Dos órgãos para os dedos

White painted plastic animals

Por Andréa del Fuego
BLOG DA COMPANHIA

“O corpo é o primeiro a saber”, escreveu o teólogo francês Jean Leloup. Nasci com um olho de cada cor, um é escuro, o outro fica mais claro na presença do sol. O escuro tem estrias que uma iridóloga diagnosticou como marcas de doenças infantis, coqueluche, por exemplo. Tive das feias, com visita de parentes sobre meu corpo curvado em tosse, só amenizada por um benzedor que colocou um copo sobre minha cabeça, a voz grossa e velha repetindo um Maria olhe por nós. Quem estava presente jura que da água saíram bolhas, minha doença ferveu o copo, dali a água foi jogada ao pé de uma roseira, onde também ficava o cocô dos gatos. Dia seguinte eu estava no colo da minha avó comendo pamonha com banha de porco, aquele sol clareando um olho só. Corta para o fim da adolescência. Já casada com o fotógrafo André de Toledo Sader, fomos com sua mãe geógrafa para as terras de Guimarães Rosa. Um ônibus que saiu da universidade lotado de senhoras leitoras vindas da antropologia, da economia, do cinema, entre elas Bernadette Lyra, escritora capixaba (é dela Tormentos ocasionais, publicado pela Companhia das Letras). Lá pelas tantas, saindo da cidade Morro da Garça, local onde se passa o conto “Recado do Morro”, alguém resolve sortear camisetas com o logo da cidade que a prefeitura havia dado de presente aos viajantes. Bernadette pediu meu nome, sei lá que troço me deu, resolvi dizer ele inteiro: Andréa Fátima dos Santos, claro que não me chamo Andréa del Fuego. Bernadette passou mal e, com o ônibus sacolejando sobre um talco vermelho, ela me entregou uma moeda dobrada ao meio. A moeda havia sido entregue a ela pelo mágico Thomaz Green Morton na ocasião da morte da neta, com a qual eu teria uma relação revelada em sonho: vó, agora sou Andréa Fátima, entregue essa moeda para ela. Corta para depois de muita interpretação e digestão. Bernadette é minha avó cósmica, um conectivo que a lógica reconhece como ligação entre sentenças. As sentenças: um nome e uma moeda. Nada fora do real, nem para lá, nem para mais longe, é tudo aqui mesmo, mas também ninguém é louco de achar que o que surge aos olhos tem sua origem na retina. Volta para a infância. Minha mãe adorava dizer os sonhos que tinha, num deles a nossa sala era um aquário, nós nadávamos e éramos vermelhos, a janela ficava aberta e nem por isso fugíamos. Corta para os vinte e tantos anos. Com a morte de minha avó materna resolvo escrever sobre a origem da minha família. O ponto de partida é recente, pois se desconhece o que veio antes. Meus bisavós foram eletrocutados por um raio, Minas Gerais é um dos lugares com maior incidência de raios do mundo, veja o ranking no INPE. A partir daí meu avô fica órfão e meu tio-avô virou anão por conta dessa luz fulminante, esse pequeno senhor foi o parteiro da minha avó, minha mãe chegou ao mundo num par de mãos infantis. Corta para os trinta anos. Inicio uma graduação de Filosofia, comecei na PUC e me transferi para USP, a faculdade estava cara, mas consegui pagá-la com a bolsa que ganhei da Petrobrás para escrever As miniaturas. Foi naquele convento puquiano que a professora chilena Yolanda Gloria Gamboa apresentou-me um grego do século II que interpretava sonhos. Ele escreveu um manual para enfrentar opositores e ensinar a arte da onirocrítica ao filho. O manual se chama Sobre a interpretação dos sonhos e teria sido referência para Freud tantos séculos depois. Meu segundo romance, As miniaturas, é dedicado ao Artemidoro, foi ali que surgiu. Tive um filho, ele se chama Francisco José, esse José por sugestão de Pílar del Rio, viúva do Nobel, com barrigão estourando fui recebida por ela na cerimônia do Prêmio José Saramago. Fui corpo para o primeiro que rasgou a mãe, como diz Raduan Nassar em Lavoura arcaica. Publico há nove anos, todos os livros, incluindo contos e juvenis, surgiram de impactos no meu corpo, que é o primeiro a saber, também o primeiro a escrever. Desde a coqueluche, tento costurar as camadas que surgem e vão embora, os humores negros e transparentes que os órgãos jogam para os dedos.

* * * * *

 Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. Escritora e jornalista, publicou os volumes de contos Minto enquanto posso (O Nome da Rosa, 2004), Engano seu (O Nome da Rosa, 2007) e Nego fogo (Dulcinéia Catadora, 2009), além de diversos livros juvenis e infantis. Seu primeiro romance, Os malaquias (Língua Geral, 2010), foi ganhador do Prêmio Saramago de literatura.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezenove + 3 =

ao topo