E afinal, você é boa em quê?

Em conversa com uma amiga, surgiu um debate bem interessante. Ela afirmava que sou do tipo de pessoa que faz muitas coisas ao mesmo tempo, e acaba por não ser boa em nenhuma delas. Bem isso. Tenho amigas bem sinceras e acho isso indispensável para uma amizade saudável. Tudo que ouço me provoca reflexões. Não costumo me fechar em uma verdade absoluta, porque acredito que uma visão externa pode, em alguns momentos, nos ajudar a ver com clareza o que não podemos ou não queremos ver por conta própria.

A questão é que não podemos deixar de lado o fato de que somos atravessades por influências sociais, econômicas e culturais. A maneira como pensamos a outridade não é neutra e essa influência pode trazer benefícios ou prejuízos a nossa avaliação. É isso que chamamos de preconceito. O fato é que entrei em uma crise existencial: afinal, eu sou boa em quê mesmo?

Como eu já disse em crônicas anteriores, eu tive vários acessos ao longo da minha vida. Minha mãe, uma mulher apaixonada pela cultura cigana, despertou em mim o desejo de aprender a dança e a fazer leitura das cartas. Anos depois, aprendi também dança do ventre, atividade que me dediquei por longos anos até forçar os joelhos (por insistir em exercícios errados) e não poder mais dançar como gostaria.

Também estudei inglês por vários anos, tive um professor particular de violão, estudei música na Escola de Música da UFRN e me formei em Pedagogia. Lá, era bolsista na base de pesquisa de Formação de Professores, enquanto fazia pesquisas clandestinas sobre literatura infantil (ocidental). Nessa época conheci o professor Adriano Gomes, com quem aprendi muita coisa sobre contação de histórias com nosso grupo Akpalô, formado no mesmo período. A partir daí foram inúmeras formações e apresentações em curso.

Por indicação dele e a convite de Erileide Castro (que infelizmente nos deixou este ano, vitimada pela covid-19), participei durante anos do PROLER-RN – um programa de incentivo à leitura. Viajávamos para várias cidades do Estado ministrando oficinas. Eu ministrava oficinas de contação de histórias – dentre elas, contos árabes –, mesclando literatura e dança do ventre.

Em 2004 assumi uma turma de Educação Básica na Rede Municipal de Ensino de Natal, na condição de servidora pública, mas já ensinava na rede privada desde 2000. Entre salas de aula, Coordenação, turmas de Ensino Fundamental, Alfabetização e EJA, sempre envolvia a contação de histórias, a música e formação do leitor no processo. Também ministrei aulas em universidades particulares, o que foi um aprendizado e tanto.

Sempre fui uma leitora voraz, mas quando me descobri negra, passei a devorar uma média de quatro a cinco livros sobre racismo, negritude e saberes ancestrais por mês. Escrevendo textões nas redes sociais, recebi o convite do querido jornalista Cefas Carvalho para assumir uma coluna no Jornal Potiguar Notícias, tornando-me a primeira, e até agora a única, colunista negra do RN. Através deste veículo, fui descoberta pela escritora Ana Cláudia Trigueiro, que me sugeriu, mediante a qualidade das minhas crônicas, escrever também contos.

Obtendo sucesso nesta empreitada, fui recomendada a Cleudvan Jânio, dono da Editora CJA-RN, o que possibilitou a publicação de dois livros; um de crônicas e um de contos, que estão para sair ainda este ano. Também sou a primeira escritora negra do RN a publicar um livro por uma editora. Como se não bastasse, ainda fui indicada para a União Brasileira de Escritores do Rio Grande do Norte (UBE-RN), assumindo novamente o pioneirismo como a primeira mulher negra do RN a compor este grupo.

Unindo técnicas de voz advindas da contação de história e o conteúdo acumulado pelas leituras, adentrei no mundo de lives. Porém, antes da pandemia, já realizava palestras em escolas e albergues com pessoas em situação de rua.

Não, não vou fazer uso da falsa modéstia. Pessoas negras lutam demais para conquistar uma autoestima elevada. Eu demorei para me reconhecer como intelectual, artista e militante. Hoje sou múltipla. Não posso me fechar em funções limitantes. Sou leonina com ascendente em aquário. Eu estou no futuro! Tenho me dedicado a fazer bem feito tudo o que faço. Sigo sendo responsável com minha missão ancestral. Honro com meu orí. Não me peçam para escolher. Não posso. É essa sede por conhecimento que faz de mim quem eu sou.

Finalizo dizendo: se você cruzou comigo recentemente em algum curso, não me subestime. Não pense que comecei agora. Respeite meus cabelos brancos! Minha trajetória é longa, mas sigo aprendendo, afinal, quem acha que já sabe tudo, morreu e não sabe.

Africana em diáspora, educadora, escritora e pesquisadora. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anajara Tavares 13 de julho de 2021 16:15

    Muito obrigada por compartilhar a sua experiência inspiradora na busca de seu melhor. Parabéns querida! Cada um sabe de si, e como vc bem disse: Quem acha que sabe tudo, já morreu. Somos seres multipotentes.

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