É com esse que eu vou

Por Nei Lopes
ESTADÃO

Roberto Roberti: afinal, quem é ou foi esse compositor de sobrenome italianado?

Para quem gosta de samba, mas não curte carnaval; ou que ainda não entendeu direito que samba e escola de samba não são a mesma coisa… Para quem não sabe que muito do que hoje se classifica como ‘MPB’ é samba, e do bom… Para quem, afinal, gosta mesmo é de música boa, uma grande pedida nestes dias pré-carnavalescos é ouvir o álbum duplo É Com Esse Que Eu Vou: O Samba de Carnaval na Rua e no Salão.

Tudo começou quando os pesquisadores Rosa Maria Araújo, atual presidente do Museu da Imagem e do Som do RJ,e Sérgio Cabral, veterano e conceituado jornalista e crítico de música popular, conceberam um espetáculo que revive a graça e a beleza das antigas marchinhas carnavalescas. Sucesso absoluto, em cartaz há vários anos,o espetáculo, intitulado Sassaricando (nome de um amarchinha de 1952) motivou um disco.E a ideia acabou levando também ao álbum ora comentado,o qual ,no sentido inverso, redundou em um espetáculo, também em cartaz, com grande afluência de público.

É Com Esse Que Eu Vou, o álbum duplo, compreende dois CDs, contendo 82 sambas agrupados em oito unidades temáticas que abordam assuntos oposto e/ou complementares como os seguintes: rico e pobre; orgia e trabalho; cidade e morro; feminismo e machismo; briga e paz. E termina com uma sequência de “apologia ao samba.”

O período abrangido pelos discos vai de 1968, o que já induz à constatação de que a era dos grandes sambas de carnaval se encerra na década de 1960. E foi realmente assim, pois, na década seguinte, os sambas-enredo das escolas (após o Pega no Ganzê salgueirense) ganham a hegemonia das execuções radiofônicas.

No repertório do álbum, é interessante notar como alguns sambas selecionados saíram do âmbito do carnaval para se tornarem peças de resistência de repertórios unanimemente aclamados, como os de Elis Regina e Milton Nascimento. É o caso, por exemplo, de Não me Diga Adeus, de 1948; Me deixa em Paz, 52; A Fonte Secou, 54; e Mora na Filosofia, 55.

O primeiro tem como segundo nome do trio de parceiros Luiz Soberano, pseudônimo de Ednésio Luís da Silva, sambista ligado à extinta escola de samba carioca Paz e Amor, vizinha da Portela, o qual foi, além de pandeirista de orquestras, autor de cânticos rituais de umbanda e dono de outro grande sucesso do carnaval de 48, o samba Enlouqueci. Já os três outros sambaslevama assinatura deMonsueto (Campos de Menezes).

Popularizado como comediante através de programas humorísticos na televisão, Monsueto foi compositor inspirado,donodepoética originalíssima e criador de belas melodias, como as das obras mencionadas. Sambista, era oriundo da Praia do Pinto, núcleo favelado da zona sul carioca, destruído num incêndio supostamente provocado por interesses da especulação imobiliária, na década de 1960.

Lendo o encarte do É Com Esse Que Eu Vou (prazer que a simples audição de música sbaixadas pela internet não possibilita), verificamos que o repertório tem como principalmente selecionados, além daqueles assinados pelos indispensáveis Ataulfo, Ary Barroso e Noel,sambas dos seguintes autores:Herivelto Martins eWilson Batista, com 5 cada um;Roberto Martins e Haroldo Lobo, com 4; e Roberto Roberti, com 8.

E aí, surge a questão: quem é ou foi esse compositor de sobrenome italianado, recorrente em todas as listagens de grandes músicas do carnaval brasileiro?

O que sabemos é que se trata de um carioca de 1915, que estreou na música profissional aos 20 anos, tendo como parceiro principal Arlindo Marques Júnior e sendo autor de grandes clássicos como Abre a Janela, de 1938 ; Eu Não Posso Ver Mulher, 41; Isaura, 45, etc., além dos incluídos no álbum focalizado. No carnaval de 41, Roberti fez sucesso também com um samba cujo título hoje soa bastante incômodo: Nega Pelada, me Deixa.Mas esse era o espírito da época. Não fosse assim, em 1950, o mulato Evaldo Ruy não teria, em parceria com Fernando Lobo, feito o sucesso que fez com outro que assim dizia: “Tava jogando sinuca,/ uma nega maluca/ me apareceu/ Vinha com o filho no colo /e dizia pro povo /que o filho era meu”.

O samba, uma batucada contagiante, fez tanto sucesso que a Nega Maluca virou uma fantasia de carnaval e um símbolo da alegria descompromissada de então. Um símbolo racista, sim; um estereótipo. Mas, no tempo em que o carnaval era realmente folia, transgressão, e não apenas um nicho mercadológico, a gente até achava engraçado.

***

Dito isso, fica aqui a sugestão: para quem gosta de samba mas não curte carnaval ou vice-versa, uma grande pedida, nestes dias, é o álbum duplo É Com Esse Que Eu Vou, com sambas ótimos, arranjos e interpretações formidáveis (como se dizia nos anos 50), lançado pela gravadora Biscoito Fino. Divirtam-se!

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