E aí, partisan, militar é preciso?

“Passa pela minha cabeça que eu sou a América.
Estou de novo falando sozinho.

A Ásia se ergue contra mim.
Não tenho nenhuma chance de chinês.
É bom eu verificar meus recursos nacionais.
Meus recursos nacionais consistem em dois cigarros de maconha milhões de genitais uma literatura pessoal impublicável a 2.000 quilômetros por hora e vinte e cinco mil hospícios.
Nem falo das minhas prisões ou dos milhões de desprivilegiados que vivem nos meus vasos de flores à luz de quinhentos sóis.
Aboli os prostíbulos da França, Tânger é o próximo lugar.
Ambiciono a Presidência apesar de ser Católico.

América como poderei escrever uma litania neste seu estado de bobeira?” Allen Ginsberg, trad. Claudio Willer.

1.
Tomados pela renovação est/ética nos processos de articulação de massa promovida pelo advento das redes sociais, xs esquerdinhxs estão todos enchendo o saco no facebook e no twitter, repetindo frases mínimas de devoção axs sxxs candidatxs, links para textos forçosamente elogiosos, planos de gestão aparentemente sérios e memes aos montes. “Mussum Vota Mineiris” e “Keep Calm and Vote Mineiro” foram, até agora, os que mais me divertiram, porque pensei que, finalmente, a propaganda política havia se tornado tão banal e esvaziada quanto qualquer outra propaganda, e seguia, como se pretendesse vender uma meia modernosa, as premissas básicas de um regime de compra-e-venda – gestão de desejo consumista.

Já não é possível, dessa maneira, que eu continue a tratar por eleitorxs os votantes de uma eleição, de modo que seja o caso, agora, de chamá-los pela alcunha de consumidorxs. Assim, na lata.

2.
Uma das hashtags impertinentemente divulgadas pelxs vermelhxs clama por uma #novaculturapolítica. Vejo tanta graça nisso quanto em “Mussum Vota Mineiris”, mas por motivos diferentes. Eu rio do fato de que tal clamor se materialize justamente na voz dessxs que estão tão lentamente alojados no bonde-paraíso – o qual, aliás, fatalmente nos levará à Pasárgada, mesmo que seja somente para que nós finalmente nos apercebamos de que o rei não pode ser, de fato, nosso amigo.

O videogame político, do modo como opera sua configuração, conquanto não seja estagnado, cria, como anti-vírus, um tipo de película que interrompe as velocidades exteriores a ele de penetrar de forma intensiva sua zona de jogo, de modo que, uma vez em movimento, desloca-se como uma montanha que se move sem se dispersar. Uma #novaculturapolítica passa, antes, por uma abertura (não é caos, mas caosmos) destes tímpanos que amortecem as intensidades emitidas de fora. É preciso sair de órbita, produzir excentricidade, naufrágios para que afundemos novas terras. Pensar uma #novaculturapolítica não é assumir uma participação subalterna e vazia curtindo e compartilhando memes imbecis no facebook, é, antes, investir um imaginário, repovoar a cidade subjetiva, decomporrecompor as paisagens, praticar outras performances, alimentar um mundos para além de todos esses escombros. Acreditem, petistas, não há nada assim de tão especial que vocês, enquanto petistas, tenham a nos ensinar!

