Donana tem quase meio século de experiência em parto humanizado

Anamaria vivia os estertores da adolescência, em meados dos 70s.

Com fama de danada, valente feito uma suassuruna, a jovem era popular no povoado de Campinas, em São Gonçalo do Amarante (RN).

Corria bodegas, farmácias e plantações, feito uma menina de favores enviada pela mãe para socorrer parentes e vizinhos.

Também adentrava em moradas alheias, caso fosse chamada.

A mais velha entre dez irmãos se sentia diferente, pois algo fustigava aquela mente inquieta desde a infância, período em que cortava a barriga de bonecas grandes para introduzir menores.

Como rezava a tradição familiar, a cabocla veio ao mundo via parto natural, em casa – igual aos irmãos.

Foi tanta experiência em foro íntimo que, aos 16 anos, veio uma Revelação.

“Eu ia passando na rua e uma mulher grávida me chamou: ‘Menina, venha cá. Dá pra você me ajudar aqui?, que eu não ando mais e não tem ninguém em casa’. Ela sentou num baú, puxou a rede que estava pegada e eu ajudei ela a se parir”.

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Fotografia: John Nascimento

Marco zero como parteira, a prova de fogo viria em um lugar chamado Salgado, cerca de dois anos depois.

Localizado entre os distritos de Jacaraú e Santo Antônio dos Barreiros, a comunidade quilombola à beira da maré reunia “índios, afros e tinha mulher de dois metros de altura”, diz a própria.

Já transmutada em Ana Parteira, a convocação para acudir uma gestante em processo abortivo quase terminou em tragédia.

“Ela tinha ido tomar banho na maré, onde é muito perigoso para se ter um aborto. Quando eu chego com meu material para prestar socorro, vi cacete batendo, gente correndo atrás de mim e me xingando de menina sem-vergonha, dizendo que aquilo era assunto de mulher. A porta da casa dela tinha uma trava, com uma brecha embaixo. Entrei rápido e fechei tudo. Eu disse: ‘Agora quem está aqui sou eu. Possuo uma seringa, uma tesoura e uma agulha, se alguém entrar pra me matar, vou furar muita gente”.

Enquanto o marido da enfermiça tentava acalmar a multidão, do lado de fora, Ana Maria ajudou a mulher a sentar, limpou o sangue e gritou:

“Não sou menina, não, sou uma nega veia parideira, estou acostumada a fazer parto”.

“Eu ainda era virgem nessa época”.

Na manhã de ontem (04), eu e o repórter fotográfico John Nascimento fomos até São Gonçalo do Amarante ouvir histórias como essa de uma parteira tradicional singular.

Estávamos na Casa da Cidadania, instituição ligada à prefeitura municipal onde ‘Donana’, como também é conhecida entre parturientes aqui de Natal, cumpre expediente na condição de presidente da Associação Nossa Senhora do Bom Parto, cujas 36 parteiras filiadas atuam em parceria com o poder público.

“Não sou só parteira não, sou muito curiosa, de querer saber, aprender”.

Em um Brasil dominado pela cultura da cesárea, uma avis rara.

Desconhecíamos que hoje, esta quinta-feira de afastamento do presidente da Câmara Federal, é o Dia Internacional da Parteira.

Que fique o registro.

NASCIMENTO DE ISABELLA
Donana tem 63 anos de idade e desde os 16 faz partos naturais, sobretudo, em Sâo Gonçalo do Amarante, onde nasceu e vive até hoje; ela contabiliza mais de mil bebês paridos em suas mãos: “Parteira tem faro de cachorro. Noventa por cento das vezes, sabemos se vai dar certo ou não. Temos o conhecimento e o dom dado por Deus para compreender as coisas assim, no olho”. Fotografia: Anastácia Vaz

As bruxas da placenta

O tema parto humanizado gera discussão.

Tido como coisa de pobre para uns, de maluca, para outros, o método de gerar uma vida sem intervenção cirúrgica, de preferência, em casa, virou um ato político, tamanha a barreira enfrentada por mulheres que desejam seguir o curso normal de uma gravidez.

