É preciso mudar o olhar

Ainda sobre a lista da Times e como tréplica de Fernando Monteiro.

Um filme que consegue tanto agradar o público quanto a crítica, merece mais aplauso do que aquele bom apenas para meia dúzia de intelectuais. A trilogia Bourne conseguiu esse feito. Não sou crítico especializado em cinema, preciso comer ainda muito feijão com arroz para isso, mas acompanho sempre o que sai e os três filmes da série, sobretudo os dois últimos, dirigidos por Paul Grenngrass são tidos por vários motivos como uma revolução no modo de filmagem e na roteirização deste tipo de filme, um contraponto aos incansáveis 007, que de qualidade técnica e estética já não possui absolutamente nada. É só pesquisar para saber. Ah, claro, precisa ver o filme também.

Criticar a trilogia Bourne apenas porque é um blockbuster e compará-lo a produções de Hitchkook e Carol Reed de mil novecentos e bronca (atenção, não questiono, aqui, a qualidade desses filmes) é de um equívoco tremendo. Fernando, de Hitchkook para cá já passaram quase 60 anos, os tempos mudaram, o cinema também, comparações deste tipo são aberrações. Até porque, na década de 50 o cinema era visto de outra forma, o público era diferente. E é bom frisar para os saudosistas de plantão, não era nem melhor, nem pior que o atual. Em mil novecentos e bronca também se produziam porcarias.

Quem esteve ontem no debate sobre crítica de cinema lá no Solar Bela Vista com o carioca Rodrigo Fonseca, pode ouvir dele um desabafo sobre algo que reflete a cabeça de muitos críticos, sobretudo os mais velhos. A mania de analisar tudo como se estivessemos nos anos 60. Não estamos mais em 1968 (ele disse e eu corroboro), o mundo mudou e não adianta ver o cinema daquela forma, com aquele sentido. É um erro, que limita parte dos que se dizem críticos, mas que não sabem apontar qualidades em uma ou outro longa bom, só porque foi feito para ser consumido em massa, ou porque adota uma linguagem contemporânea.

Não vi, no seu comentário, nenhuma crítica direta ao modo como Grengrass levou o filme. Nada sobre a estética, a atuação, nem o roteiro. Baseia-se, apenas, numa perspectiva frankfurtiana de que o que é da massa é pobre esteticamente e ainda fala de uma “boa essência do cinema” que é algo, antes de tudo, subjetivo. Concordo que a grande maioria dessas mega-produções são ruins em vários sentidos, mas aqui e ali sempre tem algo bom, algo novo. E é preciso assistir para saber, perder preconceitos. Sem isso fica difícil discutir.

Esse debate, aliás, me lembrou uma aula com o eterno cinéfilo Jarbas Martins que confessou: via filmes como se ainda estivesse na guerra fria, depois que mudou seu olhar, passou a ver qualidade em obras que antes considerava ruins. Jarbas, como grande intelectual que é, teve a humildade de repensar e enxergar as coisas dentro do nosso contexto social, político e histórico. Diferente, nem pior, nem melhor.

O tempo, caro Fernando Monteiro, mudou. A arte mudou. O cinema mudou. Respeito a sua opinião, mas quero que veja que a lista da Times reflete um pouco desse novo contexto ao listar obras como Wall-E, Supremacia Bourne, para agouro dos ditos críticos que se fecham em pequenos círculos para adorar obras que nunca mais existirão dentro de uma “essência” cinematográfica intelectualóide.

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