3.
Tendo havido o debate anteontem – ou ontem, já não sei que dia é hoje –, os comentadores foram dormir e amanheceram vicejando elocubrações pretensamente “engrandecedoras”, que, como não poderia deixar de ser, fatalmente vieram parar na capa da minha teletela. Gossips: “não-sei-quemzinhx apanhou de não-sei-quemzinhx”. Mas também os engraçadíssimos elogios, cheios de solenidade: “Mineiro é, sem dúvida, o candidato mais preparado”. Eu não discordo disso, mas no que concerne minha fruição anti-intelectual (novelas, horário político, noticiários,…), devo dizer que, não por ser bem preparado, mas pelo motivo inverso, o candidato do PSOL (acho que o nome é Robério Paulino) foi o ponto-alto do debate. É claro que não vou pegar a foice e o martelo, mas me parece que, justamente por parecer carregar este disparate como bandeira, essa pequena atitude de loucura, Robério assume um posicionamento radical que, ao pôr tudo a perder, faz emergir no teatrinho dxs candidatxs uma pequena, embora renitente fissura. Ele, fantasiado com essa sua máscara, opera desmascaramentos efetivos de todo o esquema político em questão. Além, é claro, de cometer maravilhas poéticas, como “natal é uma cidade sobre fezes” ou “é preciso rasgar ciclovias por toda a cidade”, e ter, ainda por cima, a audácia de dizer, na entrevista posterior ao debate, que, a esta altura do campeonato, “o sonho não morreu”. De fato não. O sonho (este sonho a que, sabemos, o candidato se referia) vive, sendo que pesando, moribundo, sobre as nossas costas.

4.
A coligação “Bartleby para Presidente”, irresponsavelmente, anuncia, ainda sem local definido, sequer atrações, que no dia 06 de Outubro do meio-dia à meia-noite, será realizado o show-míssel “Night Niilista: drope todas, fique de ressaca e não levante para votar”.

5.
A Carta Potiguar é um palanque.

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. SonhocaboU 6 de agosto de 2012 18:01

    livrai-nos Falo-Marx de rodopiar no vazio
    de o suporte para a existência de um ser indigno
    mas para isso preciso de um dinheirinho
    que importa a hipocrisia? quero meu mensalinho!

  2. Jota Mombaça 6 de agosto de 2012 0:05

    Daniel,

    O terceiro ponto do seu comentário me fez querer lembrar-lhe o fato de que, como comentador de política, sou, antes, poeta. Assim é que errar medidas, exagerar sem tamanho e mesmo propor absurdos me é próprio. Hoje um amigo pixador, que assina seus escritos como “Alguém?”, me disse: “se você vai arriscar sua vida por um movimento político, que seja, ao menos, em nome de uma causa impossível”. Concordo com ele! Saiba: se decido me envolver em discussões desse tipo, não é para adivinhar o melhor próximo-passo que a sociedade deve dar, trata-se, isso sim, de inserir novas velocidades na caminhada, trazer à tona aquilo que está, para o campo da política, ainda na esfera do sonho e do delírio.

    AVANTE, MANCO!

  3. Daniel Menezes 5 de agosto de 2012 18:16

    Caro Jota,

    01. Concordo com teu diagnóstico a respeito da propaganda política, que é cada vez mais permeada por aquilo que Bauman chamou da era do “político celebridade”. Os candidatos abusam das técnicas de vendas porta-a-porta, retiram rugas e reconstroem os seus corpos;
    02. Critico também a suposta superioridade ideológica que algumas pessoas de esquerda – mas também de direita!, vale acrescentar – tentam apresentar;
    03. Só discordo da valorização do alheamento político como forma de combate, ou do total fechamento para a possibilidade de disputa institucional.
    As décadas de 70, 80 e 90 conheceram uma crítica florescedora dos costumes, da sexualidade, da própria questão estética como uma indagação política. Foi uma contribuição pós-moderna importante.
    Porém, alguns erraram na medida, erro que também vejo no teu texto.
    De repente, meia dúzia de frases desconexas, na sua lógica argumentativa, valem mais do que a construção de um projeto político reflexivo alternativo.
    Acho um exagero sem tamanho. Mais. Penso que coisa boa não pode surgir de uma perspectiva que tente se afirmar como politicamente passivo.
    Pior. Abre caminho para que a dominação estabelecida se mantenha.
    É preciso criticar a atividade militante, mas não é crítico tentar invalidar a própria tentativa de militar.

  4. DennysLucas 5 de agosto de 2012 14:28

    Tão semelhante aos jargões da esquerda irrefletida são estes jargões pós-moderninhos, de conceitos frouxos e proponente de porra nenhuma. Logo, paira sobre o vazio.

  5. Marcos Silva 4 de agosto de 2012 9:29

    Propaganda política sempre foi propaganda, anúncio de mercadorias para ávidos consumidores.

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