“Não é obrigatório todo mundo ter cesárea. O que é obrigatório é a pessoa ter uma consciência saudável do que é o parto. Porque só assim ela tem como decidir se quer ser cortada ou ter um parto normal. Nunca aconselhei ninguém a fazer cesárea, e poucas foram as cesáreas que encaminhei na minha vida. Mas quando é necessário intervenção cirúrgica, vou com antecedência no hospital e deixo marido e mulher à vontade para tomar a decisão”.

A espírita Anamaria Valcácio da Silva, a Donana, tem 63 anos de idade.

Trabalhou com teatro, foi líder da comunidade e coordenadora do grupo da Pastoral da Juventude.

Seus cinco filhos foram paridos em casa – um morreu ainda bebê.

Ela sabe o quanto de preconceito existe contra sua profissão.

“As pessoas acham que a parteira é perigosa, coisa de macumbeira, bruxaria. A mulher vai na ultrassonografia, aí dá que a criança não tem como nascer naturalmente. Aí a parteira vai e faz o parto. Temos nossos modos de sentir, tatear, sentir onde tem uma cabeça, a lateral das costas”.

Da margem de um rio à mata fechada, seu conhecimento de quase 50 anos como parteira já ajudou mulheres a parir em tudo quanto é canto.

Paga quem pode, pois ela diz que jamais deixará de partejar por falta de dinheiro.

Se a modernidade transformou o nascimento de um ser humano em algo mecânico, sobretudo no Brasil, país tropical campeão mundial de cesáreas, uma penca de parteiras, doulas e gestantes sustenta um movimento contrário ao que é praticado na imensa maioria dos hospitais.

Existem estabelecimentos privados da capital potiguar onde a taxa de intervenção ultrapassa 90% dos partos, na contramão do que sugere a Organização Mundial da Saúde (15%, no máximo).

“A mãe trabalha 100% o parto. A parteira, a doula, a família ajudamos na hora. Agora, o trabalho de parto mesmo é da mulher. Todos os movimentos começam e terminam com ela. Tudo que a gente orienta é ela quem faz. Há casos que a gente trabalha mais, ajuda mais, mas a maioria dos partos é somente a mulher”.

Por dez anos, Donana partejou de mão limpa, sem luva cirúrgica, sem um único caso de infecção.

Dos tempos em que andava de facão na cintura, para enfrentar cobras, raposas e jacarés à beira do rio Potengi, onde costumava pescar, ela mantém a firmeza na fala, gestos efusivos e confiança para desfazer o medo da dor.

“Parteira tem faro de cachorro. Noventa por cento das vezes, sabemos se vai dar certo ou não. Temos o conhecimento e o dom dado por Deus para compreender as coisas assim, no olho”.

Ao natural

Quem trava diálogo com Donana é atingido por uma bateria de assertivas, piadas, questionamentos, em um pacote comunicativo criador de uma simpatia imediata.

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Produtora audiovisual Catarina Doolan teve a pequena Isabella em outubro passado através de parto humanizado, em sua própria casa; acompanhada pela doula Nicole Passos e pela parteira Donana, ela diz que fez a melhor escolha possível. Fotografia: Anastácia Vaz

É a mesma opinião da produtora audiovisual Catarina Doolan, mãe de duas meninas, a segunda delas nascida em outubro passado, em um parto domiciliar conduzido por Donana e pela doula Nicole Passos.

Via Whatsapp, ela detalhou o nascimento da pequena Isabella.

“Minha experiência com Dona Ana foi maravilhosa. A primeira vez que conversei com ela, eu senti uma vibração muito positiva, senti confiança. Eu estava insegura, por não conhecer o trabalho de uma parteira tradicional. No dia do parto mesmo, ela chegou pouco depois de minha doula e eu estava muito bem, muito confiante de que tinha feito a escolha certa. Eu acho que a mulher na hora do trabalho de parto sabe o que está acontecendo com seu corpo. Dona Ana permitiu, de certa forma, que eu me sentisse cada vez mais segura, porque ela não falava diretamente comigo, mas o tempo todo ela quebrava o gelo, eu dava risadas com ela. E o tempo todo ela conversava com outras pessoas presentes dizendo o que estava acontecendo. Indiretamente ela me informava como estava funcionando meu corpo, literalmente. Em momento algum eu tive medo ou questionei a forma dela agir. Ela se emocionou com o nascimento de Isabella. Dava pra ver que aquilo é o que ela gosta de fazer. É uma doação, você percebe que ela não está ali simplesmente para fazer dinheiro, ela tem prazer naquilo. Todo o processo com Dona Ana, pra mim, foi muito gratificante”.

