O dorminhoco do vale

Poema de Arthur Rimbaud 

Tradução de Marcos Silva

 

É um furo de verde onde canta um riacho
Que agrega loucamente às ervas uns halos
De prata; onde o sol, da montanha, num cacho,
Chispa: é um pequeno vale a espumar seus embalos.

Jovem soldado, aberta boca, crânio nu vem,
E a nuca se banhando em agrião folhagem,
Dorme; estendido o corpo nas ervas, há nuvem,
Pálido em verde leito, luz e chuva agem.

Com os pés nos gladíolos, dorme. E sorriu
Como o faria um bebê doente, tem frio:
Natureza, tão quente, acalanta-o no peito.

Os perfumes não mais excitam seu nariz;
Dorme sob esse sol, com as mãos nos quadris,
Tranqüilo. Rubros furos no lado direito.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Eli Clemente 15 de setembro de 2015 17:11

    Esse poema é muito bonito, a tradução é inspirada e a conexão com a fotografia tão atual é assustadora: o horror está aí!

  2. Marcos Silva 15 de setembro de 2015 13:09

    Trata-se de descrição, à primeira vista, deslumbrante e harmoniosa de cena que poderia ser idílica: o esplendor da paisagem – com seus brilhos e matérias, suas cores (predominando, no começo, o verde) e formas – tem tudo para o encantamento. Não fica muito claro, a princípio, quem declara esse encanto, há certa indeterminação quanto ao emissor da voz, dos juízos sobre tanta beleza concentrada num só lugar. A natureza, preliminarmente, parece dotada de vontade e caráter, de onde derivaria um fascínio – antes de tudo visual -, unindo o belo ao verdadeiro.
    A introdução de um personagem humano (“jovem soldado”) abre uma possibilidade: é ele quem apreende e transmite tanto fascínio? Ao mesmo tempo em que essa leitura se insinua, o próprio rapaz é localizado naquele universo descrito, participando das harmoniosas relações entre cores vegetais – tonalidades de verde, temperadas pela palidez do soldado -, redesviando a leitura para uma outra fonte dos comentários, que não o personagem. Junto com a cor e a luz, texturas e odores das plantas são potencializados por “luz em chuva” e “nuvem”, ampliando os sentidos supostamente atingidos pela cena descrita – além da visão, o tato e o olfato.
    O deslumbramento daquela visão se manifesta, ainda, nos gladíolos, que emolduram os pés do soldado e seu sono, talvez embalado pela natureza, convidada a superar-lhe o frio.
    Descobre-se, no último terceto do poema, que o jovem não mais é dotado de sensibilidade para aqueles magníficos odores e nuanças de cor, não sente o sol, pois dorme um sono – três vezes reafirmado – sem sonhos, nem o frio (que o possui), e, por fim, nada experimentou durante todo o tempo do soneto: o sangue, anunciado nos furos de seu corpo, na cor primária (vermelho) complementar da secundária que predomina na cena (verde), atesta-lhe a morte, que o transforma em coisa entre coisas, adereço da beleza evocada, nunca em sujeito de sua produção ou percepção.
    Quando escreveu esse poema, Rimbaud, jovem contemporâneo do império de Louis Bonaparte (“Napoleão, o pequeno”, segundo caracterização de alguns de seus contemporâneos), tinha diante dos olhos a Guerra franco-prussiana, iniciada em setembro daquele ano, e a derrocada do exército francês, pedra de toque para nova queda da monarquia na França e a proclamação da república, em setembro de 1870, seguida, via articulação com a luta de classes, pela experiência da Comuna, a partir de março do ano seguinte .
    O fascínio da paisagem, como que emanado verbalmente de seu próprio ser, evoca o tema cívico do corpo territorial da nação , sedutora mãe dos cidadãos, dotada de uma beleza que cimentaria a identidade de seus filhos (a população do país), presente, de diferentes formas, em todas as esferas da vida desses seus membros – da fábrica ao campo de batalha, do escritório à terra lavrada, da Imprensa ao Congresso, da cozinha ao quarto de dormir, do hospital à escola.
    Rimbaud introduziu, criticamente, nesse panorama, notas amargas: é uma beleza que não pode ser desfrutada pela única pessoa ali presente, marcada pela indiferença da mãe natureza/nação em relação àquele filho (o acalanto aquecedor precisou ser solicitado ou sugerido, indicando que não fora proporcionado até então), atributo de um mundo onde os seres humanos se tornaram tão coisificados que sua morte, identificada nos “Rubros furos”, se transformou em pequena peça daquele espetáculo, conjunto acessório de cor (vermelho) e formas (círculos).
    Furos abrem e fecham o poema (“furo de verde” e “Rubros furos”), como janela que permite ver a bela paisagem, no primeiro caso, e escoadouros da vida, no outro. Essa simetria dos buracos torna concreto o esvaziamento da presença humana em toda a situação, esvaziamento apresentado como face mais palpável da epifania da nação – epifania que era, antes e fora do poema (no plano ideológico), entendida como natureza em sinfonia e morte heróica. A almofada de gladíolos identifica a natureza/nação como belo ataúde, atestando sua pertinência ao universo da vontade de morte, tornado possível por um corpo territorial que é pura cova .
    Negando a guerra, o heroísmo e as glórias nacionais, num sentido frontalmente oposto ao dos patrióticos insultos contra os alemães vencedores, comuns na Imprensa francesa daquele momento, Rimbaud enfrentou os valores imperialistas e da corrida militar entre as potências européias, salientando, em contrapartida, a estupidez daquela morte solitária, em meio à profusão de beleza, para sempre subtraída ao personagem .
    O encontro da feérica natureza, alegado corpo da nação, com um fruto da guerra, suposta luta pela nação, foi sintetizado no descarte de seres humanos. Ele configura um mundo onde a presença da pessoa consistia na localização de um cadáver na paisagem e a guerra nada mais era que produção desse adereço.
    Steve Murphy desdobra o soldado morto em soldado desconhecido morto e soldado desconhecido universal (não apenas francês) – associado, portando, a um “simbolismo republicano de aplicação universal”.
    Ao desmontar a guerra e a morte do soldado como lugares de uma memória grandiosa da nação, Rimbaud colocou em debate poético os significados da beleza no mundo da mercadoria, da violência cotidiana e da argumentação ideológica: uma versão instituída do belo dorme, está morta, e nada garante que o leitor a ela submetido se situe fora do mesmo quadro; para sair dessa condição, só a voz instituinte de outras belezas, sem pátrias, que encarem feiúras ocultas daquele mundo, pode oferecer alguma resposta. Quem a escutará, num mundo de dorminhocos?
    (Marcos Silva, Rimbaud, etc – História e Poesia)

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