E agora, liberdade artística, a festa acabou?

O contexto é ainda de perplexidade para nós artistas, com o fantasma da volta da censura. Após o período da ditadura militar, em que os criadores precisavam muitas vezes burlar o Serviço de Censura e Diversões Públicas (depois rebatizado como Divisão de Censura de Diversões Públicas – DCDP) para poder tornar públicas as suas obras, tivemos uma época de liberdade para criar e divulgar.

No entanto, instalado no governo do país o autoritarismo, parece haver muita gente nas instâncias do poder afoita para censurar obras de arte e reprimir expressões artísticas que incomodem sua pretensa dominação cultural. Isso porque a arte é essencialmente subversiva, ou dificilmente conseguiria ser arte.

Subversiva, fique claro, no sentido mais amplo que possa ser imaginado. Subversiva porque toda arte pressupõe e gera liberdade. E a liberdade incomoda o poder, tanto mais quanto mais esse poder for autoritário e infenso à compreensão da arte como representação simbólica do mundo.

Estamos sim, perplexos. Parece que éramos um bando de ingênuos a desconhecer o alternado andar da história, para frente e para trás, quando direitos e conquistas podem ser perdidos e a democracia se mostra reversível. “Tomamos um caldo”, quando fomos dos primeiros grupos a serem atacados pelas forças sociais conservadoras que hoje comandam o país, alçadas ao poder pelo do voto popular.

Apesar de a Constituição ter vetado a censura no limiar do atual Estado democrático, o que aconteceu nos últimos tempos é que as forças sociais conservadoras minaram sensivelmente a força normativa da Lei maior.

Como disse o jurista Ferdinand Lassale, quando a Constituição escrita não está de acordo com os fatores reais de poder, ela não passa se uma folha de papel que não tem força nenhuma. O Presidente eleito jurou cumprir a Constituição, mas mesmo antes de assumir a presidência já indicava que fará de tudo para descumpri-la. Em atos, palavras e omissões, no que é seguido por muitas autoridades, eleitas ou nomeadas.

Temos uma Constituição de papel que garante muitos tipos de liberdade (a artística entre eles), mas perdeu força drasticamente; e uma constituição formada pelas forças sociais (fatores reais de poder) atualmente muito propensas à repressão de liberdades.

Nos últimos tempos, mesmo antes da eleição que levou ao poder um governo autoritário, houve exposições, shows, peças de teatro e performances artísticas que – de modo mais violento aqui, menos violento acolá – foram bafejadas pelo dragão da censura.

Ao lado disso, os boicotes de grupos sociais conservadores a essas obras algumas vezes também fazem com que eventuais patrocinadores desistam de seus patrocínios. Recentemente, a Universal Pictures, distribuidora do filme Boy Erased – Uma Verdade Anulada, desistiu de lançar o filme nos cinemas do país, alegando questões econômicas.

Esse filme, baseado em um livro de memórias de Garrad Conley, faz críticas à cura gay e poderia sofrer boicotes e perseguições por parte de grupos que defendem a legitimidade de supostas terapias de reversão da homossexualidade. O filme poderá ser visto no país apenas em Home Video.

O fato é que se criou no imaginário popular – terra fértil para a disseminação de preconceitos – o estigma dos “parasitas da Lei Rouanet”, que mamam nas tetas do Estado sem trabalhar. Somos muitas vezes acusados de imorais, vagabundos, e das mais diversas perversões que o delírio dos levianos acusadores possa conceber.

Ultimamente, colaram em nós a antiga pecha que era colada nos comunistas (e em quem quer que fosse tachado de comunista, palavra cuja definição tanto mais se fluidifica, quanto mais o poder quer meter medo na sociedade), a de comedores de criancinhas, incentivadores da pedofilia e do incesto.

Tudo por causa de obras presentes na boicotada exposição Queermuseu, cujo cancelamento acendeu de vez o alarme sobre o retorno das perseguições a artistas e obras de arte.

Quanto a nós, nos quedamos perplexos de ver triunfar tanta insanidade. No entanto, não nos temos furtado a continuar criando. É sabido que em tempos de censura, a arte não para de vicejar e muitas vezes se faz mais forte para continuar existindo. A vida que nos recheia é feita de teimosia.

De uns tempos prá cá, tenho visto espetáculos e filmes que se têm acrescido de um tom mais marcadamente político, para protestar contra a censura que ameaça voltar. É certo que todos os nossos atos, e mais ainda os atos artísticos, são políticos. Mas temos enfatizado nossa precisão de liberdade para criar e existir. Em canais abertos de TV, artistas fazem declarações defendendo a classe das acusações de preguiça e corrupção. Nas redes sociais, também levantamos a voz em defesa do nosso trabalho.

Perplexos, sim. Mas não estamos tontos. E se nunca estivemos dispostos a sermos esmagados, muito menos estamos agora. Não nos acostumamos à imposição, seja de silêncio, seja de temas a serem tratados nas nossas criações. Somos aferrados à liberdade.

E, pelo que vimos até agora, ainda que tenham sido destruídas muitas obras de arte nos muitos períodos históricos em que o autoritarismo triunfou, é a arte sobrevivente que nos tem legado as melhores chaves para compreensão da própria história humana.

Do autor da Epopeia de Gilgamesh aos romances de Philip Roth, passando pelos bardos medievais, pelas peças de Shakespeare, pela escritura de Goethe e Balzac; das pinturas nas cavernas pré-históricas à arte múltipla de Tunga, passando pelo surrealismo e por Lucien Freud; dos primeiros sons ritmados aos muitos gêneros musicais gerados pelo ritmo do continente africano, passando por Bach e Villa-Lobos; da dança dos gregos ao trabalho de Deborah Colker, passando pelos rituais celtas de fertilidade; das apresentações de Salomé às performances de Berna Reale; a linguagem simbólica da arte persiste, velando pela beleza e desvelando os enigmas do mundo.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Erilson Leite 6 de Março de 2019 20:37

    Belíssimo texto, muito bem escrito; didático e forte como sua autora. Carmen é uma luz.

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