Dos Amantes

Cena da HQ inspirada em Asno de Ouro, de Apuleio

“Vênus, num terno enleio, o pescoço lhe cinge,
Unidos face a face, a formar um só corpo”
(William Shakespeare)

“A tudo vence o amor”, disse o poeta Virgilio nas Éclogas. O amor é o Amor. Tema permanente de inspiração para poetas, músicos e artistas. A razão de viver de homens e mulheres. Desde a primeira novela da literatura ocidental – o Asno de ouro-, do Apuleio, os amores e suas transgressões são relatadas em paginas antológicas. O homem-asno Lúcio queria ser convertido em coruja, mas é na pele de um Asno que ele sofre a traição da mulher. As histórias de um pobre marido enganado por sua mulher cujo amante se esconde num barril, e da moleira adúltera e de Filistero, inspiraram Bocaccio para escrever parte de seu Decameron. Peronella, de Nápoles, esposa de um pobre pedreiro faz o amante entrar todas as manhãs e fecha a porta de sua casa. Certo dia o marido a surpreende em ato de comunhão carnal. A mulher pede para o amante entrar num tonel. Resmungando da vida, reclama do marido. O marido diz que vendeu o tonel por cinco gigliats – Ela replica dizendo que tinha vendido por sete para o homem que estava dentro. O marido vai limpar o tonel todo sujo de borra. Ao entrar para dentro do tonel, Peronella olha para o seu interior e o amante “ como os cavalos selvagens e lascivos amorosamente assaltam as éguas de Pátria, saciou seu apetite juvenil”. Depois o amante paga os sete gigliats, mas o marido tem decência de levar o tonel até sua casa.
Variantes dessa história chegou até os dias de hoje na literatura de cordel e outras.

Ovídio (43 a.C. 18) escreveu um hino ao amor em “ O Ars Amandi” e ensinou como procurar e seduzir uma mulher; como conservar a mulher amada; e seduzir e conservar seu amado. Ovídio abraçou a carreira jurídica para obedecer seu pai que o queria senador. Deixou tudo em função das musas. Deixou também suas duas primeiras esposas para casar com uma matrona honesta que engordaria seu patrimônio. Em “A Arte de Amar” ele lembra que cada mulher deve se apresentar para o amor na posição que lhe é mais favorável, pois a mesma atitude e posição não convém a todas. O erotismo no império romano está bem documentado na obra de Suetônio “ Vida dos Doze Cézares. E no Satyricon, de Petrônio. Eucolpio, no Saricon, fracassa junto à bela Circe. Humilhado deixa a amada para ir ao encontro do seu querido Gitão. Também fracassa. O fantasma da impotência o atormenta. Procura uma feiticeira. “ Enotéia”tira um falo de couro, o qual unta com óleo, pimenta em pó e grãos de urtigas socados, e com pequeno movimentos começa a introduzir no traseiro de Eucolpio. Não agüentando mais o tratamento vai embora. Porém recuperou seu vigor e levanta a túnica para mostrar, o que os deuses, em sua bondade, lhe devolveram. Juvenal atacou as romanas com seus hábitos de Eunucos;

Certas jovens adoram eunucos não-masculinos – tão lisos,
Tão imberbes para beijar e sem preocupação com abortos!

Os amores fogosos de Propércio e Catulo pelas amadas Cíntia e Lésbia, ambas casadas, são narrados em páginas antológicas da literatura latina.

Difícil falar da literatura e de seus protagonistas sem falar dos amantes. É a eles que eu rendo homenagem nesse artigo que rememora alguns romances famosos. Vênus amou Marte. Ana Bolena mudou os rumos da história com seu casamento com Henrique VIII. Foi decapitada por traição em plena Torre de Londres. O poeta Alexander Pope não casou e se apaixonou pelas irmãs Martha e Tereza Blount, e teve um romance com a mulher de um diplomata.
Henry Frederick, Duque de Cumberland foi amante de uma senhora casada, Lady Grosvenor. O caso da mulher jovem, casada com um homem mais velho que tem uma amante mais jovem é clássico na literatura e na vida.
Emma Hamilton era casada com um homem mais velho William Hamilton e viveu um feliz menage-à- trois com o amante Lorde Nelson. Dividido, também, entre a guerra e a amante Josephine, viveu Napoleão. O Grande comandante francês teve outras amantes e Josefina nunca esqueceu o ex- marido. Todos esses romances renderam cartas de amor antológicas.Quem pode ser esse novo amante maravilhoso que absorve todos os seus instantes, tiraniza por inteiro teus dias e te impede de dar atenção a teu marido, escreveu Bonaparte para Josefina em 1796. Napoleão deixa a amante para desposar a arquiduquesa da Áustria, Maria Luísa.

