Doze de maio, algodão e sal

Fica decretado que, a partir de hoje,
No país não há mais crise.
É preciso que as ruas silenciem
Que as pedras não chorem
Que o gigante continue a dormir
Em seu berço esplêndido,
Onde, agora, haverá ordem,
Ordem e progrEsso.
O shell da liberdade brilhará
Mais uma vez sobre a casa-grande.
E essa liberdade, quando abre as asas sobre nós,
É só pena que voa!
Bendito (?) seja o país que volta
Ao café com leite de cada dia.
De outro modo, que não silenciem as saudades dos
Governos de algodão e sal.
Pois urge que se construa o tempo
De se plantar novas safras
Do algodão da esperança
Que o bicudo levou.
Que não seja de lama o mar que nos banha.
E que o sal da dignidade nos tempere
De ânimo para a longa luta que se desenha no ar.
Algodão e sal, dois símbolos que restam
Na memória de um país onde o rei está nu
E o alimento que nos empurram goela abaixo
É amargo e, ao mesmo tempo, insípido, insosso, indigno e sem sal.
Do outro lado que não é esse lado também se decreta
Que a partir desta data fica proibido todo
O sonho, toda poesia, toda arte e, principalmente,
Decreta-se que a cultura, feito ave,
Será depenada, desterrada, sem asa, sem voo, sem nada.
Fica assim decretado.
Por outro lado, existe sempre um lado que é o avesso
De todos os lados.
Mas isso já seria um decreto
De todos aqueles que ficam calados.

(José de Castro)

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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