Ela, a sã

Por Maria Clara Paiva

{Sugestão de música para ouvir acompanhando a leitura}:

 

Era madrugada, e ela devaneava debruçada, ali, na janela do apartamento, na porta do seu mundo. Em tudo via beleza, encantava-se com a harmonia do apagar das luzes e o despertar da liberdade da mente. Pensava consigo, que aquele era o momento em que todos se embriagavam pelo sabor dos sonhos antes adormecidos, pelos desejos encharcados de pressa, pela paz trazida através do silêncio, ou ainda, pela solidão dos que ansiavam abandonar a calmaria.

Para ela era possível enxergar através das paredes, dos muros, dos medos, dos traumas, das peles, das histórias.
Uma criança dormia no deleite do seio da mãe, e uma morna luz rosada irradiava de dentro dos seus corações: não existia, naquele momento, contos com bruxas, maçãs envenenadas e lobos antipáticos.

O ressonar de um casal de idosos, recolhidos embaixo do antigo edredom xadrez, sugeria quantas histórias e batalhas foram travadas, vencidas e perdidas. Um jovem por trás da névoa do cigarro, lançava seu olhar perdido e vago: um amor perdido, traído, impossível, distante, confuso; ou um simples hedonismo mal interpretado.

Um senhor adormecido pelo cansaço, recolhia-se no calor da caixa de papelão largada, afortunadamente, na calçada. Liberto da cegueira do materialismo, era nato poeta e pintor, de belas percepção e polidez, mas não dispunha de tintas, canetas. Não escrevia seu próprio nome.

Detalhes não passavam despercebidos. Imaginava. Sozinha, uma despretensiosa curva se punha em seus lábios, apenas por sentir a brisa úmida e aconchegante tocar a pele. Sorria livre das razões socialmente tangíveis. A sua alma sorria. Sabia que, apesar dos pesares, todos veriam dias de sol, de chuva, de neblina, de movimento. Viveriam. Isso bastava, a simplicidade e sua suficiência.

Afinal, o universo sempre apontava os caminhos para quem os buscava, nunca dispensando a vontade de enxergá-los de fato.

Ela sentia, com o cair do azul escuro, que nem tudo se pode, ou se deve agarrar com as mãos. Há coisas que se deve deixar correr entre os dedos até se esvaecerem: lembrou de quando segurou, pela última vez, um punhado de areia da praia. Todas as coisas pertencem ao mundo, e muitas delas que só se agarram com o coração. O azul partia, então, tudo partia. Um dia, ela também partiria – para um outro país, uma outra cidade ou dimensão.

Devaneava, sem sequência, e com a decência de quem deseja, apenas, encontrar-se, perdendo-se. Ela sabia, nas profundezas de sua consciência, que aquilo lhe traria lucidez.

Ali, naquela madrugada, ela era alguém – sabia que era -, ainda que dita incapaz pelas leis escritas pelos homens.
Ela era sã em sua plena loucura. Na janela do apartamento, na porta de seu mundo.

Natural da Cidade do Sol. Estudante de Psicologia. Amante de prosa, poesia e música clássica. Contempla a beleza de um abraço apertado e da espontaneidade de um sorriso largo. Não dispensa um moleskine dentro da bolsa. Devaneia mais do que se acha à primeira vista. [ Ver todos os artigos ]

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