Dorian Gray faz duplo lançamento literário

A literatura norte-rio-grandense será um dos destaques da 18ª edição da Semana de Ciência, Tecnologia e Cultura – CIENTEC, da UFRN, maior evento do gênero no Estado, e que acontecerá no campus da UFRN no período de 23 a 26 deste mês. É que no dia 26, o artista plástico e escritor Dorian Gray Caldas, Doutor Honoris Causa dessa universidade, fará o lançamento simultâneo dos livros “A Necessidade do Mito” e “A Hora Única”, deflagrando a Coleção Dorian Gray Caldas, que terá sequência com a reunião da sua poesia no volume intitulado “Do Outro Lado da Sombra”. Esses livros selam parcerias da Editora da UFRN simultaneamente com o Sesc e com o Banco do Nordeste/Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Livros por assim dizer geminados, por partilharem da prosa desse artista de tantos talentos, “A Necessidade do Mito”, que tivemos o privilégio de prefaciar, reúne ensaios densos sobre poetas como Luís de Camões, Sanderson Negreiros, Hölderlin, Charles Baudelaire, Francisco Carvalho e Drummond, e artistas como Hyeronimus Bosch, Hundertwasser, Pablo Picasso, Leonardo Da Vinci, Velázquez, Heráclito e, pasmem!, Batman, o homem-morcego, e outros personagens do imaginário mítico moderno, num leque que vai desde a arte africana até a tapeçaria.

No afã de elucidar a complexa relação do homem com seus mitos, Dorian Gray põe de lado a paleta e os pincéis e se debruça sobre tomos de filosofia, etnologia e história da arte, somados a muita leitura literária. A diversidade de fontes que esmiúçam os múltiplos aspectos e peculiaridades de que se revestem os mitos, em seus inumeráveis avatares, confere ao livro “A Necessidade do Mito” uma dinâmica toda própria, fruto de ideias que o artista potiguar vem amadurecendo no fazer e no pesquisar a arte ao longo de sua vida. É justo assentir que esse duplo olhar sobre a arte se constitui um privilégio comum a poucos de seus exegetas, daí a importância e o caráter singular desse livro.

De fato, “A Necessidade do Mito” é a mais ampla investigação feita entre nós sobre o tema do imaginário, nas veredas abertas pela “Geografia dos Mitos Brasileiros”, de Luís da Câmara Cascudo, e que dá prosseguimento a uma pesquisa mitológica que Dorian vem empreendendo há décadas com alguns resultados concretos anteriores, como “Encantados: lendas e mitos do Brasil” e “O Traço, a Cor e o Mito”.

“A Hora Única”, volume 2 da Coleção Dorian Gray Caldas, pode ser entendido como uma sequência do livro anterior, mas num registro mais doméstico, na medida em que dá realce a artistas e escritores do convívio do autor. Nesse amplo domínio comum sobressaem os nomes do cronista Câmara Cascudo, do tribuno Almino Afonso, dos escritores Nilson Patriota e Veríssimo de Melo, do humanista Peregrino Júnior, dos poetas Lucimar Luciano de Oliveira, Luís Carlos Guimarães, Homero Homem e Jaime dos G. Wanderley, dos artistas plásticos Jussier Ribeiro, Hélio Melo e Zaíra Caldas. Além de todos esses nomes, ainda sobra espaço no livro para considerações pertinentes a Pablo Neruda, Hilda Hilst, Marco Lucchesi.

Considerando esse duplo lançamento, não há como negar que o ensaísmo norte-rio-grandense sai enriquecido, haja vista que se integra a uma vertente das nossas letras que remonta a Cascudo e segue com nomes como Antônio Marinho, Esmeraldo Siqueira, Edgar Barbosa, Américo de Oliveira Costa, Manoel Onofre Jr., Tarcísio Gurgel, dentre muitos outros.

Com isso, fica evidente o papel fundamental que o ensaio exerce entre nós, pondo em evidência o leitor-crítico, figura-chave para que o fazer literário galgue um novo patamar, resultante do confronto entre o leitor especializado e o autor profissional. É o encontro dessas vertentes que possibilita o aparecimento de leitores-autores, como Dorian Gray, que poderíamos classificar ainda como leitor-artista, condição que lhe garante um lócus seleto no universo das nossas letras.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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