Ela

(Mulher acima dos 70 anos entra em cena, anda tranquilamente como se estivesse em casa. Realiza pequenas ações cotidianas, uma delas é fazer crochet sentada numa cadeira. Ela não demonstra nenhum sentimento. Semblante neutro.)

Cena 1

A: Ela não tá feliz.

B: Por quê?

C: Ela aí sozinha nessa casa enorme.

D: Agora pronto. Uma mulher sozinha em casa é sinônimo de tristeza?!

E: Não é por ser mulher.

D: É por ser Velha, né?

A: Não é por isso. É pela expressão dela.

B: Eu não vejo nada demais.

C: Eu vejo uma mulher que já viveu muito.

D: Sim. E que guarda essa experiência. Sem ansiedade ou rancor.

B: Sem qualquer sentimento negativo.

E: Algum pensamento negativo ela tem.

A: Aposto que os filhos não a visitam faz anos.

C: E ela já não tem nenhuma companhia.

D: Ai meu São José da Misoginia. Ela pode nem ter tido filhos.

B: Nem nunca ter casado.

A: Isso. Uma mulher que dedicou a vida ao trabalho. Ao desenvolvimento pessoal.

E: Ao futuro. Uma visionária.

C: Eu acho que vocês tão viajando. Ela é uma mulher simples.

A: Uma mulher que gosta das coisas simples.

D: Uma mulher que luta pelas coisas simples do seu povo.

E: Uma conquistadora.

A: Uma escritora.

B,C,D,E: Uma escritora!

A: Que não consegue mais escrever.

C: Que não consegue mais publicar.

D: Que não tem quem a leia, por puro preconceito.

B: Que foi atropelada pelo tempo. Pelas tecnologias. Pelo excesso de informação. Pelos radicais.

A,C,D,E: Pelos radicais?

B: Sim. Por aqueles que já não aceitavam seus escritos.

D: Uma revolucionária.

A,B,C e E: (fazem que não com a cabeça e resmungam)

D: de ideias. De ideais. (A mulher para de fazer o crochet)

C:  Olha la.

A: Ela parou. .

B:Ta pensando.

D: Ta lembrando!

Cena 2

(a mulher desfaz todo o crochet e recomeça)

B: Ela não se importa.

A: Com o que?

B: Com o que os outros pensam.

D: Ela ja superou o tempo, as tecnologias.

E: Ela já superou o outro.

C:Mas tem algo que a incomoda.

B: Verdade. O olhar é de incômodo.

A: Ela não aguenta.

D: O que?

E: O hoje. (tom de deboche) O contemporaneo (todos riem)

C: Ela se incomoda com o que a gente virou.

A: Ela se incomoda porque ela também virou.

D: Não. Ela continua sendo o que era. Mas eles não..

B,C,A,E: Eles não…

D: Eles nunca…

B,C,A,E: Eles nunca?

D: Eu não sei. Eu não tenho a resposta. Eu não tenho a verdade. Acabou isso. Nem existe isso. Nunca existiu.

C: A verdade?

D: sim.

E: Ela se incomoda com a pos-verdade.

B e A:(aplaudindo debochados) Menina, Abalou as estruturas.

A: Aliás, as pós-estruturas (todos riem)

E: Ela é essa. Uma mulher, uma mulher velha, uma mulher consciente que tece e desmancha a vida.

D: Uma libertária que se recusa a morrer.

Ilustração: Ping Zhu

Ator, dramaturgo, produtor e encenador teatral. [ Ver todos os artigos ]

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