Drummond e João Cabral

Por Affonso Romano de Sant’anna
ESTADÃO

Amistosos no princípio, Drummond e João Cabral de Melo Neto afastaram-se e se atacaram veladamente, reafirmando a tese dos “parricídios” e “fratricídios” literários

Não é novidade a presença ostensiva de Carlos Drummond de Andrade nas obras iniciais de João Cabral de Melo Neto. Já no primeiro livro de Cabral O Engenheiro (1942-1945) há essa dedicatória: “A Carlos Drummond de Andrade, meu amigo”. E neste livro há ainda um poema que Cabral enviou a: “A Carlos Drummond de Andrade, à sua maneira”. As primeiras publicações do poeta pernambucano ressoam até parafrasicamente o mineiro, como Os Três Mal-Amados (1943) feito a partir de Quadrilha (1930). Não bastasse, o poeta mineiro foi até padrinho de casamento de Cabral. E Cabral, que no princípio de sua carreira escrevia regularmente a Drummond , reconheceu numa carta que “caceteava diariamente por telefone” seu colega, a quem pedia orientação até mesmo em relação a emprego. É uma relação delicada. Numa carta a Bandeira (4/9/47), Cabral diz que Drummond “encolheu-se e não me disse nada”. Noutra, sem data, comenta com Bandeira: “E o Carlos Drummond, depois de mais de um ano de minha saída do Rio, nunca encontrou um minuto para me responder. Confesso que este procedimento, da parte dele, que sempre tive por meu amigo, me espanta. Só uma razão posso dar: alguma intriga. Mas quem teria interesse nisso?”

A rigor, as cartas de Cabral são sempre maiores e generosas, as de Drummond mais parcas, às vezes de uma ou duas linhas. Diz secamente quando JCMN lhe manda aquela variação em torno do seu Quadrilha: “Acho que deve continuar”. E se pegarmos a correspondência de Cabral com Manuel Bandeira, veremos um contraste. Com Bandeira, pernambucano como Cabral, existe expansão, confraternização, cumplicidade. Bandeira hora nenhuma está traçando o controle de seu território, como acontece com Drummond, sempre cioso, defendido e estranho no seu canto “gauche”. E essa diferença se torna ainda mais interessante se considerarmos que a poesia de Bandeira é bem diferente da de Drummond. Ao contrário, tem muitas das características que desagradariam à estética severina de Cabral.

Por isso, é de se notar que nas últimas cartas trocadas entre Cabral e Drummond, embora reafirmem a mútua admiração e a amizade, há também sempre uma necessidade de explicação de por que não se escrevem. Drummond se confessa “aparentemente infiel amigo” e tenta se desculpar: “sabe que em matéria de correspondência eu sou como a mula velha e incorrigível”. E Cabral responde: “v. não vai pensar que o meu silêncio é represália ao seu”. Neste caso, a falta fala mais do que a presença.

O fato é que se nunca houve uma real proximidade, aos poucos se afastaram mais. Há uma divergência crescente entre ambos (apesar de toda a cortesia) que vai se tornando mais nítida entre 1947 e 1952.

Um pai complicado

A conferência Poesia e Composição: A Inspiração e o Trabalho em Arte, que Cabral pronunciou em 1952 na Biblioteca Pública de São Paulo, vai distanciá-lo do modelo drummoniano. No seu subtexto já se nota algo edipianamente familiar – a negação do pai, a tentativa de criar outra família. No seu texto, Cabral não se refere a nenhum poeta brasileiro. E a ausência de nomes nacionais presentifica outra estratégia de escrita. Ele está “denegando” as marcas e origens e se preparando para fundar um espaço próprio. Ou como ele mesmo vai dizer naquela conferência: “o que se espera do poeta hoje, é que se pareça a ninguém, que contribua com uma expressão pessoal”. Portanto, ele se dispõe a se recriar e criar uma linhagem.

Tomemos um texto pouco conhecido de Drummond, mesmo porque ele o publicou com pseudônimo em 1948 quando Cabral estava já tomando um rumo divergente do seu na poesia. Drummond amava esses disfarces. Desde os primeiros escritos no Diário de Minas, na década de 20 do século passado ele praticava esse revezamento de máscaras literárias. Fernando Py, aliás, já estudou com acuidade como Drummond, numa versão mineira/brasileira de Fernando Pessoa, usou cerca de 60 pseudônimos.

Pois bem. A máscara literária que Drummond vai usar para externar o que pensa sobre um livro de Cabral é Policarpo Quaresma Neto, e foi publicada em 1948. Aí, sob o sintomático pseudônimo extraído do personagem de Lima Barreto, percebem-se as intenções do oculto signatário. Drummond diz realmente o que pensa sobre a poesia de JCMN, vendo seus defeitos e virtudes em Um Poeta Hermético:

“Dando ao seu caderno de poemas o título rebarbativo de Psicologia da Composição (O Livro Inconsútil, Barcelona, 1947), o sr. João Cabral de Melo Neto afasta desde logo, dentre os leitores, aqueles que amam a poesia em estado de facilidade. Para os que restarem, o livro todo será íntimo, confessional. O objetivo do poeta é acertar um: ‘tiro nas lebres de vidro/ do invisível’. Ou então: ‘cultivar o deserto/como um pomar às avessas’.

