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Ecoperformance na pele

Fazenda em Guaxupé (MG) recebeu artistas, produtores e educadores.

Uma Mostra de Ecoperformance – no ecossistema de uma fazenda – utilizou rituais gestuais para registrar protestos ambientais aliados a revoluções internas.

Na manifestação, participantes buscaram a entrecasca, aquela parte mais interna de plantas e árvores e pessoas. Chegaram ao entrecasco da arte, aquele processo fênix para quem o pratica.

As apresentações foram no domingo, dia 06, em Guaxupé, no Sul de Minas Gerais. Com 150 anos de história, a Fazenda Santa Maria substituiu a cafeicultura por um espaço cultural e de vivências terapêuticas.

As performances foram consequência de quase 60 horas de um “Ateliê Residência”, na fazenda, para atores, produtores culturais, arte-educadores…

O eixo-temático do Ateliê a “voz e corpo” foi conduzido pelo músico Rodrigo Reis, mestrando na linha de pesquisa poéticas e estéticas cênicas na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).

O Ateliê incluiu sons pré-verbais e balbucios. Glossolalia com fonemas da Língua Portuguesa.

Na Mostra, prevaleceu a linguagem visual, com exceção da música de encerramento e dos pequenos textos poéticos que abriam cada número, no sopro dulcíssimo da anfitriã Teresa de Toledo.

Os visitantes fizeram cortejos para assistir performances em diferentes territórios. Em cada lugar, uma sonoridade própria, que nem sempre se desvincula de alguns impactos visuais.

Betânia Ferraz estava sentada em um grande cupinzeiro, no terreirão desativado de café, onde havia um trapézio de circo.

Ela mostrou Desvalo e desnudou a segunda das cinco peles conceituadas pelo artista austríaco Hundertwasser: a pele natural, o vestuário, a casa, a cidade (e meio ambiente) e a pele planetária.

Com Vésper, Rodrigo se manteve plantado no chão, mas os gestuais intensos ganharam espaço. Ele registrou o efêmero, a vida que passa num instante. De imprevisto, houve participação cênica e vocal de vários passarinhos.

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Visitantes fizeram cortejos para assistir performances em diferentes territórios, cada um com sonoridade própria, nem sempre desvinculada de impactos visuais.

Beckett na fazenda

A atriz e doutoranda Laíse Diogo já tinha levado o teatro de Beckett para Fazenda Santa Maria. Na Mostra, performou Cair de Si, entre pedras. “Desmoronar é preciso. Há vida depois da queda.”

Essa reconstrução interna permitiu também associações sociais.  Durante a semana do Ateliê, um prédio de 24 andares caiu em São Paulo. Favelas e municípios mineiros são construídos sobre pedras. Muitos desmoronam.

Na fazenda, antigas casas de colonos vão se tornar “residências artísticas”. No entorno de uma delas, o jornalista Marcelo Dalla Pria apresentou Presságio. O feiticeiro saiu do interior da mata viva até cair num chão de cinzas de troncos. (Parece que ele vestiu o cinto indígena uluri, da entrecasca de árvore).

“Morrer é crucial quando se está em contato com árvores”, foi o texto de abertura para o ritual Coexisto e xamânico de Joaquim Madeira. Um homem de cara quente em cima de uma árvore seca em chamas.

Aline de Moraes encerrou o espetáculo (incômodo e essencial) com Mortal Loucura, de Wisnik, em forma de cantinela e batidas de tambor alinhadas ao ritmo do coração.

Depois das apresentações, algumas delícias para os convidados. Simbolicamente, um preparo alimentar semelhante à farinha de mandioca dos indígenas.

Outros povos descartam a sobrecasca dessa raiz. Indígenas sabem que esse escondidinho da mandioca dá força nutritiva e física para a ecoperformance do dia a dia na mata, na fazenda e na vida.

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