Eastwood chega aos 80 anos, íntegro e coerente

Por Inácio Araújo
UOL

E hoje, nem bem eu havia acordado, o Giannini me liga em estado de euforia: “Sabia que hoje o Clint faz 80 anos”? E daí?

O Manoel de Oliveira está com 102. E este parece ser o ano dos 80 anos. Chabrol em junho. Godard em dezembro.

Mas, ok, existe algo especial no aniversário de Clint.

Ele me lembra uma coisa que disse Rossellini: o mais importante para um diretor de cinema é manter-se livre.

Diante de um colega que se queixou da falta de liberdade que sentia, Clint respondeu mais ou menos o seguinte: ninguém te obriga a nada.

Quer dizer: a liberdade é uma batalha. Não tem essa de ficar reclamando pelas costas e dizendo sim senhor ao produtor.

Isso é o que mais me impressiona no Clint. A imensa coerência. Ok, ela é maior e mais irretocável hoje. Mas as coisas em que acredita ou acreditou estão em seus filmes desde “Play Misty for Me” (Perversa Paixão), sua estréia como diretor, em 1971, por aí.

Ora, elas estão de forma ainda mais intensa.

“Gran Torino” (foto), para ficar com sua obra-prima mais recente, é uma retomada de parte considerável de sua vida. É uma espécie de Dirty Harry renascido num subúrbio de Detroit, mas agora incapaz de conceber a salvação do que quer que seja por sua ação.

Nada. Existe decadência, desindustrialização. Existe perda de um espírito que fez a grandeza da América e que o veterano de guerra acredita que está dita cuja, na guerra, na discriminação, na negação do outro.

Mas é o perfeito contrário: é na aceitação da convivência que está esse espirito, porque o americano puro que ele julga ser não passa de um Kowalski, de um polaco. Não é tão diferente de chineses, latinos, coreanos.

O que existe agora, para esse moralista que é Clint, é uma derrota da civilização.

Não há herói que reponha as coisas nos eixos, a não ser nos filmes 3D, nas HQs, nessas fantasias.

Ser fiel a si mesmo, ser fiel ao mundo que conheceu, ser fiel ao cinema, evocar essa grande tradição da imagem na América, essa é a tarefa a que Clint se designou.

Não, não é fácil chegar íntegro aos 80, não nos EUA, onde a indústria existe para boicotar cada autor, para dobrá-lo. E Clint chega com a força de seus pistoleiros.

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