Excluído todo elemento sensual, proscrita a emotividade romântica, resta dominar ‘a fria natureza da palavra escrita’ – e o sr. Cabral o consegue as mais das vezes.

Esse jogo, com seus encantos, tem seus riscos. A mineralidade específica dessa poesia ataca o autor, em certos passos, e ei-lo rígido, incomunicável. Repelindo as pompas e louçainhas do adjetivo, atém-se ao recurso elementar da comparação (há uma floresta de como, no livro). E desinteressado de música, tomba na cacofonia. Mas seus achados não lembram os de nenhum poeta brasileiro e são de uma potência extraordinária: ‘nuvens/ trazendo no bojo/ as gordas estações’. Eu este:

‘o sol do deserto/não choca os velhos/ovos do mistério’.

Na Fábula de Anfion, inspira-se menos no mito original grego do que na sua interpretação por Valéry. Sem embargo, o tema lhe é próprio, constituindo variação do seu anterior Engenheiro.

O pobre hermetismo de nossos velhos e jovens poetas esfarinha-se diante do mistério que reside no âmago dessa difícil e admirável poesia. Edição raríssima: está à disposição do seu dono, na redação deste suplemento, o exemplar com dedicatória, que tivemos a fortuna de achar num lotação de Copacabana.”

É um texto crítico. Sincero. Cruel. E é, ao que parece, do mesmo ano em que Cabral diz a Bandeira que Drummond sumiu, não escreve e que só pode ser intriga de alguém. A radiografia da poética cabralina é perfeita. Até nos elogios. Mas revela que é “rebarbativo”, que usa muito “como”, ressalta a frieza, a incomunicabilidade, localiza as fontes de Cabral e comete aquela maldade final ao dizer que o livro, com dedicatória, foi achado “num lotação de Copacabana”.

A crônica literária da época não conseguiu revelar quem era esse Policarpo. Num texto de 1948, que parece ter sido escrito pelo próprio Drummond, diz-se que Policarpo se retirou para Buenos Aires, mas voltará a qualquer hora. E, artimanhosamente, refuta as hipóteses de que o autor possa ser Brito Broca, o próprio Drummond, Raimundo Magalhães Jr. e Marques Rebelo. Observe-se: ao inscrever-se entre os suspeitos, CDA talvez pensasse apagar as pistas.

Duas famílias em conflito

Por outro lado, seria de se esperar que mais cedo ou mais tarde, Cabral daria algum troco ou aprofundaria mais o distanciamento poético entre ambos. Em uma entrevista concedida “familiarmente” à sua esposa Marly de Oliveira à revista Diálogo, Cabral diz: “O Carlos Drummond de Andrade, no princípio de sua carreira literária, a gente sentia que ele tinha uma falta de ser. Depois, ele leu Neruda e desbocou-se, por assim dizer, soltou a língua”. Esse “desbocou-se” evidentemente não é elogio.

Essa questão aparece teorizada na conferência que Cabral fez em 1952, quando disse que há “duas famílias” de poetas: os que, como ele, se consagram ao “trabalho” e os outros, que exprimem “emoções”. Essa divisão dos poetas em duas famílias, sobre ser perigosa teoricamente, é redutora de algo bem complexo na história da literatura. Não existem apenas duas famílias que se opõem. Mais que famílias, há clãs e dinastias, isto sem falar nos filhos renegados, nos filhos pródigos e nos agregados.

Entre os poetas, a luta pela “herança” dos “pais e avós” é ferrenha. Alguns autores têm um comportamento que interessaria aos estudos antropológicos: carregam totemicamente o crânio ou o osso de um poeta antepassado como relíquia a ser reverenciada. Como mostrou Lipking ao analisar como se constituem as famílias poéticas, muitos voltam à sepultura de seus preferidos não só para reverenciá-los, mas para se alimentar canibalmente de suas obras. A teoria do canibalismo usada devidamente, nos levaria a constatar como se dá a “devoração” e/ou “exumacão” artística.

Na verdade, mais do que famílias, há tribos literárias, com tudo o que isto implica de violência e luta pela sobrevivência. E quando um dia se aplicar devidamente modelos da vida animal para se entender os clãs artísticos, veremos que há “comensais” e “predadores” na sistema artístico. Como lembra Lipking, no sistema literário (antropologicamente) existem três momentos na metamorfose do poeta e sua obra: o momento da iniciação, o momento da maturidade e o momento em que deixa o seu legado à nova geração.

Por isto, pode-se dizer que há conflitos parricidas e fraticidas dentro da literatura. Numa conferência apresentada em Rapallo, Italia (2004)(Competitividade e Agressividade), tratei deste tema desconstruindo a falsa versão de que artistas são uma confraria de anjos. Há no espaço artístico, aquilo que há mais de quarenta anos tenho chamado de “luta pelo poder literário”. Uma das manifestações mais sutis e alcandoradas disto está numa reminiscência monárquica ( e redutora), que faz com que se pense que um poeta esteja passando o cetro a um outro. Lembrança seródia, talvez, da síndrome do “príncipe dos poetas” ou do “poeta da corte” como era antigamente. Deve ser por isto que alguns ingenuamente postularam para Cabral o lugar que era ocupado por seu “pai literário” – Carlos Drummond de Andrade.

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA É ESCRITOR, AUTOR, DE DRUMMOND: O GAUCHE NO TEMPO (RECORD), ENTRE OUTROS LIVROS

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