E o amor não lhe fechou as portas

“Os bons morrem antes”. Esta frase, de uma música de Renato Russo, cai como luva nele próprio. A morte precoce de Renato nos privou do que ele ainda poderia produzir, embora nos seus trinta e seis anos de vida ele tenha feito muitas dessas coisas que ficam para sempre na alma. Sempre tive fascinação pelas coisas que são ditas em pequenas frases, pelas coisas que são ditas sem dizer. Quero dizer, pelos símbolos e pelas metáforas. Passei muito tempo sem ouvir os discos de Renato. Tenho todos (ou quase) e, de vez em quando, eu volto. Cada vez descubro coisas novas. Essa não é uma característica dos clássicos? Pois, para mim, Renato Russo é um clássico.

Os jovens que ouviam Renato Russo já não eram os mesmos cujos sonhos de felicidade coletiva haviam sido esmagados pela ditadura. Eram jovens nascidos e criados sem a liberdade de ir, vir e pensar, mas nem por isso deixavam de desejar a liberdade. Se não aprenderam a sonhar com uma revolução social, tinham desejos individuais de felicidade. Isso não é mau. Não foi uma geração perdida, uma geração coca-cola. Fomos quem pudemos ser.

As músicas de Renato Russo, como a de outros artistas do rock brasileiro dos anos oitenta, retratam as contradições de quem buscava, cavando, a liberdade, ainda que cavar, em se tratando de liberdade, pareça contradição. Mas Renato fez mais, conseguiu abrir vastidões de reflexão com letras de músicas.

Renato vai fundo, mas suas letras acabam sempre em um resgate da alegria. A vida é trágica, mas, se tem de ser vivida, então… Celebremos. Estive ouvindo muito a música “Perfeição”. Sua letra é irônica, triste. Chama para uma celebração das coisas nefastas se alastrando pelo mundo. Mas, no fim, a letra reencontra a esperança na porta que o amor sempre mantém aberta. A alegria, difícil, é verdade, é celebrada. Apesar de toda a estupidez humana, o homem ama. Enquanto houver amor, haverá uma porta aberta, por onde entra a primavera e o futuro recomeça. O amor mantém a porta aberta para entrar a perfeição. Talvez a maior crença de Renato tenha sido na perfeição, a qual, embora nunca seja alcançada, nunca se deixa de desejar, pelo menos é o diz Dante Alighieri.

E se o amor fecha a porta? O amor a fecha, alguma vez? E se fecha, por onde passar? Renato Russo nunca diz. Suas letras mantêm a crença na porta aberta. Já para outros, não há esperanças. “Não há portas, e te achas dentro”, diz Jorge Luis Borges. Às vezes até o amor fecha portas. Mas Renato insiste: “quando você deixou de me amar aprendi a perdoar e a pedir perdão”. Mesmo desamando, o amor abre portas.

O último disco da “Legião Urbana”, “A Tempestade”, foi feito quando Renato já estava com AIDS. Mesmo este último testemunho mantém a fé no amor, agora identificado naqueles que realmente se importam com alguém. O amor serena, resigna-se, abre portas. De todos os discos da “Legião”, “A tempestade” é o mais reflexivo e é lindo. Eu fico me perguntando de onde veio a força para compor “A Tempestade”, com a morte lhe empunhado a foice, e não tenho outra resposta, senão o amor. A vida fechou as portas para Renato Russo, mas o amor, até o fim, manteve-as abertas.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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