Ele existe, ele existe, ele existe

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Erasmo em 1977. Naquela década, o músico carioca se desgarrou do iê-iê-iê para abraçar o samba-rock, o soul e a psicodelia

Por José Flávio Júnior
Foto Luiz Paulo Machado

Graças à parceria de cinco décadas com Roberto, Erasmo Carlos – o compositor – sempre teve forte presença na cultura popular brasileira. Como cantor, entretanto, vivenciou só dois momentos de sucesso comercial. O primeiro se deu nos anos 60, período em que foi um dos pilares da Jovem Guarda e ganhou o apelido de Tremendão. O segundo ocorreu na primeira metade dos 80, quando Erasmo despontou com hits sobre o universo feminino (ou quase): Mulher (Sexo Frágil), Minha Superstar e Close, cujo clipe trazia como protagonista a transexual Roberta Close. Mas o pedaço mais cultuado de sua discografia encontra-se justamente entre essas fases. São LPs que, embora valorizados por colecionadores e artistas da nova geração (Céu, Marcelo Jeneci), ainda têm ouvidos a conquistar. A caixa de CDs Três Tons de Erasmo Carlos pode contribuir para mudar tal cenário.

Do lançamento, fazem parte Carlos, Erasmo (1971), Sonhos e Memórias 1941-1972 (1972) e Banda dos Contentes (1976), respectivamente o sétimo, o oitavo e o décimo álbuns do carioca. Antes, eles só estavam disponíveis no box Mesmo que Seja Eu. Caro, o pacote de 2002 trazia outros 13 discos e serviu de estopim para a revitalização do legado setentista de Erasmo. É fascinante vê-lo se desgarrar do iê-iê-iê ingênuo que marcara o início de sua carreira e abraçar o samba-rock, a soul music, a psicodelia e a filosofia hippie. Composições dos tropicalistas Caetano e Gil e de outros nomes relevantes da MPB (Belchior, Marcos Valle) dividem espaço com inspirados temas próprios de um astro que, na faixa dos 30 anos, experimentava o casamento e a paternidade.

Xaveco

 Carlos, Erasmo marca a guinada.O cantor soltara um ótimo disco em 1970, que já dava sinais da revolução artística vindoura, mas foi só quando chegou à Philips, sua nova gravadora, que ele radicalizou. Com Roberto, assinou Gente Aberta, um libelo libertário em plena ditadura, e Maria Joana, ode à maconha, sob brumas de percussão caribenha. Outro ponto alto: Agora Ninguém Chora Mais, de Jorge Ben, em que a guitarra lisérgica de Lanny Gordin solta faísca.

Já o álbum Sonhos e Memórias revela-se mais dolente, vide Grilos e sua guitarra havaiana, mas pesa na releitura hard rock de É Proibido Fumar e na letargia à Pink Floyd de Sábado Morto. Por fim, o analítico Banda dos Contentes apresenta algumas das melhores letras do artista. Da abertura, com Filho Único (“Ei, mãe, não sou mais menino/ Não é justo que também queira parir meu destino”), ao lado B, com a inacreditável Baby, um xaveco em uma feminista (“Deixe os seus protestos e os manifestos/ Pra outra periferia/ Não fui eu quem fez as leis/ Que não lhe dão maior autonomia”). Juntos, os LPs formam a trinca ideal para lembrar que Erasmo existe. E está entre os maiores.

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