Eco, Cirne e as listas

Por Maurício Caleiro
http://cinemaeoutrasartes.blogspot.com/

Final de ano e começam a pipocar listas de todo tipo: melhores discos, músicas, séries, pessoas mais mal e bem-vestidas, etc..

cirneAtual curador-convidado de uma exposição do Louvre intitulada “Mille e tre”, que “traça a evolução do conceito de lista através da história”, Umberto Eco afirma, em entrevista para o Der Spiegel, que o fascínio humano por listas deriva de nossa luta com a morte:

“Nós temos um limite, muito desencorajador e humilhante: a morte. É por isso que gostamos de todas as coisas que presumimos não ter limite e, portanto, fim. É um modo de escapar de pensamentos sobre a morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer”.

A matéria é encimada por foto do intelectual italiano (a quem nunca havia visto): parece, como se vê ao lado, um típico personagem de Fellini e, por uma dessas nebulosas relações que fazemos entre imagem e essência, aparência e conteúdo, alguém que não transmite visualmente a grande cultura e inteligência que possui. Imagino-o numa cena de Amarcord, como um velhinho ranzinza a ralhar contra uma fila que não anda…

Um tipo inesquecível

Mas data de muito antes da leitura da entrevista de Eco minha simpatia por listas, que se sobrepõe ao enfado que às vezes provocam. Isso graças a uma figura humana tremenda, o poeta e professor Moacy Cirne, com quem convivi durante toda a graduação.

A razão de ser de Cirne no ambiente universitário, além das aulas, era distribuir pessoalmente pelo campus o Balaio Porreta, um jornalzinho (com todo o respeito) de uma folha que às vezes chegava a três edições semanais, já teve 2849 números publicados e que era a um tempo remanescente da literatura de mimeógrafo e precursor da blogosfera, para onde acabaria por migrar – confira aqui a edição atualizada.

Potiguar, com um sotaque muito forte, cabelos e longa barba brancos, havia algo de Papai Noel sertanejo em sua figura – aspecto que se realçava nos eventos festivos da universidade, quando sorteava livros (dando preferência mal disfarçada às moças bonitas) e distribuía doses de uma cachaça especial que ele trazia do Rio Grande do Norte.

Uma figura dessas não poderia sobreviver impune à pseudo-profissionalização da academia brasileira: embora seja um dos maiores especialistas brasileiros em histórias-em-quadrinhos, com vários livros e artigos publicados, e faça parte da história da literatura nacional como um dos fundadores do poema-processo, Cirne, a partir de um determinado momento, passou a sofrer uma espécie de discriminação mal disfarçada no interior da universidade, tonando-se mais uma vítima da empáfia baseada em títulos –e não em conhecimento e cultura – ora vigente. Claro está que esses doutores imberbes de nariz empinado não têm um décimo da cultura de Cirne – para não mencionar sua coerência político-ideológica – para oferecer.

Cinéfilo refinado

No Balaio Porreta, além de dar vazão à sua vasta cultura geral, ao seu conhecimento profundo (embora tendencioso – menosprezando, por exemplo, Vinicius de Moraes) da poesia brasileira, às suas firmes posições esquerdistas – e de divulgar a poesia deliciosamente pornográfica de Chico Doido do Caicó (que eu por muito tempo julguei tratar-se do próprio Cirne) – ele elaborava tudo quanto é tipo de listas, das mais óbvias às mais inventivas, mas sempre com um conteúdo que indicava profundo conhecimento literário, musical, artístico e, sobretudo, cinematográfico.

Pois ele é um cinéfilo dos mais cultuados que conheci, como se pode constatar pela sua lista de melhores filmes dos anos 2000 até agora (desça a página até a edição de 13 de novembro) – só tem filmaços, raros nas listas dos ditos críticos especializados. Nos meus últimos tempos de Rio de Janeiro, eu o via sempre nas mostras e nas sessões alternativas, e às vezes trocávamos impressões, raramente coincidentes (pois ele tinha uma tolerância ao experimentalismo formal muito maior do que a minha), sobre o filme que acabáramos de ver. Lembro perfeitamente que foi ele a primeira pessoa que me chamou a atenção para Jacques Rivette, de quem ele adorava A Bela Intrigante (La belle noiseuse, França/Suíça, 1991), com suas quase quatro horas de duração – predileção a qual passei a compartilhar tão logo assisti ao filme.

Mas acima de todas suas qualidades intelectuais, sua bagagem cultural e sua coerência ideológica, o que Cirne transmitia era uma intensa afetividade, uma generosidade nada piegas, e uma solidariedade plena de calor humano. (Na pior crise empregatícia que vivi, quando terminei o mestrado e não conseguia emprego, encontrei-me por acaso com ele ao ir-me inscrever para um concurso. Nunca me esqueci da expressão sinceramente desolada dele ao saber de minha situação.) Não sei se ele está na ativa como professor ou se já se aposentou, mas tenho convicção de que tais qualidades fazem muita falta no ambiente universitário atual.

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E assim, com esse post-homenagem a um mestre querido,o blog chega, para minha surpresa, ao 100º post. Talvez eu não seja tão displicente quanto imagino…

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