da poética da oralidade como agente responsável pela resistência, continuidade e ao mesmo tempo transformação dessa identidade. Enfim, é nesse sentido que situamos o re-conhecimento de D. Militana dentro do seu grupo social, como a portadora de uma memória significativa à identidade cultural do lugar. Percebemos esse reconhecimento por meio da própria Militana quando diz:

Vem das coisas que eu ouvia menina, criança, e continuei ouvindo. Eu canto desde pequena. Cantava pras filhas, canto pros netos, pro povo. Assim o povo me ouviu e pediu que eu cantasse mais. Lembro de tudo. De tanta coisa desse mundo de Deus.*

*Entrevista concedida ao Diário de Natal em 25 de Setembro de 2006.

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