Dorian Jorge Freire

Por Luis Fausto

Para mim, o dia 24 de agosto dói no coração desde 2005.

Naquele ano morria em Mossoró, aos 71 anos, Dorian Jorge Freire. Pai, amigo, conselheiro, confidente. Jornalista reconhecido aqui e ali como um dos melhores que a imprensa brasileira já produziu.

Sinto saudade, muita saudade.

E dele pinço do diário que deixou guardado, um texto escrito em São Paulo no começo dos anos 70 do século passado.

Eis:

Digo porque sei. Já tentei, juro. É uma experiência empírica. E delas nascem as filosofias, mesmo as mais despreocupadas – segundo Leibnitz. Ou as mais complexas, também. Quantas vezes quis alterar tudo e escrever o meu próprio roteiro? Chamam a isso de personalidade. Tolice. Seria como escrever um epitáfio. Apenas fiz o que deveria fazer. O que teria de fazer. O que não poderia deixar de fazer. Nenhuma novidade, nenhum mérito. Até porque tudo estava previsto. Até nas minúcias. Desde a eternidade.

Jaime Hipólito Dantas, em carta, me diz que seria um problema de readaptação e cedo tudo estaria nos seus devidos lugares. As porcas nos eixos e os eixos nas porcas. Eu saltaria os obstáculos, que já os tenho saltado tantas vezes. Mas a questão não é o obstáculo. A ausência dele, sim. O obstáculo faz da corrida uma aventura, um desafio. Esfalfado, banhado em suor, ferido, ofegante, os trapos colados ao espinhaço, o homem continua correndo e saltando, saltando e correndo. Como se não houvesse outra coisa a fazer senão correr e saltar, saltar e correr. O que derruba o homem é a monotonia da caminhada sem acidentes nem surpresas. Porque assim nada acontece, nada pode acontecer, nada deve acontecer. E, portanto, nada acontecerá. E o homem irá ao chão. Vencido pela inutilidade mais do que pela exaustão.

No silêncio desta sala, após uma noite de tantos pensamentos e relembranças, passo a entender o que é aquilo a que os santos e místicos chamam de “nostalgia do céu”. E que não é, propriamente, uma vontade de anular-se. Mas um desejo de alcançar tudo. Carlos Lacerda diz que não quer muito, quer tudo. Também entro na faixa desse radicalismo. Tenho querido tudo, embora não tenha recebido muito. Mas é difícil pensar o céu. É impensável aquela bem-aventurança. O poeta queria saber que céu satisfaria o seu desejo de céu. Impossível o pensamento. Aquelas almas a cantarem salmos e a repetirem, satisfeitas, a ladainha de santo, santo, santo. O desafio interminável de “uma grande multidão que ninguém pode contar, de todas as nações e tribos, e povos, e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, revestidos de vestiduras brancas, e com palmas nas suas mãos”. Todos os que “vieram da grande tribulação, e lavaram em seus vestidos, e os embranqueceram no sangue do Cordeiro”. E “não terão mais fome nem sede, nem cairá sobre eles o sol, nem calor algum, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, os guardará e os levará às fontes das águas da vida, e Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos”.

O inferno é mais fácil de conceber. A danação. O purgatório? O dia adiado. A espera. A expectativa sem ódio. O limbo, não. É a impotência, a indefinição, cor morna, aspecto equívoco, esquivo. Sem futuro: um presente eterno de silêncios e de nadas. Nenhuma dor especial. Ou sofrimento como ato. A inutilidade. A paz de águas mortas, milenarmente estéreis. É isto. A possibilidade de erguer o braço, pronunciar a palavra, fechar e abrir os olhos, sorrir e chorar. E nada fazer, porque falta alento. E não importa nada.

O rumor que vem lá de fora é agora menos indistinto. Começo a compreender vozes. Aquela fininha é da menina de tranças, sardenta de pernas em arco. Aquele gaguejar, de menino taludo em véspera de mudar de voz e de receber pêlos. Aquela risadinha estrídula, da menininha em lua-de-mel com o primeiro sangue. Cantam – e eu distingo o seu canto. E amo a melodia. Ela entra pela janela, repercute no quarto, dança em volta de mim, acalenta a manhã vazia.

