O dono da Nobel Salgado Filho atesta: “Livros locais vendem bem, mas para amigos!”

Aluísio Azevedo Jr. poderia ser classificado como inconsequente. Após livrarias antigas e menos tradicionais de Natal abrir falência (A.S. Livros e as livrarias Poty e Câmara Cascudo), ele abre a Livraria Nobel, no coração da principal avenida da cidade. É que Aluísio é filho de imortal da Academia Norte-rio-grandense de Letras, é também escritor e abraça a causa da literatura potiguar. A “Nobel Salgado Filho” abriga hoje o maior acervo de livros locais. São mais de 300 autores do Rio Grande do Norte. E muito da “sobrevivência” da Nobel advém dos lançamentos literários desses autores e de programações paralelas para além da venda do livro. Mas nem tudo são flores. Confiram a entrevista:

A equação produção, editoração, venda e distribuição é eficiente por aqui?
Imprimir uma tiragem de 300 exemplares de um livro está bem acessível a um escritor de classe média, com algum recurso. Até porque ele vende e tira o investimento. A editora não fica com porcentagens de venda, normalmente, ou ela banca custos de gráfica. Hoje, o editor funciona mais como assessor na linha de produção; as editoras não têm capital para investir. Agora, o problema é a distribuição. Esses livros são vendidos bem durante o lançamento, mas para amigos, para um ciclo de conhecidos. E para tristeza dos autores, muitos compram e jogam na estante, sem ler. Temos qualidade, diversidade e quantidade de livros, mas falta distribuição. Não chegamos sequer em mercados mais próximos, como Ceará e Pernambuco. Temos autores já classificados no top 10 da lista da Amazon (Gustavo Diógenes, autor do livro de ficção científica ‘Acáci Mundo 17’).

Qual o percentual de venda de livros locais na Nobel?
Chega próximo a 20%. Mas temos o maior acervo de Natal, com mais de 300 autores. Postamos o livro do autor potiguar em estante própria e em destaque na livraria ou até em cima do balcão, para chamar mesmo a atenção. Em outros lugares, mesmo o livro potiguar que vende, fica escondido. Como sou filho de escritor e também escritor, me identifico com a classe e compro a briga.

Aluísio ao lado de Milena Azevedo. Foto: Paula Galvão
Aluísio ao lado de Milena Azevedo. Foto: Paula Galvão
Quais os livros potiguares mais procurados?
São aqueles com ligação histórica da cidade e as biografias. Recebi muito pedido pela biografia de Marinho Chagas (‘A Bruxa e as duas vidas de Marinho Chagas’, do jornalista Luan Xavier). E como não recebi tive que ligar para o autor e pedir. A biografia sobre Valdetário Carneiro também é bem procurada; livros sobre história dos municípios… Mas talvez os de maior apelo sejam os livros com a genealogia de famílias mais tradicionais.

Há um perfil desse comprador?
Livros vendem mesmo é no lançamento. A desproporção é gigante. Se um livro vende 80 exemplares, 75 é durante o lançamento. Depois vem os “pingados”. E o perfil desse comprador é muito atrelado ao perfil do autor. Gente jovem atrai gente jovem. Mas o mais comum são consumidores mais maduros, que gostam da cultura regional. Esses são os compradores mais frequentes, que gostam do cordel, da poesia.

Muitas livrarias fecharam. O que mantém a Nobel?
Sobrevivemos de parcerias: com a sublocação do espaço para cursos de desenho, aulas ministradas por professores, e com aluguel de salas para agência de viagens e para uma editora que funcionam dentro do prédio, além da interligação com outros serviços, como cafeteria, etc. A renda de aluguel para os lançamentos julgo mais importante, porque o público vem, conhece o espaço e há o encantamento, a sinergia; ele analisa o acervo, compra mais um, volta depois. Infelizmente falta essa cultura do lazer, do entretenimento na livraria. Não se tira um fim de semana para visitar uma livraria e comprar um livro ao filho. Pior: é crescente agora autores lançarem livros em churrascarias, em bares, na Funcarte, e acaba de matar a livraria. Somos obrigados a promover programação paralela ou fechamos. Por hora, os custos apenas empatam. Praticamente não temos lucro.

O e-book, os downloads gratuitos ou mesmo os sebos virtuais têm prejudicado as livrarias?
A dificuldade maior é a distancia das pessoas. Se visitassem mais as livrarias a mágica acontecia. Não entendo o livro digital como ameaça. Hoje representa de 2 a 3% do mercado brasileiro. E não há modelo determinado para esse mercado no Brasil ainda. Os leitores são travados para suas lojas vendedoras. O Kindle só compra na Amazon; o Lend só compra na Saraiva, a Kobo só compra na Cultura, etc. Essa é a estratégia errada da Amazon que os filhotes brasileiros imitam. São vendas casadas. Imagine se o leitor restrito à compra em apenas uma loja pudesse comprar em várias. Esse mercado cresceria rapidamente. Tenho interesse nesse mercado também. Mas busco um leitor destravado dessas amarras para colocar os livros potiguares dentro e vendermos a partir de uma loja nossa. É tecnologicamente possível. O custo de produção do livro digital é extremamente barato.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. thiago gonzaga 19 de março de 2015 22:54

    Ninguem melhor para falar da nossa realidade,se tratando de livros, do que Aluísio Jr, filho de escritor, tbm escritor-ficcionista e livreiro. E Tem mais, uma simpatia de ser humano.
    Qual a livraria de Natal, onde temos atendimento personalizado, onde somos quase sempre recebidos pelo próprio dono do negocio ?
    A Nobel é uma especie de igreja, um lugar onde os escritores de Natal se reúnem sempre, uma verdadeira confraria.
    Temos que incentivar e apoiar lugares como esse, onde nós somos valorizados e reconhecidos como escritores.
    Todos os dias temos que pedir aos deuses da literatura que não deixem ela fechar.
    P.S.
    Além dos livros ,a Nobel tbm tem o melhor cafezinho, das livrarias de Natal, o Barros Café.

  2. Felipe Macedo 19 de março de 2015 22:38

    Parabéns pelo belíssimo texto. É uma realidade muito triste a do autor regional, pois a maioria das pessoas pensam que só presta se for estrangeiro

  3. Anchieta Rolim 19 de março de 2015 18:38

    Publico para lançamentos de livros, exposições de artes e etc… é coisa difícil e rara aqui no RN. Graças aos amigos, ainda podemos mostrar nosso trabalho e trocarmos umas ideias nos dias de lançamento. Eu, como já estou habituado a isso, e produzo por prazer e necessidade espiritual, acho até legal que seja assim mesmo, apenas os amigos. Melhor que juntar gente estranha, as vezes aparece cada um… É o que eu acho. Só isso… inté…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo