É isto

Por Janio de Freitas
Folha de S.Paulo

Três aspectos distintos, embora factualmente conexos, destacam­-se na situação
complexa que a prisão do tesoureiro do PT veio tornar mais tóxica.

Sem ordem de importância, um dos aspectos pode começar como contestação ao
líder do PT na Câmara, Sibá Machado, segundo o qual João Vaccari Neto foi vítima
de uma “prisão política”. Política, e de péssima política, é a ideia exposta por Sibá. O
PT está sufocado por acusações de diferentes fontes e igual gravidade, na confusa
Operação Lava Jato. Chegou a tal situação sem dar às acusações uma resposta
enfática, pelo teor e pela firmeza.

Talvez o PT não pudesse dar resposta objetiva às acusações porque os condutores
da inquirição não divulgam o contexto completo dos depoimentos, mas só as suas
violações dirigidas do alegado segredo de justiça. A resposta moral e institucional,
porém, o PT não a deu por temor ou, ao que parece menos provável, por falta de
iniciativa. O resultado é o mesmo: o PT não se faz merecedor de dúvida, quanto
mais de confiança, pelo menos até que os possíveis acertos e erros da Lava Jato
enfrentem os crivos do conhecimento público e, nele, os especialistas em Direito.

Um outro aspecto é o da animação oposicionista, em especial no PSDB, com a
presumida contribuição para o impeachment dada pela prisão de Vaccari. O
impeachment, em resumo, é a possibilidade aberta pela Constituição para destituir o
governante por crime de responsabilidade. Para iniciar o processo de destituição é
necessária, portanto, a precedência do ato ou de indícios com seriedade para serem
investigados e avaliados.

Não é o que o PSDB quer. Ao iniciar reuniões com policiais e advogados, além de
jornalistas, para descobrir alegações que possam pretextar uma campanha pró­
impeachment, esses oposicionistas atestaram que o seu objetivo não é a defesa da
legalidade, ou da moralidade administrativa, ou das instituições democráticas. Sua
prática é leviana e seu objetivo é ferir de morte o adversário odiado. Dois indícios de
má-­fé e ação contra o Estado de Direito.

Entre os desdobramentos que a Lava Jato pode produzir está o de comprometer o
governo e a própria Dilma Rousseff, por improvável que isso seja. Sem tal
eventualidade, porém, os passíveis de crime contra a ordem democrática, nos
termos da Constituição, são os que se organizam para fomentar a ruptura da
legalidade institucional que tanto custou a este país.

Por fim, não só a prisão de Vaccari, mas tudo na Lava Jato que envolva partido
envolve, também, eleições. As últimas, e as anteriores, e ainda as de antes, todas
iguais: eleições brasileiras são uma grande hipocrisia.

Raríssimas são as doações financeiras de empresas, como as da Natura, e de
empresários, como as de Neca Setúbal, que provêm de convicções ou simpatia, não
de interesse. Em proporção semelhante, raríssimos são os políticos profissionais que
não tomam “doações” e as embolsam em parte, senão no todo.

Candidato endinheirado a suplente de senador é aposta fácil sobre seu compromisso
de pagar toda a campanha, e, apesar disso, com o titular da chapa tomando
doações para embolsá-­las. Casos assim são muito conhecidos, por isso a oposição
não olha para dentro de si mesma. Comprador de fazenda, aliás, com valores falsos
na escritura, logo depois de eleição presidencial nos anos 90, não seria notícia nova
para os oposicionistas atuais.

Os bens da grande maioria de políticos profissionais são notoriamente incompatíveis
com seus ganhos, ainda que lhes somando aposentadorias e outros ganhos
conhecidos. Se fosse mesmo para defender a moralidade, bastaria confrontar
ganhos e patrimônio. Se não é, restam a falsa moralidade e a hipocrisia.

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