E agora? Voltamos para a internet?

Por Luli Radfahrer

Agora que deixamos as redes sociais, fomos às ruas, nos manifestamos e conseguimos o que tínhamos proposto a princípio, para onde vamos? Pararemos as cidades cada vez que algo estiver errado? Ou voltaremos ao Facebook com a sensação de quem fez a sua parte, reclamando que “o Brasil não tem jeito” e voltando a ver inutilidades?

Não me parecem soluções viáveis para tirar o Brasil dessa situação. A Revolução dos Bichos mostra que não se muda de uma posição bovina para uma ativa em atos repentinos, pois é fácil cair na armadilha de salvadores da pátria com discursos messiânicos, que depois se rendem ao sistema. Já vivemos essa história.

Muitos parecem estar perdidos por não serem capazes de enxergar todo o cenário. Concentrados na manifestação, deixam de ver a situação. Décadas de controle social, de publicidade corporativa e de fabricação de consentimento público anestesiaram as pessoas, tirando delas a percepção de que cada um pode ser agente de mudança. Na ressaca das conquistas há uma sensação natural de desorientação. Conseguiu-se os tais vinte centavos, até em lugares onde eles não foram pedidos, mas isso é – como sempre pareceu – muito pouco. O que fazer, então?

O jornalista Ricardo Boechat defende, em uma bela argumentação, que o que se viu na última semana foi um desabafo generalizado, um “basta”. Não parece ter direção porque os problemas são muitos, diversos, sistêmicos, e não há como resolvê-los sem uma profunda e significativa mudança.

Oportunistas procuram transformar os fatos em uma situação que peça intervenções espúrias, como a do infame Partido Militar Brasileiro ou a do apavorante Foro de São Paulo. São iniciativas de controle que ameaçam a liberdade, verdadeiros golpes de Estado debaixo dos nossos narizes.

A solução é mais complexa do que parece. Até as tais “cinco causas” tem seus problemas. É possível pressionar pela rejeição de medidas impopulares, mas o que fazer com tanta coisa errada? Mesmo que todos os parlamentares deixem seus cargos, o que garante que seus aliados perderão o poder? Ou que os invisíveis que os controlam largarão a mão? Ou que os que virão depois não serão ainda piores?

Mesmo quem todo mundo adora não poderá, sozinho, mudar o país. Teria Marina Silva a capacidade de barrar os excessos propostos pela bancada de pastores, que envergonham os princípios e preceitos religiosos de tanta gente boa evangélica no país? Seria Joaquim Barbosa capaz de lutar sozinho contra o que o Capitão Nascimento chama de “esquema”? Acho que não. Uma andorinha, dizem, não faz o Verão.

Pede-se a imediata investigação de irregularidades nas obras da copa e olimpíadas, mas quem as fiscalizará? Será que isso já não está sendo feito, só que por um sistema lento e que pode levar à impunidade como aconteceu com o Mensalão? Mesmo que haja a relocação do PIB para áreas como saúde ou educação, nada indica que melhorariam. Ou você já se esqueceu da CPMF?

Corrupção, impunidade, homicídios, impostos, qualidade das escolas e hospitais públicos são excelentes motivos para que se saia às ruas e se tente melhorar o país. Mas isso é só o começo.

Políticos se apegam aos atos de vandalismo, apoiados por demagogos que usam as imagens de ladrões oportunistas na tentativa de manipulação. Por mais que se discorde das linhas editoriais de determinados veículos, açoitar a mídia é perigoso. Isso pode gerar um controle da liberdade de expressão, buscado há tempos pelo governo.

As ruas mostraram que somos o que Sérgio Buarque de Holanda chamava de homem cordial, que se deixa guiar pelo coração. A paciência pode ter se esgotado, mas não tem jeito: essas coisas se resolvem com a lei. Que deve ser aplicada para todos, sem exceção. É preciso substituir o Jeitinho Brasileiro por um sistema de reputação. E a melhor forma para isso é criar uma rede de transparência e educação.

Ah, mas isso dá uma preguiça… para muitos é mais fácil pensar nesses problemas como se estivessem além de sua capacidade para resolvê-los. Mas eles não estão.

Nunca se discutiu tanto a política, e isso é muito positivo. Nas calçadas, shoppings, cabeleireiros, táxis, bailes e rodas de capoeira, nunca o assunto foi tão popular. Se falava em violência urbana, transporte e inflação, mas o assunto logo era desviado para o futebol e a novela.

Já outros temas eram quase tabu: corrupção, impunidade, educação, saúde, impostos, superfaturamento, salários baixos de funcionários de serviços essenciais, regalias de políticos e comprometimento da mídia eram tópicos cercados de tanta ignorância que não tardava para serem classificados como “chatos” e relegados a debates de centros acadêmicos em escolas de ciências sociais, em que também faltava um debate plural.

A ignorância é mãe da incompetência. Corrupção, saúde e educação são temas de longo prazo, que não podem ser resolvidos à base de passeatas ou canetadas, sob o risco de serem desviados ou gerarem efeitos colaterais ainda piores. Quem se indignou a ponto de se interessar pelo assunto deve manter sua indignação em uma constante auditoria. Thomas Jefferson defendia que o preço da liberdade era a eterna vigilância. E na época dele não existiam tantas ferramentas.

