Drama e Tragédia

NO NOVO JORNAL

Na mais recente visita a Natal, chope com Décio Holanda e ida ao Azulão. Lá, o prazer de encontrar Juliano Siqueira e Racine Santos.

Depois, o Bar de Lourival. Esse é que fazia tempo. Ainda eram vivos o velho Lôro, seu filho Luciano e outros que já se foram. Encontrei Nicodemos, meu conterrâneo de Viçosa, a cara esculpida daquele bar. E olhando pra ele vejo o Prof. Melquíades a exclamar sobre tudo: “Pôxa vida, Nicodemos”!

Conversa de bar; definições, reflexões aos brados. A Inteligência ímpar de Juliano, a rouquidão teatral e sonetista de Racine. Duas figuras a quem deve muito a Cidade. Se bem que não é uma terra muito chegada ao reconhecimento. Pelo contrário, tem uma dificuldade enorme na edificação e uma compulsão quase orgástica no achincalhe. Mas é da sua natureza, nada há que se possa fazer para mudar. E mesmo que se mude tudo será pra que fique tudo do mesmo jeito, como na lição do “Leopardo” de Lampeduza.

Assim mesmo adorada pelas duas geografias: a de pedra, água e sal e a de carne e osso.

Pois bem. Cumprimentos de conhecidos; uns pela cara, outros pela voz. Nos bares todos são amigos. Até os inimigos. Ou melhor, nem há inimigos. Quando muito, intrigados. Serejo costumava dizer: “O bar de Lourival é um perigo”! Qual não é? Quem sai primeiro, deixa desprevenida a imagem diante do apetite da ausência.

No Azulão, esperto só sai por último. São os prevenidos. Castilho parece ser o ausente despreocupado. Autodenominado Diana, a pastora das duas cores, ele se julga livre das “línguas azuis”.

Os bares preservam a presença. Coisa que a internet acabou. A amizade virtual tem gosto de gelo. Chico Buarque descobre não ser tão amado quanto pensava.

Uma das discussões foi sobre a distinção entre Drama e Tragédia.

Aqui exponho minha distinção. Ou pelo menos a distinção que devo ter aprendido dos outros ao longo do tempo e incorporei como se minha fosse. Não é uma conceituação dos dicionários nem da consolidação vernacular.

Tragédia e drama não se distinguem pela intensidade ou brutalidade contida no ato. A tragédia diz respeito ao evento dramático que atinge pessoas de expressão social ou política, de tal modo que o acontecimento gera alterações na vida da sociedade. O drama é o trágico que só alcança a fronteira familiar ou a vizinhança. Seus efeitos não abalam a ordem política. Mesmo que seja mais terrível do que o evento da tragédia.

Na sabedoria popular dos circos, não havia tragédia. O palhaço anunciava pelas ruas: “Hoje tem drama. Amanhã tem comédia”.

No próximo texto vou tratar de Antígona. A tragédia que influenciou o Direito e a filosofia. A beleza libertária do direito natural, aquele que o poder nunca alcança impunemente. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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