drops anti-eleitoral

Hermano está apelando à família cristã e aos malditos pastores-políticos ao afirmar disjunções entre a lei de Deus (alok) e as propostas de seu adversário, Carlos Eduardo, que, por sua vez, ainda no primeiro turno, para não ficar mal na foto, renegou seu projeto “emancipatório” da diversidade sexual e de gênero e chegou a ser fotografado de joelhos feito um babaca diante de um bispo pedindo perdão pelo pecado de ter incluido em seu plano de governo propostas favoráveis à “agenda gay” e à legalização do aborto¹. Nem Fernando Mineiro, a alternativa (pop) da (pseudo)esquerda (sub)intelectualizada e classe média, quis incluir esses temas em sua campanha, passando ao largo de qualquer polêmica nesse sentido. Isso me fez lembrar da resposta que Judith Butler, em entrevista concedida ao Estadão², deu à pergunta sobre a representatividade LGBT em relação aos partidos brasileiros: “Não conheço em profundidade a situação no Brasil, mas está claro que diversos partidos vivem a contradição de ostentar oficialmente políticas de combate à homofobia, num quadro mais amplo de defesa dos direitos humanos, mas, ao mesmo tempo, solapá-las na tentativa de manter o apelo a eleitores religiosos ou conservadores. É uma forma de hipocrisia que acaba por minar as políticas antidiscriminatórias, fazendo delas mero jogo de aparências.” Lembrei, nessa esteira, de quando Wilma de Faria (candidata a vice-prefeita na chapa de Carlos Eduardo) expunha sapatões em alusão à sua adversária, Fátima Bezerra (que agora apóia a ela e a Carlos Eduardo na campanha “Vote 12 pensando 13”), que, por sua vez, omitiu-se o mais que pode diante da violência da adversária em favor da respeitabilidade de sua “imagem” (reificando a ideologia segundo a qual mulheres lésbicas não são dignas de respeito). Se por um lado, a heteronorma da qual a campanha de Wilma se valia diz de uma escrotice eleitoreira sem precedentes; por outro, a omissão de Fátima afirma e sacraliza o lugar subalterno no qual as campanhas políticas como tecnologia de gênero procuram enredar o desviante. Do mesmo modo: se o apelo de Hermano às “forças divinas” configura um disparate homofóbico e retrógrado, que ataca as liberdades existenciais e a (pretendida – ao menos constitucionalmente) laicidade do Estado, a omissão de Carlos Eduardo – tanto no episódio anteriormente citado, quanto agora, ao não questionar publicamente o envolvimento de líderes religiosos em campanhas políticas – nos diz que não há alternativa, que estamos dançando num pátio estéril. No fim das contas, o homofóbico que se afirma e aquele que se omite brindam tacitamente, e a política do democracídio representativo continua a consagrar sujeitos estáveis, higiênicos e perfectíveis para o exercício da administração pública. Afinal, numa política da qual o pensamento se apartou, não havendo idéias em jogo, mas somente santinhos, a potência da diferença em debate é neutralizada. O que há é o macho-adulto-branco sujo falando do macho-adulto-branco mal-lavado e tentando dissimular sua própria sujeira. Ganha aquele que conseguir parecer ser menos-pior.

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Depois de discutir as falsas polêmicas marketeiras dos tempos de eleição, nas quais a problemática da diversidade sexual e de gênero aparece – para usar as palavras de Butler – como “mero jogo de aparências”, compartilho com vocês este texto de Zoe Leonard³, garimpado da torrente facebookiana e traduzido, a pedido meu e meio nas pressas, pelo mesmo amigo responsável pelo achado:

“Eu quero uma presidente sapatão. Eu quero alguém com Aids para presidente e quero uma bicha para vice-presidente e quero alguém sem plano de saúde e quero alguém que cresceu num lugar onde a terra esteja tão contaminada com lixo tóxico que não tenha tido opção senão ter leucemia. Eu quero uma presidente que tenha feito um aborto aos 16 anos e quero um candidato que não seja o mal menor e eu quero um presidente que tenha perdido o último dos seus amantes para a AIDS, que ainda o veja cada vez que fecha os olhos para descansar, que teve nos seus braços a pessoa amada sabendo que ela iria morrer. Quero um presidente sem ar condicionado, que tenha estado numa fila de hospital, na fila do DETRAN, na assistente social e tenha estado desempregado e tenha sido demitido e que tenha sofrido assédio sexual e tenha sido vítima de crime homofóbico e tenha sido deportado. Quero alguém que tenha passado uma noite na cadeia, que tenha tido uma cruz queimada no seu quintal e tenha sobrevivido a um estupro. Quero alguém que tenha estado apaixonado e que sofreu por amor, que respeita o sexo, que tenha cometido erros e aprendido com eles. Quero uma mulher negra para presidente. Quero alguém com dentes ruins (e atitude), alguém que tenha comido (aquela horrível) comida de hospital, alguém que se traveste e que tenha usado drogas e feito terapia. Eu quero alguém que tenha cometido desobediência civil. E quero saber por que é que isto não é possível. Eu quero saber quando é que começamos a acreditar que um presidente tem de ser sempre um palhaço: sempre um cliente e nunca uma puta. Sempre chefe e nunca trabalhador, um mentiroso, um ladrão que sai sempre impune.” [Eu quero um presidente…, Zoe Leonard, 1992, trad. Yuri Kotke]

p.s.: BARTLEBY PARA PRESIDENTE!

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¹ Convém lembrar: http://jornaldehoje.com.br/natal-o-bispo-e-o-candidato-a-prefeito-alipio-de-sousa-filho-professor-de-sociologia-da-ufrn-alipioufrnet-br/
² Política da Ambiguidade: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,politica-da-ambiguidade,948742,0.htm
³ Aqui, no original: http://iwantapresident.wordpress.com/i-want-a-president-zoe-leonard-1992/

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