Donald Vega: Da Nicarágua para o mundo

No poema “Cantos de vida y esperanza” (1905), Ruben Dário, para muitos, o pai do modernismo latino-americano, grifa com ares premonitórios o futuro trágico que sua Nicarágua natal teria 70 anos depois, quando uma Guerra Civil entre forças governamentais e guerrilheiros sandinistas flambou a América Central, a ponto de se transformar em uma das batalhas mais importantes (e sangrentas) da Guerra Fria.  

Em certo trecho, ele diz assim: “Eu conheci a dor desde minha infância, minha juventude/ foi juventude a minha? Suas rosas ainda deixam sua fragrância, uma fragrância de melancolia”.

Era uma época em que os Estados Unidos invadiam aquele pedaço de chão habitado por hispânicos e ameríndios a cada estação. Ainda que o erotismo fosse o tema chave da poesia de Dário, traços políticos podem ser vistos em sua obra.

Talvez seja mania de quem nasceu abaixo do Rio Bravo, a de politizar biografias e episódios de artistas latinos, mas o filme dariano se repetiu com o conterrâneo Donald Veja, pianista que saiu da Nicarágua aos 14 anos de idade.

Com uma diferença: a dor e a melancolia foram trocadas por uma obsessão messiânica em dominar o instrumento popularizado por Liszt e Chopin, em estudos na University of Southern California.

Força da natureza

Com uma lista quilométrica de prêmios recebidos, Vega, hoje, faz parte dos headlines da cena jazzística de Los Angeles, e lançou um dos melhores discos da década passada: Sua segunda cria, “Spiritual Nature” (2012) – ele tem nove álbuns na carreira.

Numa mistura perfeita de classicismo europeu e jazz latino,  Vega solta influências diversas – da Rússia de Alexander Scriabin, da Dinamarca do baixista Niels-Henning Orsted Pedersen, do piano jamaicano de Monty Alexander e do Brasil de Antônio Carlos Jobim.

Ele teve a honra de ser adotado artisticamente por Ron Carter, nada menos que o baixista coautor de dez discos com Miles Davis, além de parceiro de Thelonious Monk, Chet Baker, Herbie Hancock, Antonio Carlos Jobin, Eumir Deodato e Hermeto Pascoal.

Álbum de 2012 traz tema que homenageia Tom Jobim

Nascido em uma família musical, Donald Vega tem 46 anos e um controle do pulso em todos os andamentos e transições que catequizou dois músicos de primeira linha para o projeto: o baixista Christian McBride e o baterista Lewis Nash.

“Espiritualmente, esse é meu trio dos sonhos”, revela o nicaraguense apaixonado por música brasileira – influência logo sentida em faixas como a que intitula o álbum e em “Falando de amor- Tema de amor”, do próprio Tom Jobin.

Donald Vega tem enorme facilidade com os fraseados que cambiam do bebop dos anos 1950 e 1960, ao lirismo do piano de Bill Evans, e até ritmos latinos.

Outra homenagem é feita para Clifford Brown, mágico trompetista que, juntamente, com o baterista Max Roach, gravou o antológico “Study in Brown” (1955).

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