O romancista da Comédía Humana manteve uma longa correspondência com a condessa Ewelina Hanska e casou com ela quando o marido faleceu. .
O grande escritor Victor Hugo casou com Adele que teve um caso com o crítico literário Saint Beuve, que teve um romance com a atriz Juliette Drouet .E assim acontece no mundo da literatura, das artes e da vida privada de pessoas comuns.
O grande poeta inglês Johs Keats morreu precocemente e teve muitos ciúmes da noiva Fanny Brawne – que findou casando com um comerciante abastardo-, pediu para escrever na lápide: “Aqui jaz alguém cujo nome foi gravado na água”.

O grande filósofo e historiador David Hume se apaixonou da dama parisiense Madame de Boufflers, amante do príncipe Conti. Quando o marido da Madame morre, Hume torna-se confidente dos amantes e escreve uma carta para a amada na condição de amigo que desejaria uma “vida de mútuas intimidades e cordialidade”.O autor de “ a vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy” teve um casamento infeliz com “uma mulher de grande integridade e muitas virtudes, que no entanto se projetam como farpas de um irascível porco-espinho”. A cantora Catherine Fourmantel esteve entre os muitos amores de Sterne. Para “ Kitty”, ele escreveu: … “ onde quer que esteja, meu coração se enche de ardor por ti e sempre o fará, até que esfrie para sempre”
Diderot também não foi feliz no casamento com a devota católica Antoinnete Chanpion, e teve um romance até a morte da amada Sophie Volland. Escreveu para Sophie valorizando suas qualidades: … um dos efeitos das boas qualidades é serem percebidas com mais intensidade a cada dia”.O poeta Carlos Drummond de Andrade teve uma namorada por trinta e seis anos e sobre esse amor maduro ele escreveu o belo poema Campo de Flores, do livro Claro Enigma.Deus me deu um amor no tempo da madureza

Quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme
Deus – ou foi o diabo- deu-me este amor maduro,
E a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que o amor já criou…

Para o escritor russo Leão Toltói, a pior tragédia é a da alcova. Da vida para as páginas escritas nas lapides, cartas, poemas e romances os amantes são agentes inspiradores que fazem pulsar e doer a vida.

Oscar Wilde foi preso por seu romance com Lorde Alfred Douglas, escreveu várias cartas para Alfred e um dos mais belos libelos de amor da literatura “De Profundis”.
Um dos maiores romancistas da literatura mundial Gustav Flaubert teve um caso de amor com a escritora Louis Colet e deixou uma rica correspondência para a amada que faz parte da historia da literatura e diz muito da gênese do grande romance Madame Bovary. Nesse livro, o escritor francês Gustave Flaubert (1821- 1880) narra a história trágica de uma mulher Emma Bovary que se entedia com a vida e com o casamento sem amor. Charles, além de ser mais velho, é bem metódico. À medida que cresce a intimidade de suas vidas um crescente desapego distancia Emma do marido, pois as conversas dele eram “planas como o chão”. Sentindo um claro desprezo por seu marido, Emma passa a ter romances fora do casamento e fazer grandes gastos com a compra de roupas pessoais e presentes para os namorados.
Molly Bloom é a mulher de Leopold no romance Ulisses de James Joyce. As quatro horas da tarde está traindo o marido Leopold vagueia pela cidade durante todo o dia 16 de junho e ouve o som de um relógio cuco lembrando de sua condição de corno Cuco. Cukoo. Cucckoldddddl. Madame de La Fayette escreveu no século XVII um dos mais belos livros de amor da literatura romântica. A história da bela Princesa de Clèves que se casa com um homem que respeita mas não ama, apaixona-se numa trágica história de amor pelo príncipe de Nemours.

Entre bovinos, asnos e chifrudos ou simplesmente humanos, os homens e mulheres continuam amando e traindo. No célebre romance Dom Casmurro de Machado de Assis fica a dúvida se Capitu traiu Bentinho. Nem sempre a honra, a família, a segurança estão do lado do amor. Muitas vezes um lado é sacrificado para que o outro respire e viva. O coração tem seus segredos e quase sempre é machucado por erros e ignorâncias próprias da imperfeição do homem. O homem do século XXI continua sofrendo, amando e cometendo os mesmos erros e acertos de séculos antes de cristo.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

6 + dois =

ao topo