‘DoSol 10 anos de música’ e um recorte da história da música independente de Natal

A história dos 10 anos do Dosol me surpreendeu. Nem tanto pela trajetória alicerçada no sonho de um jovem roqueiro desejoso de viver da música. Não. Esse trecho, para quem conhece o mínimo de Anderson Foca e sua luta abnegada em se manter na vanguarda dos acontecimentos do universo indie musical, encontra apenas recortes do tempo mais detalhados. Surpresa mesmo, pelo menos para este blogueiro dos tempos do blackout, está na leveza e na linguagem direta do relato.

untitled‘DoSol 10 anos de música’, lançado há poucos meses pela editora Jovens Escribas (selo Bons Costumes), traz não apenas a história do combo DoSol, mas muito da história musical de Natal a partir de 1997, quando Foca integrou a banda grunge Ravengar e, logo após, seguindo a tendência da época, a banda de pop-rock Officina. É também um senhor registro de uma história que merece ser lida e aplaudida, pelo natalense e pelos amantes da música independente. Para ser clichê, é a história de um sonho que virou realidade.

Com alguns hiatos, acompanhei a história de Foca. Frequentei o Blackout nos tempos da Officina, ‘Inácio’, Boca de Sino e Mad Dogs. Lembro do Casarão, mas não lembro do Ravengar. Tinha meus 19 ou 20 e poucos. Não gostava do Officina. Achava pop demais. Talvez hoje gostasse mais. E achava Foca meio amostrado. Ainda assim, acompanhei a trajetória do Officina. Até fui para um dos três lançamentos de disco autoral deles. Mais pela festa do que pelo disco.

Anos depois, lá estava eu no jornalismo. Embora o ingresso na editoria de Cidades, sempre houve a paquera com a Cultura. Estava sempre “ligado” na cena. Já não havia o Blackout ou a “minha” Ribeira do Bar do Reggae. Mas começava o DoSol. Ou despontava, melhor dizendo. E achava massa aquele instinto de sobrevivência à decadência do Largo. Percebi mais claramente que Foca era mais do que o Officina. Já no jornalismo cultural, era de praxe vê-lo em reuniões do setor de música, sempre engajado.

Foca é um cara que procurou e achou. Ele é o pós-Ubarana. É o cara que movimentou e movimenta uma cena musical importantíssima e pouco reverenciada; pelo menos hoje. Desnecessário lembrar: Natal é modista ao extremo. Mas o livro traz esse registro às gerações futuras. Muitos podem julgar suspeito tal relato, já que autobiográfico. Mas se der um desconto de 20%, os 80% restantes ainda valem muito. Foca continua meio amostrado, nos seus quarentinha. Mas o cara ainda guarda a aura do Ravengar, ainda é DoSol, ainda é Ribeira. Merece destaque na calçada da música potiguar.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Anderson Foca 11 de fevereiro de 2015 7:28

    O Dosol é muito reverenciado, mais do que a gente merece. É só atravessar a fronteira do estado para ver. Aqui dentro? Bem moramos aqui né? Geral já se acostumou com a nossa presença, já fazemos parte do cotidiano das pessoas e elas sabem que a gente existe, não é necessária nenhuma reverência. Ser parte da cidade já diz tudo.

    • Sergio Vilar 11 de fevereiro de 2015 9:14

      Foa, pois acho que só poderia ser você a escrever. E muito bem escrito. Linguagem direta, sem rodeios e com os detalhes que você conhece e soube transcrever. E discordo também quanto à reverência do Dosol. Talvez seja mais reconhecido fora. Aqui dentro tem seu prestígio, mas acho que merecia mais, sim. Não vejo precedentes nem nada parecido na cena atual. Então, tem que ser amostrado mesmo! hehe

  2. Anderson Foca 11 de fevereiro de 2015 7:25

    Eu dei o conteúdo do livro do Dosol para pelo menos cinco pessoas diferentes escreverem mas ninguém finalizou o projeto, como sempre, ou eu fazia com Ana Morena o trabalho ou ele não ia sair. Mas eu não queria ter escrito e não gostei da experiência de escrever, por hora, deve ser minha primeira e última ida a mundo da literatura.

    Ser "amostrado" é uma necessidade. Se fazendo bastante barulho com os nossos feitos as coisas já são dificílimas, imagina se eu ficasse calado? Basta contar quantas bandas de rock (o estilo de música que mais exporta a música do RN na atualidade) na programação do carnaval multicultural…

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