Edmund Wilson e os chatos da literatura

Por Julio Daio
Digestivo Cultural

Chatos literários sempre existiram. O problema é que, com a internet, eles ampliaram seu alcance. Esteja on-line, e mostre algum interesse por literatura, para receber spams de “originais” por e-mail, indicações de blogs literários de poesia (com rima) e até livros ruins de autores independentes (pelo correio). Chatos são inventivos e, em matéria de tecnologia, engrossam a massa implorando atualmente por atenção. De súbito, porém, um “aviso” do crítico norte-americano Edmund Wilson (1895-1972), um dos mais célebres do século passado, circulou a partir do blog de Timothy Ferriss. Nele, percebemos que os chatos literários são antigos, e vêm importunando a crítica, com seus pedidos, há décadas (apesar de, sempre publicamente, desfazerem dela). Está escrito em letra de forma: “Edmund Wilson lamenta ser impossível para ele…”. Seguido de uma lista das mais inoportunas solicitações literárias de todos os tempos: “Ler manuscritos”. Wilson não procurava ter novos “gênios” à vista. “Escrever artigos sobre livros”. Também: “Escrever prefácios e apresentações”. “Emitir pareceres [favoráveis]”. E, para completar: “Fazer qualquer tipo de trabalho editorial” (leia-se: envolvendo livros). Mais adiante: “Participar de concursos literários [julgando obras]”. “Tomar parte em congressos de escritores”. E, para encerrar: “Participar de simpósios ou ‘painéis’ de qualquer sorte”. Em seguida: “Fazer palestras ou discursos”. “Dar cursos”. Ou, pior: “Falar no rádio [sobre literatura] ou aparecer na televisão”. Na sequência: “Responder a questionários [sobre literatura]” (para estudantes que não querem fazer sua lição de casa). E, radicalizando: “Dar entrevistas”. Edmund Wilson também dizia ser-lhe “impossível”: “Doar seus livros para bibliotecas”. E (item polêmico): “Dar autógrafos a desconhecidos”. Por último, Wilson jamais poderia: “Fornecer informações sobre si mesmo”. E “fornecer retratos de si mesmo”. Se ainda restasse alguma dúvida, o último item: “Fornecer opiniões sobre literatura ou outros assuntos”. Com um adendo, manuscrito (e assinado): “Não falo em público mesmo se me oferecerem uma grande soma”. Edmund Wilson, se ainda vivesse, não teria celular, nem e-mail… Dois anacronismos que, se aplicados a chatos literários, deixam-nos hoje em dúvida…!

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