Elegia a Pessoa no elogio a Lisboa

Por Dellano Rios
DIÁRIO DO NORDESTE

Romance do italiano Antonio Tabucchi convida a um passeio onírico pelas ruas da capital portuguesa

Antonio Tabucchi (1943 – 2012) nasceu em Pisa, na Itália, mas pertencia a um outro lugar: Portugal. A paixão que arrebatou o escritor foi completa: da geografia à gastronomia, das gentes à literatura. Neste domínio, Fernando Pessoa (1888-1935) roubava-lhe todas as atenções. Tornou-se um especialista no poeta português, de quem se tornou tradutor para o italiano.

É como uma declaração de amor que se lê “Requiem – Uma alucinação”, romance escrito no começo dos anos 90 que só agora ganha edição brasileira, pela Cosac Naify. A demora impressiona porque sequer era necessário traduzir a obra (Tabucchi a escreveu originalmente em português), além do apelo à figura de Fernando Pessoa, personagem na história e ponto de referência para o autor.

O enredo de “Requiem” segue os passos do narrador – que herda as memórias e a personalidade de Tabucchi, de forma que poderia bem ser tomado por um livro de memórias, não fosse a inverossimilhança da trama. A história começa a ser contada ao meio dia de um domingo ensolarado em Lisboa. Estamos na última década do século XX. A cidade está deserta e o narrador se dá conta que errou o horário de seu encontro com o poeta Fernando Pessoa. São 12 horas, mas da noite. E até lá o narrador vai ocupar seu tempo, buscando acertar contas com fantasmas de seu passado.

Falar em fantasma não é figura de linguagem – há sim mortos que aparecem ao narrador e com ele tentam resolver impasses que com eles foram enterrados. Tabucchi, no ensaio “Um universo numa sílaba: Vagabundagem à volta de um romance”, que faz as vezes de posfácio da edição brasileira, chega a revelar que foi um estranho sonho com seu pai, então já falecido, que deu origem à obra.

A alucinação

Contudo, não se deve tomar o livro por uma ficção no terreno do sobrenatural, ou uma obra de realismo fantástico. O subtítulo é preciso de traduz bem a proposta de Tabucchi: uma alucinação.

Ainda que a maior parte da ação transcorro sob o sol forte, com o protagonista em roupas empapadas de suor, há qualquer coisa de crepuscular em “Requiem”. As ações parecemos estar no lusco-fusco, quando as luzes artificiais não conseguem iluminar bem e tudo é coberto por uma sombra suave. Ela se assemelha àquelas primeiras horas da manhã, à vigília que antecede o despertar, quando não temos certeza de estarmos acordados – ou, ainda, tendo consciência de já estarmos conscientes, mesmo assim seguimos sonhando.

O narrador está sempre a relembrar o quão deserta está a cidade. E, ao que consta ao leitor, os únicos que estão em Lisboa naquele onírico domingo são os personagens com quem o narrador dialoga. Eles parecem figura típicas (ou arquetípicas) dos portugueses, apesar de serem em sua maioria alentejanos. A exceção são os fantasmas do passado do narrador, que não lhe assustam, mesmo quando sutilmente lhe cortejam a companhia, de forma que esta se alongue.

Cinza

O lusco-fusco deste réquiem não é apenas o intermeio da luz do dia e das sombras da noite; mas da luz do humor, da comédia, e das sombras da melancolia, do drama.

Uma cena que bem ilustra essa dupla disposição do escritor é a do encontro do narrador com uma Velha Cigana à porta do cemitério. É lá que ele receberá um importante conselho (como se pode ler no box em destaque). Para que possa ser assim, a cigana convence o narrador a comprar-lhe camisas para substituir aquela que já está empapada. Eles se detêm numa conversa sobre camisas Lacoste falsificadas ou autênticas. Antes disso, a corrida de táxi que o conduz ao encontro com a cigana é uma comédia de erros. Por fim, Tadeus, o defunto-amigo é irritantemente cômico, mesmo que o papo entre os dois tenha a marca da tragédia.

Intertextualidades

De forma sutil, o autor dialoga com Pessoa (aparentemente ausente da maior parte da trama), seja flertando com a ideia de seus heterônimos (o que são, por acaso, os personagens de um romance senão variações daquele que cria?); com a melancolia do poeta; a história (aqui, apequenada) de Portugal, que lhe fascinara; a mágica e o mistério da morte; e, claro, a própria criação literária.

“Requiem” é um livro bonito, de uma tristeza austera. É daqueles que convida à releitura, tal qual Lisboa sugere, sempre, a uma nova visita.

Trecho

Seguindo o conselho da Velha Cigana

“O que é que eu devo fazer?, perguntei, diz lá, Velha Cigana. Agora não podes fazer nada, respondeu ela, o dia de hoje espera-te e tu não podes fugir, não podes escapar à tua sina, vai ser um da de tribulação mas também de purificação, talvez depois fiques em paz contigo próprio, emu filho, pelo menos é o que eu te desejo A Velha Cigana acendeu um charuto e engoliu o fumo. Agora estende a mão direita, disse, para que eu possa completar a minha observação. Olhou com atenção e acariciou a palma da minha mão com os seus dedos ásperos. Vejo que tens que visitar uma pessoa, disse, mas a casa que procuras só existe na tua memória ou no teu sonho, podes dizer ao táxi que está à tua espera para te deixar aqui, a pessoa que procuras está mesmo aqui ao pé, para lá desse portão. Apontou na direção do cemitério e disse: vai, meu filho, vai ao encontro que te espera.” (Páginas 18 e 19)

Livro

Requiem – Uma alucinação
Antonio Tabucchi

Cosac Naify
2015, 128 páginas
R$ 32,90

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