É Caixão e vela preta

“Eis o que eu quero saber: Teremos, algum dia, oportunidade de assistir a todos os filmes disponíveis de Zé do Caixão, numa revisão que me parece (e é) da maior urgência no presente momento do cinema brasileiro.”
(Torquarto Neto 30 09 1971)

Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. Assim foi a gravação do vídeo CORAÇÃO do cineasta José Mojica Marins feito em menos de 24 horas em Natal.

Mojica, nas palavras de Glauber Rocha, um GÊNIO DO CINEMA, mostrou como é possível nos dias de hoje fazer cinema novo. Cinema sem dinheiro, feito de trabalho duro. 50 anos de cinema fazendo um vídeo em menos de 24 horas nos 30 frames do magnético.

Mojica dirigindo sem roteiro, sem decupagem de plano. Sem água no set. Um coração de porco latejando. Um facão, um casaco jeans, 3 ou 4 locações e os atores da oficina que ministrou, durante 3 dias no teatro Sandoval Wanderley, no coração do Alecrim, e Mojica falando como o seu estilo ainda poderia salvar o cinema nacional… sem ter vergonha das almas penadas, fantasmas do capitalista cinemão de shopping. Talvez os ingressos de um fim de semana nos cinemas de Natal possibilitariam a gravação de vídeos mensais em Natal.

O sonho do cinema possível, senhores membros da cultura… o amor que movie o sol e as outras estrelas, palavra gasta pelo tempo. É o que ainda nos faz respirar.

Sei que muitos vão dizer que o take tal poderia ser melhor, mas, são os mesmos que dizem que o teatro brasileiro é legal, a musica é legaL, o jornalismo é legal, etc e tal e o cinema brasileiro é um abacaxi. Cinema e vídeo todo mundo entende e se arvora de crítico, simplesmente contando o seu argumento: FULANO MATOU BELTRANO POR CAUSA DE NUM SEI O QUE.

O cinema hoje chamado trash, é o nosso país que há algum tempo atrás alguém quis levar para o primeiro mundo e nos levou para os quintos dos infernos. Faz trinta anos que um cidadão brasileiro entrou num caixão de defunto, para ganhar a vida honestamente, com trabalho. Faz trinta anos que os intelectuais brasileiros são míopes para ver os filmes de José Mojica Marins. Inácio Araújo, crítico da Folha de São Paulo, até tentou pedir desculpas, pelo erro histórico… lembrando Glauber: ATÉ OS INTELECTUAIS BRASILEIROS SÃO COLONIZADOS.

Mojica sendo reconhecido como mestre pelos críticos americanos, fazendo os intelectuais brasileiros reconhecer o cidadão José Mojica Marins como cineasta.

Cineasta dos filmes 'Ribeira Velha de Guerra', 'Senhõra' e 'Poço Festin Mosaico', entre outros [ Ver todos os artigos ]

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