Eduardo Coutinho

Por Carmen Vasconcelos

Era Octavio Paz que falava sobre as repetições do escritor. Que o escritor falava sempre da mesma coisa nos seus escritos. Jorge Luis Borges também tinha suas obsessões e falou repetidamente de alguns assuntos: espelhos, tigres, espadas. Acho que, de fato, quem escreve, escreve sobre seus fascínios. Mas, mesmo escrevendo sobre as mesmas coisas, o talento de uma pessoa é que vai determinar se seus escritos serão chatices repetitivas ou assuntos sempre redivivos. E assim se dá, não só com escritores, mas, eu diria, com artistas. Tudo isso me veio à mente depois de assistir a uma parte (na verdade, quase todo) do documentário “A família de Elizabeth Teixeira”, do sensacional Eduardo Coutinho (no geral não gosto muito de superlativos, mas com Eduardo Coutinho não dá para dizer menos que isso). Olhando em perspectiva, toda a história desse documentário; que não se esgota apenas nele, mas complementa e amplia o “Cabra marcado para morrer”, ao lado de “Sobreviventes da Galiléia”; é a tradução das obsessões artísticas de Eduardo, e se enlaça tragicamente com a sua própria vida. As vidas dos membros da família de João Pedro Teixeira, contadas em três momentos pelo cineasta, da forma que são contadas, parecem irmanar-se com a vida e a morte do próprio Eduardo, como se houvesse alguma espécie de destino que também o estivesse marcando para morrer. Há, entre Coutinho e seus personagens, mais que a coincidência dos assassinatos cometidos na família (João Pedro Teixeira foi morto pelo sogro, um de seus filhos assassinou o irmão. Eduardo foi assassinado pelo filho, em 2014, logo após firmar “A família de Elizabeth Teixeira”). A tragédia da vida se mostra sem pejo, sem vestes. Os vazios que todos temos, e que confirmam essa tragédia, são contados de forma impactante, ainda mais porque, vistos em perspectiva, sua existência ultrapassa as telas, as vidas contadas. É o contador de histórias que nelas parece encontrar seus próprios vazios. Os documentários “A família…” e “Sobreviventes da Galiléia” foram feitos em 2013. Com eles, Coutinho quis fechar a história do “Cabra marcado…” A história de Eduardo Coutinho fechar-se-ia pouco depois, quando foi assassinado pelo filho, em 2014. Mas, além das tragédias familiares, há outra tragédia. Essa é lembrada por Elizabeth, a viúva de João Pedro Teixeira, aquele que morreu acreditando que a reforma agrária seria feita no Brasil: há quanto tempo João Pedro morreu, e a reforma agrária ainda não chegou, disse ela. Num momento em que o retrocesso ganha força no país, esses documentários de Eduardo Coutinho são mais do que oportunos, são indispensáveis.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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