“Bom barquinho, bom barquinho

Deixarás passar,

Carregado de brilhantes…”

Gostaria de ir à janela para vê-los. A cantiga nascendo de seus lábios e tomando a calçada, e invadindo casas, e provocando ontens. Mas nem tentarei. Romperia o encantamento. Erguer-me, não. Limito-me a cerrar mais fortemente as pálpebras. A cantiga continua volteando em torno de mim, como um convite. Ou uma provocação. Traz o tempo de eu menino. Quando sabia de tudo e não havia os mistérios da maturidade. Arrebentar em soluços e assustar os passarinhos com o desespero adulto. Sentir a vontade de correr até eles e revelar o mundo, a realidade ímpar, sem barquinhos nem carregamentos de brilhantes. Houvesse, que adiantaria? Ninguém deixa passar o bom barquinho. Ele aderna na infância, submerso e traído. Traído mais do que submerso, porque ninguém faz outra coisa na vida senão negar e trair a infância.

Gosto de ouvi-los. Sentir que não há preocupações nem tristezas. Que as crianças brincam, os pintinhos correm, há vendedores na rua e trinados em viveiros próximos. O bom seria fosse sempre assim. Não houvesse mágoa. Poderia haver tristeza. Até tragédia. Mágoa, não. Mágoa é eczema. Ferida da peste. Desaparece por meses, engana o sofredor, faz com que pague promessas, reze novenas, acenda círios. Depois volta, retemperada e mais daninha. Mágoa é assim. Fica no fundo, na espreita. Mas volta. Gato de sete fôlegos e filosófico ceticismo. Os olhos do gato. Acesos nas trevas, lembrando lobisomens. Aparição de papa-fígados, inimigo de menino, desrespeitador de moça virgem e de viúvas inacessíveis.

Eu tenho – confesso – quase ódio contra os que me maltratam e perseguem. Os injustos. Principalmente porque não me atingem sozinho, não me pegam individualmente. Vão longe. Alcançam a família, a mulher, os filhos, parentes como aderentes, próximos e afins. Daí o ódio grosso, viscoso, sortido. Dos outros é que guardo mágoa. Não me fizeram grande mal. Talvez nem me fizeram mal. Apenas se foram. Desapareceram, engolidos pela pusilanimidade. E isso é chato. Amigo que desaparece, não é amigo. A não ser que se meta sete palmos terra adentro, esperando o Juízo. Do contrário: canalha. E quando a gente descobre um canalha que foi amigo, o que fica é uma dor fina. A pontada renitente. Alfinete em dor de dente. Os inimigos estão no arquivo. Não interessam – são inimigos. E inimigo é coisa ruim, de quem nada se espera. Inimigo que não atenta, que não malicia, não obra safadeza, é inimigo desmoralizado. Sem grandeza e em vias de ser amigo. E o amigo traidor? O vômito do sentimento.

Recordo o olhar de Jesus para Pedro. Não foi de reprovação: ele sabia de tudo. Foi de mágoa. Daí o pescador que negou três vezes, haver chorado. Judas não teve aquele olhar. Tão grande era a mágoa do homem, que nem olhou o filho das trevas. Do contrário, ele teria repetido Pedro e não estaria sendo queimado nas festas de Aleluia.

Feijão no prato, farinha na cuia. Eu poderia escrever um tratado sobre a mágoa. Da mágoa. Não esqueceria de dizer que ela dói com intensidade, especialmente à noite. E no inverno, também. A gente deitado, o corpo em repouso, o espírito vadiando. Quando dá por si, está mergulhado em mágoa. Até a nuca. Sentindo o aguilhão. Começa recapitulando coisas, tecendo a colcha de retalhos. Pega daqui, junta dali, tira de acolá e o passado, num átimo, salta. Sangrento e doloroso. E repercute. Tentar dormir – inutilidade. O sono não chega. É pior. Surge mais afoita. Na vigília, é possível domá-la e reconduzi-la ao sótão das más lembranças. Faz-que-esquece. No sono, chega potencializada. E muitas vezes, quando se acorda, o corpo ainda treme e o travesseiro conta uma história úmida. Suor e lágrimas. Cismo.

As horas lindas foram as da infância. Quando as tristezas chegam, é que a infância se foi. Mas não se nota, na hora, o fim da infância. A gente só vem sentir depois, muito depois. Quando é tarde. E Inês é morta.

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