E o palco se despede de Glorinha…

A relação de Glorinha Oliveira com os palcos merecia crônica de Nelson Rodrigues. É quase um caso de obsessão. O palco, o amante insaciável. Glorinha, a moça carente de amores. Durante mais de 70 anos, um completou o outro de forma avassaladora. A dupla ficou famosa. A voz jovial e potente de Glorinha jorrou amor pelos quatro cantos do Norte e Nordeste durante décadas. Aos 82 anos, Maria da Glória Mendes Oliveira se despediu do companheiro fiel. Os presentes na Assembléia Legislativa ontem assistiram a triste separação. E logo na abertura, cantou sua última canção, talvez, oferecida ao palco amado: “Eu sei que vou te amar. Por toda minha vida, eu vou te amar. Em cada despedida eu vou te amar…”.

Em cada aforismo há uma ponta de razão e a primeira impressão é mesmo a que fica. Por isso, a primeira associação feita a Glorinha não é com seu amante-palco, mas com seu primeiro amor: o rádio. Em verdade, como ela mesmo confessou, o gosto maior é o de chegar e cantar, sem querelas burocráticas. Ainda está desacostumada com parafernalhas eletrônicas e a montagem do… palco. É, ele já não é mais aquele. Mesmo nas rádios de outrora, como a pioneira Rádio Educadora de Natal havia espaço para grandes orquestras, como a de Waldemar Ernesto, e tudo ao vivo, na “bucha”. Na noite de ontem, ela esperou o fim da sessão da AL, assistiu entrega de troféus e uma banda cover de músicas internacionais abrir a noite para só então despejar seu canto para mais de 300 pessoas a sua espera.

Pareceu emocionada. Na platéia estava filho, neto, amigos de longa data como Ana Maria Cascudo, músicos de ontem e de hoje. Confessou antes de pisar o palco ter adorado a homenagem ainda em vida. E que vida. Mesmo aos 82 anos, a rouxinol potiguar é ativa como jovem. Costuma acordar por volta das 5h, caminha, faz ginástica de consciência corporal, participa de coral, lê jornais impressos, ouve muita música (reclama muito da programação das rádios e enaltece a Rádio Universitária) e tem como vício preencher palavras cruzadas. É uma por dia, segundo seu filho Aécio. E se depender da herança genética… Sua mãe morreu com 104 anos.

Fiz entrevista com ela a ser publicada amanhã no Diário de Natal. Foi feita às pressas. Cada fim de resposta vinha seguido de um “pronto, meu filho do olho lindo?”. Glorinha se preparava para cantar e encerrar a programação da Assembléia Cultural de 2007. Quando recebeu o convite, decidiu que encerraria sua participação nos palcos. Estava alegre, meio alvoroçada. Mesmo as perguntas mais “delicadas”, respondeu sem mágoas, embora tenha parado um pouco para pensar. Talvez algumas lembranças desagradáveis tenham passado pela mente. Nas entrevista de amanhã, Glorinha Oliveira comenta do único arrependimento em mais de 70 anos de carreira, e confessa ter sido de cima de um pé de sapoti, na residência em que morava nas Rocas, o despertar para a música, como um rouxinol.

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