Não adianta gritar “Sem partido!” Por muito tempo. A rebelião contra oportunistas na Av. Paulista foi válida, mas não se sustenta. Países sem partido são retrocessos, sem exceção. O que é preciso é uma conscientização política. Assim será possível sanear (e sanitizar) as estruturas. A constituição brasileira está entre as mais avançadas do mundo, só precisa ser acompanhada por uma população que a compreenda e a utilize corretamente, não votando em palhaços, funkeiros, pastores e jogadores de futebol, a não ser que suas propostas sejam muito claras e acompanhadas de estudiosos e técnicos capazes de pô-las em prática.

Boa parte do desinteresse político vem da complexidade do sistema e da impotência de seus usuários. Apresentada de forma técnica, remota e entediante, a política se tornou distante, velha, uma fatalidade. Até mesmo as eleições, para muitos, não passam de um fardo. A impotência é tanta que leva muitos a se esquecerem que políticos são funcionários públicos. Acompanhar seu desempenho é direito e dever e responsabilidade de todos.

Redes de comunicação baseadas na Internet funcionam como plataformas. Sobre elas nascem novos produtos e serviços, criando novas interações a partir de seus bancos de dados. Esse é um dos motivos do sucesso das redes sociais. Nada impede que sejam usadas para despertar o Gigante ao estimular o debate, combater estereótipos, gerar conhecimento, facilitar o equilíbrio entre pontos de vista e criar redes de valor.

Entrar na Internet, todos sabemos, é mais fácil do que ir às ruas. Durante muito tempo esse foi o argumento de quem desprezava o ativismo digital. Mas a mesma rede também serviu como ferramenta de conscientização e motivação, transformando ciberativos em hiperativos.

Algumas iniciativas são louváveis, mas são poucas: há quem faça vídeos explicando o que está acontecendo para pessoas de outras cidades ou países, lutando com informação contra os que os chamam de arruaceiros. Há quem use o Twitter para disponibilizar atendimentos e serviços, ou mesmo quem libere a rede de casa para ajudar as manifestações de quem está nas ruas. A Wikipédia mostra como se constrói conteúdo de qualidade rapidamente. Movimentos de monitoração social como o Voto Consciente e o Radar Municipal mostram que é possível monitorar e fácil informar.

Não adianta ler Arendt ou Bobbio ou iek ou Bauman ou Marcuse ou Hobsbawn e se queixar da pós-modernidade. É preciso colocar as mãos na massa.

Minha proposta é a de organização de outro tipo de movimento. Um que use plataformas digitais para construir propostas. Ele não precisa de líderes. Não tem nome nem endereço. Não pode ser cooptado. É invisível e onipresente. Sua ordem se baseia em reputação, não em cargo. No discurso competente, não no outorgado. Um presidente e um faxineiro tem, nele, o mesmo direito à expressão. Vence quem tiver melhor argumentos.

Uma de suas propostas, mais fácil de ser executada do que a derrubada do projeto do Feliciano, é a criação de uma rede social com o perfil de todo parlamentar. Um Facebook da classe política, em que todas as atividades, propostas, discursos, tamanhos de gabinetes e faltas estejam registradas e sejam de fácil – e amplo – acesso. Nessa rede, melhor do que seguir um revendedor de gás com quem você fez o ensino médio, você poderá acompanhar os atos de alguém que realmente importe e interfira em sua vida, verificando seu perfil político, técnico e científico antes de votar.

A rede pode ser complementada por Wikis que, como a Wikipédia, são repositórios de conteúdo gerado coletivamente. Há wikis até para Lost, porque não haver uma para explicar projetos e atividades do Congresso, do Supremo, do Executivo?

Blogs podem acompanhar os acontecimentos e servir de centrais de distribuição de informação. Tumblr e Twitter podem dispor pequenos conteúdos em periodicidade aleatória, como denúncias e exemplos de iniciativas sociais na prática. Podcasts e audiolivros podem informar quem não tem tempo de ir à rede porque passa horas e horas a caminho do serviço em transporte público precário.

Websites, de todos os partidos, podem servir de demonstração de suas bandeiras políticas, abertamente, cada um usando os recursos que tem, sem se apropriar de movimentos políticos nem organizar showmícios com artistas vendidos ou alegadamente despolitizados.

Até recursos de jogos podem ser usados entre os mais novos (ou mais alienados). Transformá-los em “jogadores” que ganham pontos ao comentar artigos ou reencaminhar links é um bom ponto de partida.

Os mais engajados podem usar grupos de discussão, que propiciam debates em que os argumentos mais populares ganham destaque, mas que todas as opiniões ficam registradas para consulta posterior.

Até a câmara do smartphone, que se mostrou mais poderosa do que o spray de pimenta e as balas de borracha, pode ser usada como instrumento de mobilização, registrando filas, abusos e buracos, físicos ou estruturais, no sistema.

Não é difícil democratizar a inovação e o ambiente de participação pública, convidando a todos para que participem de seu desenvolvimento. Quando chegarmos a esse ponto, o Datena e outros tantos serão são só pontos da rede. Não será necessário nem recomendável silenciá-los quando for possível relativizá-los, coisa que a TV nunca permitiu.

Para resumir, o Pequeno Príncipe dizia que “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, enquanto o Homem Aranha defendia que “grandes poderes exigem grandes responsabilidades”. Não é preciso ter muito estudo para compreendê-los.

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