Dos adesivos religiosos nos carros

Por Márcio de Lima Dantas

Se toda ausência é sintoma, imagine o que se pode dizer do excesso. Vejamos o caso de se atestar, nos dias de hoje, a profusão de adesivos com retratos de santos, versículos da bíblia, terços e dizeres de natureza religiosa.

Parece que a intenção dos adesivos é que funcionem como espécie de amuleto, afastando o mal ou protegendo o carro de uma batida, por exemplo. Acontece que deus nenhum protege o livre arbítrio de um imprudente ou de grande parte da população que conduz seu automóvel no trânsito sem pensar em quem se encontra nos quatros ângulos de visão, como é necessário, para que o fluxo escorra com harmonia, ritmo necessário à gramática de automóveis e pedestres nas ruas, calçadas e autopistas.

É óbvio que se pode identificar o segmento que prega nos seus carros esse tipo de besteira: uma parte dos católicos, um tanto de evangélicos e um muito dos neo-pentecostais. Enfim, os novos ricos, pois a classe média dos bairros elegantes não faz isso de jeito qualidade, não são nem tolos de macular seus belos ícones de status, adquiridos com enormes sacrifícios, renúncias no padrão alimentar e intermináveis anos de prestações.

Enfim, creio que não existe coisa mais desinteressante do que colocar adesivos evocativos do religioso no seu automóvel, até mesmo por que estão falando “do santo nome de Deus em vão” (não aprenderam nem os mandamentos fundamentais, prova de que não sabem nem o que estão praticando).

No fundo, todo esse apelo ao sagrado, para resolver coisas que nos competem – o respeito ao código de trânsito, as regras de convívio respeitoso e amável entre as pessoas, dirigir pensando no que está ao seu lado ou nos transeuntes –, só pode ser pensado a partir de um lugar no qual não existe o exercício da cidadania. A busca da proteção divina é diretamente proporcional à ausência de amparo por parte de uma sociedade baseada no direito e na justiça. Em suma, se apelam tanto para Deus em coisas que dizem respeito tão-somente ao cotidiano dos homens no convívio social, talvez seja motivado pelo fato de não se acreditar muito na justiça dos homens. Deus aí não passa de pura conveniência.

Tudo isso deixa claro a agonia das religiões cristãs, sobretudo a perda irreparável do rebanho católico, que fica pulando de galho em galho, a buscar guarida em outros apriscos (espiritismo, neo-pentecostalismo, budismo, Santo Daime). Penso que as palavras de ordem dos adesivos pregados nos carros é o exemplo eloquente de como se manifesta o comportamento religioso de grande parte da população brasileira, reputada mundialmente por professar ao mesmo tempo mais de uma religião, usando como defesa da sua confusão interior “que Deus é um só”.

Há que lembrar que até Deus pode um só ser, porém, as tradições e relações com o sagrado remetem a uma história especifica de uma crença, com um imaginário próprio, uma forma de representar mentalmente e rituais buscando a comunicação com o sagrado, elementos mais ou menos, digamos, “fixos”, que é, segundo o Dalai Lama, algo que pode causar confusão na cabeça, quando se fica “trocando de Deus”; melhor, quem sabe, incorporar, na sua religião, uma contribuição saudável de outra.

Por término, penso que muitos discursos advindos de algumas religiões encontram-se saturados, não mais condizentes com as novas formas de pensar, sentir e agir dos nossos dias. Os mitos também perfazem uma linha cronológica….

Professor do Departamento de Letras da UFRN

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