Mais que uma parteira

Donana diz não passar um ano sem fazer cinco, seis partos, ainda hoje.

Houve épocas de intensa atividade.

Ela contabiliza um número aproximado de mil, desde o instante em que entrou na casa da mulher desesperada, 47 verões atrás.

Seu papel na comunidade Campinas e em toda São Gonçalo do Amarante vai além de partejar, prestar assistência às mulheres na hora do parto.

“Onde eu moro, não sou simplesmente uma parteira. Sou uma das mulheres que está em casa disposta a sair de manhã cedo, de noite, de madrugada para ajudar alguém. Já entrei em casas em condição difícil”.

São casos como o da menina expulsa de casa pelo pai, após a descoberta da gravidez precoce.

Aos prantos, a adolescente chegou à casa de Donana.

“Ela chegou lá em casa e disse: ‘Ih, madrinha, meu pai mandou eu vir pra sua casa’. Eu disse: ‘Deixa eu terminar aqui de tomar meu café e fumar meu cigarro que vou lá na casa dele’. Quando cheguei lá, ele tinha uma certa condição de ajudar a criar o neto, abandonado pelo pai. Aí ele falou assim: ‘A senhora já tá aqui com ela?’, eu disse: ‘Já, porque nunca mandei nenhum dos meus aqui pra sua casa. Abra a porta pra receber sua filha. Se eu souber que o senhor bateu nela por conta de um filho, a gente se acerta, viu, meu cumpadre? Porque eu vou procurar a justiça e dizer que o senhor bateu numa gestante”.

O parto foi feito na presença do sujeito.

“Era eu partejando e ele fazendo piada”.

Situação oposta vivem Amanda de Araújo Ferreira e Fernando Max de Sousa Correia, ambos com 25 anos.

O jovem casal procurou a Casa da Cidadania com a ideia do parto humanizado.

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Nutricionista Amanda está no oitavo mês de gravidez e procurou Donana na Casa da Cidadania de São Gonçalo do Amarante no momento da entrevistava com a parteira. “Só em não ter intervenções que eu sei que são desnecessárias, pra mim, já é a melhor coisa”. Fotografia: John Nascimento

Ela nutricionista, na 36ª semana de gestação de Analú.

Ele, funcionário de uma oficina mecânica.

“Antes de engravidar, eu já vinha buscando, não sei se por instinto, a parte de doulagem, de procurar fazer um curso, mas não encontrei. Como estava terminando o curso [de nutrição], eu deixei pra lá. Aí no final do curso, eu engravidei. E aí comecei a procurar mesmo para ser acompanhada. Fui para uma roda de gestantes em Natal, em Ponta Negra, na Casa Aho [da doula supracitada Nicole Passos], e a partir dessa roda fui buscando os caminhos do parto natural”.

Amanda ouvia Donana com atenção, ciente do que quer para os próximos dias.

“Só em não ter intervenções que eu sei que são desnecessárias, pra mim, já é a melhor coisa. Meu medo de ir para o hospital é justamente o de sofrer uma violência mesmo, porque a gente sabe que eles não têm paciência, eles têm horário para cumprir. E eu vi Dona Ana como minha salvação”.

Você está ali, olhar fixo naquela mulher destemida consultada pelo casal, de discurso forte e vivência pra dar e vender, e pensa no tamanho da responsabilidade que ela carrega há tanto tempo.

Como na cultura popular, tradições confrontam a modernidade, resistentes que só elas.

Algo fascinante e inexplicável acontece naquele chão dos simples, penso eu.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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